Isaac Asimov’s Magazine V02N02 (mar/abr 1978)

Sexta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando a tradução dos Editoriais de Asimov. Esperamos que curtam!

Isaac Asimov's Magazine V02N02 01

EDITORIAL: VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS

Um dos passatempos preferidos por aqueles interessados na ficção-científica — escritores, editores, fãs, leitores — é definir o que é ficção-científica. Mas que diabos é isso? Como diferenciá-la da fantasia? Da ficção em geral?

Provavelmente, existem tantas definições quanto existem pessoas tentando defini-la; e as definições vão desde aquelas dos exclusivistas extremos, que querem a sua ficção-científica pura e com temas mais difíceis, até aquelas dos que querem que sua ficção-científica englobe tudo que existe.

Aqui vai uma definição exclusivista extrema de minha própria autoria: “A ficção-científica lida com cientistas trabalhando com a ciência no futuro”.

Agora veja uma definição inclusivista extrema, de John Campbell: “Ficção-científica é qualquer história que é comprada por um editor de uma revista de ficção-científica.”

Agora, uma definição mais moderada (mais uma vez, de minha autoria): “A ficção-científica é o ramo da literatura que lida com as reações da humanidade às mudanças que ocorrem no nível da ciência e da tecnologia.” Isso deixa em aberto se as mudanças são avanços ou retrocessos e, no que se refere à parte que diz “reações da humanidade”, se o escritor pode referir-se a essas mudanças somente de passagem e sem muitos detalhes.

Para alguns escritores, na verdade, a necessidade de discutir aspectos científicos é tão mínima que eles não gostam nem de usar a palavra “científica” para nomear esse gênero literário. Eles preferem chamar o que quer que seja que eles escrevem de “ficção-especulativa”, o que, em inglês, permite que se mantenha a mesma abreviatura: “SF.” (speculative fiction, como em science-fiction).

(Eu não gosto do termo speculative fiction, a não ser pelo fato que ele talvez pudesse abolir o abominável termo “sci-fi”. Mas aí talvez ele criasse “spec-fic” no lugar, o que é ainda pior)

—> (continua após a figura abaixo)

Isaac Asimov's Magazine V02N02 02

De vez em quando me dá vontade de repensar tudo por um ângulo novo, então porque não buscar uma abordagem histórica para a definição? Por exemplo:

Qual é a primeira obra literária do ocidente que possuímos intacta, e que possa ser considerada pelos inclusivistas como ficção-científica?

Que tal a “Odisséia” de Homero? A obra não lida com a ciência em um mundo que ainda não a havia inventado; mas lida com os equivalentes a monstros extraterrestres, tais como Polifemo, e com pessoas que tem à sua disposição o equivalente à ciência avançada, como Circe.

Mesmo assim a maioria das pessoas se referem à “Odisséia” como um “conto de viagem”.

Mas tudo bem. Os dois pontos de vista não são necessariamente mutuamente excludentes. O “conto de viagem”, no final das contas, era a história de fantasia original. Por que não seria? Antes de nosso tempo, viajar era o árduo luxo de alguns poucos, e somente eles tinham a capacidade de ver coisas que a vasta maioria da humanidade não tinha.

A maioria das pessoas, até pouco tempo atrás, vivia e morria na mesma cidade, no mesmo vale, no mesmo metro quadrado de terra no qual eles nasceram. Para eles, tudo o que houvesse além do horizonte era fantasia. Poderia ser qualquer coisa — e eles poderiam acreditar em qualquer coisa que lhes afirmassem que existisse naquelas terras de maravilhas a mais de 80 quilômetros de distância. Plínio não tinha tanto conhecimento assim que não pudesse acreditar nas fantasias que lhe contavam sobre as terras distantes, e mil anos de leitores acreditaram em Plínio. Sir John Mandeville não teve nenhuma dificuldade em contar suas histórias ficcionais de viagem como se fossem verdadeiras.

E por 25 séculos após Homero, quando alguém queria escrever uma história de fantasia, escrevia um conto de viagem.

