1978.IASFM.V02.N05 – Editorial: Popular, Mas Nunca Vulgar

Nona edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Segue a tradução para o Português do Editorial de Isaac Asimov.

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EDITORIAL: POPULAR, MAS NUNCA VULGAR

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A palavra em Latim “populus” significa “pessoas”; a palavra em Latim “vulgus” também significa “pessoas”.

Em Inglês (e em Português também) temos a palavra “popular” e a palavra “vulgar”, ambas se referem a atributos relacionados a pessoas. Podemos ter, por exemplo, “eleições populares”, que significa que as pessoas em geral, em vez de apenas um grupo privilegiado de indivíduos, podem votar. Temos também “língua vulgar”, que significa a língua falada pelas massas, em vez do Latim que era falado pelas altas classes.

Claro que podemos, ao utilizar o termo “pessoas”, nos referir a toda a população sem nenhuma distinção. Podemos, por outro lado, nos referir à maioria das pessoas mudando o termo para “pessoas comuns”, distinguindo-as das classes “melhores” ⏤ melhores seja através do nascimento, educação ou autoestima.

É possível, para os que possuem uma mente democrática, usar os adjetivos com um sentido favorável e ter os melhores pensamentos em tudo o que se refere às características das pessoas. Para os que possuem uma mente mais esnobe, é possível usar os adjetivos com um sentido desfavorável, e pressupor que tudo o que agrada às massas tem que ser necessariamente de qualidade inferior, posto que somente um longo processo de cultivo intelectual pode subir o nível de fruição até que alcance o gosto refinado desses privilegiados.

Em nosso idioma Inglês, diferenciamos esses dois significados, e “popular” acabou por representar os aspectos favoráveis do gosto geral, enquanto “vulgar” passou a representar os aspectos desfavoráveis. Por isso que Shakespeare faz com que Polonius aconselhe seu filho da seguinte forma: “Seja popular, mas nunca vulgar”.

Em Francês, creio que a distinção seja menos evidente. Eu mesmo, por exemplo, já fui descrito em Francês como estando envolvido com a “vulgarização” da ciência. Esse comentário teria me deixado irritado se as frases em volta não deixassem claro que se tratava de um elogio.

Em Inglês, no entanto, somente é possível dizer que eu sou um “popularizador” da ciência. Se alguém tentar afirmar que sou um “vulgarizador” da ciência, é melhor que seja um amigo meu e que esteja sorrindo na hora que o disser.

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Apesar disso, não consigo evitar pensar que, para alguns cientistas, não existe “popularização” da ciência, somente “vulgarização”.

Por que? Pela razão de sempre – arrogância.

Não é raro encontrar um cientista que se ache um membro da aristocracia intelectual. Alcançar o nível de profissionalismo nas Ciências requer um certo tipo de inteligência, curiosidade, dedicação e um treinamento diligente que não é muito comum. Pelo fato de não ser comum, existe uma tendência a entender que seja também superior.

Existem, naturalmente, duas maneiras de agimos no que se refere à essa dita superioridade (seja real ou imaginária). Você poderá decidir que, ao possuir mais desse talento privilegiado, terá também que arcar com certas obrigações especiais (“nobres obrigações”). O verdadeiro cavalheiro ou a verdadeira dama, que ocupa uma posição favorável na sociedade, terá padrões de comportamento e cortesia que não serão exigidos de uma pessoa comum, mas que deverão ser dirigidos a todos, sempre que possível, e não somente a outros cavalheiros e damas. Se maneira similar, o verdadeiro intelectual, que atingiu um nível de compreensão refinada em qualquer campo do conhecimento, deverá fazer com que esse aprendizado esteja disponível, dentro do possível, para todas as pessoas e não somente para outros intelectuais.

Por outro lado, você poderá decidir que existe um enorme penhasco entre você e os menos favorecidos; penhasco esse que não poderá ser atravessado de forma alguma desde que essa diferença seja uma diferença de castas, ou então que poderá, sim, ser atravessado, porém somente com um esforço descomunal por parte do menos favorecido, caso essa diferença seja no campo do aprendizado e educação. Nesse caso, o mais favorecido não irá extender uma mão para ajudar, pois poderá ser interpretado como “vulgar” e levantaria a suspeita de que aquele que extende a mão talvez não seja verdadeiramente um membro dessa classe superior.

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Obviamente, minha percepção é a da “nobre obrigação”, ou eu não estaria na profissão que ocupo.

Tampouco é uma questão de preferência pessoal. Ao meu ver, a “nobre obrigação” dos intelectuais tornou-se uma questão de vida ou morte para a sociedade. Considere:

1) A Ciência não é mais somente um interesse de algumas poucas almas que buscam desvendar os mistérios do Universo devido apenas à curiosidade pessoal. A Ciência não poderá pertencer ao âmbito unicamente pessoal uma vez que dependa do financiamento público ⏤ e é exatamente o que acontece hoje em dia. Depende diretamente, através dos fundos recebidos do governo para os projetos científicos; ou indiretamente, através do apoio da indústria, que é conseguido através de um aumento apropriado dos preços dos bens e serviços.

2) A Ciência não está mais dissociada do bem ou do mal, como já foi um dia quando vivia dentro das torres de marfim (ou pelo menos achava que estava). Os avanços científicos podem facilmente produzir algo que irá, propositadamente ou acidentalmente, servir para destruir a civilização ⏤ ou salvá-la.

3) A Ciência não é mais uma atividade que pode ser praticada somente por alguns poucos voluntários. Precisamos de muitas pessoas treinadas em diferentes níveis de conquistas científicas, se queremos que nossa civilização tecnológica funcione, e essas pessoas somente poderão ser buscadas no grupo das pessoas comuns e somente através de um ativo proselitismo.

Então, se é o homem comum que está pagando pelos avanços científicos, também merece saber o máximo possível sobre esse produto pelo qual está pagando ⏤ para que possa saber escolher com inteligência a melhor maneira de continuar dando seu apoio.

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Já que a destruição ou salvação do homem comum depende dos avanços científicos, ele também merece saber o máximo possível sobre aquilo que o irá destruí-lo ou salvá-lo ⏤ para que possa se comportar de tal maneira que conduza os avanços para longe da destruição e mais próximo da salvação.

Se é dos homens e mulheres comuns que sairão os cientistas e os técnicos do futuro, então deverão saber o máximo possível sobre tais profissões ⏤ assim poderão escolher com mais preparo seu ponto de entrada.

Cada cientista é, naturalmente, parte da gente comum. Paga seus impostos, será o objeto da destruição ou salvação tecnológica, e poderá sofrer da possibilidade de um desastre tecnológico pela falta de profissionais qualificados. A popularização da Ciência é, por consequência, tão necessária para o cientista quanto para qualquer outra pessoa, e se qualquer cientista encarar a popularização da ciência como vulgarização, então ele ou ela é um idiota. ⏤ Um idiota perigoso, ainda por cima.

Já se vão 20 anos desde que parei de lecionar dentro da sala de aula, e de vez em quando me perguntam se eu sinto falta, ou se eu me sinto mal por ter “abandonado” o ensino. Minha resposta é “não”, pois eu nem abandonei o ensino nem minhas aulas. Eu ainda ensino através dos meus livros e palestras, e alcanço uma “turma de alunos” muito maior, e em muito mais campos de estudo, do que eu jamais consegui dentro da sala de aula.

Também me perguntam se eu me arrependo de “não ser mais um cientista”. A resposta também é “não”, pois eu ainda sou um cientista. Na verdade, já que hoje em dia eu dedico praticamente todas as horas em que passo acordado a ensinar a todos que posso alcançar (o que eu considero o dever mais importante de qualquer cientista quando ele não está engajado diretamente em pesquisas), eu me sinto um cientista em atividade mais do que nunca.

Tudo isso tem uma aplicação precisa na ficção-científica. Ensinar ciências pode até não ser a função primária da ficção-científica. Mas tampouco devemos permitir que a ciência seja ensinada errada dentro dela.

Se você vai levar sua nave espacial para Titan, não há necessidade de transformar sua história num diário de viagem, nem precisa se sentir obrigado a compartilhar todas as informações técnicas do mundo em que você está pousando. Você pode fazê-lo, se é capaz de introduzir esse tipo de texto na história organicamente, mas não é necessário.

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No entanto, sob condição alguma, você poderá descrever Titan como sendo o satélite de Júpiter (por que não é) em vez de um satélite de Saturno (que é o correto).

Erros acontecem. Escritores são humanos. George Scithers é humano. Até mesmo eu sou humano, de vez em quando. Em uma edição anterior, uma ilustração, observada em conjunto com a história, implicava em que Titan fosse um satélite de Jupiter, e por conta disso nós pedimos desculpas.

Eu não posso garantir que nunca mais cometeremos erros. Na verdade tenho certeza que os cometeremos. No entanto, quando isso acontecer, será apesar de todos os nossos esforços para que não aconteçam.

Não fazemos coro com aqueles que dizem: “Que mané detalhes científicos, que nada! O que importa é a história”.

Nosso papel aqui não é lhes trazer somente histórias. Nosso papel é lhe trazer histórias de ficção-científica. E não é possível ter boas histórias de ficção-científica se a parte científica também não é boa.

Sendo assim, uma mensagem para você, aspirante a escritor de ficção-científica ⏤ você não precisa achar que deveria ter um diploma para poder escrever (⏤ seja popular ⏤); mas deverá, sim, aprender o suficiente para dar conta da história em particular que você deseja escrever (⏤ mas não vulgar).

Abaixo, a seção de cartas.

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