Imagine alguém que sai a navegar, chega a uma ilha desconhecida e lá encontra maravilhas. Não é assim a história de Simbad, o Marujo, e seus relatos sobre o Rukh e o Velho do Mar? Não é assim a história de Lemuel Gulliver e seus encontros com os Lilliputians e Brobdingnagians? Aliás, não é assim a história de King Kong?

O Senhor dos Anéis, juntamente com a sua horda de imitações abjetas, é também um conto de viagem.

No entanto, esses contos de viagem não seriam mais fantasias, em vez de ficção-científica? Onde é que entra a “verdadeira” ficção-científica?

Considere o primeiro escritor profissional de ficção-científica, o primeiro que ganhava a vida graças a sua indubitável ficção-científica — Júlio Verne. Ele não se considerava um escritor de ficção-científica, pois o termo ainda não havia sido inventado.

Por doze anos ele escreveu para o palco francês com pouco sucesso. Mas ele era um viajante e um explorador frustrado e em 1863, de repente, recebeu um pagamento vultuoso pelo seu “Cinco Semanas em um Balão”. Ele considerava seu livro como um conto de viagem, mas de um tipo diferente, já que ele fazia uso de um equipamento só tornado possível graças ao avanço da ciência.

Verne seguiu esse caminho de sucesso utilizando outros dispositivos científicos, tanto do presente como do futuro possível, para levar seus heróis cada vez mais longe, em suas “viagens extraordinárias” — das regiões polares até o fundo-do-mar, passando pelo centro da Terra, até a Lua.

—> (continua após a figura abaixo)

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A Lua tem sido um destino atraente para os autores de contos de viagem desde Luciano de Samósata, no Século I d.C. Nesses casos, a Lua era considerada simplesmente como mais uma terra distante, mas o que Verne fez de diferente é que ele se esforçou para que seus heróis chegassem lá através de princípios científicos que ainda não haviam sido aplicadas na vida real (apesar dos métodos não serem possíveis de serem realizados do jeito que ele os descreveu).

Depois dele, outros escritores levaram seus personagens em viagens ainda mais longas até Marte e outros planetas; e finalmente em 1928, E.E. Smith, em seu “The Skylark of Space,” rompeu todos os limites com seu “motor sem inércia” e levou a humanidade até as estrelas mais distantes. (clique no link do Projeto Gutemberg para baixar o livro de graça, em inglês)

Ou seja, a ficção-científica começou como um desenvolvimento do conto de viagem, diferenciando-se principalmente no fato de que os meios de transporte e comunicação descritos ainda não existem, mas poderiam existir se o estágio da ciência e da tecnologia em determinado momento fossem extrapolados até estágios mais avançados no futuro.

Mas, com certeza, nem toda a ficção-científica pode ser considerada um conto de viagem. E quanto as histórias que se passam bem aqui na Terra mas lidam com robôs, ou com desastres nucleares ou ecológicos, ou ainda, com novas interpretações do passado distante?

Nenhum desses cenários, porém, acontece “bem aqui”, na Terra. Seguindo a tradição de Júlio Verne, tudo o que acontece na Terra só é possível em função das mudanças contínuas (avanços, normalmente) no nível da ciência e da tecnologia, de forma que a história deve acontecer “bem aqui”, mas numa Terra do futuro.

O que você acha, então, da seguinte definição: “Histórias de ficção-científica são viagens extraordinárias que nos levam a qualquer um dos infinitos possíveis futuros.”?

— Dos quais temos amostras bem aqui nesta edição — e em cada uma das nossas edições.

—Isaac Asimov

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Blablabla

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Isaac Asimov’s Magazine V02N01 (jan/fev 1978)

Quinta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. A partir deste número, as edições passaram a sair bimestralmente.

Seguimos disponibilizando a tradução dos Editoriais de Asimov. A edição de hoje é especial pois Asimov fala sobre o ataque do coração que sofrera em maio de 1977 — e da consequente reação dos amigos e fãs. Aproveitem a leitura! Tradução em português logo após a figura abaixo.

Ao final do post, como sempre, você também encontrará a sessão de cartas da mesma edição, em inglês, para quem tiver interesse.

Isaac Asimov's Magazine V02N01 01

EDITORIAL

Sempre houve uma irmandade dentro da ficção científica que sempre transcendeu as briguinhas triviais e mexericos que, no passado, já mancharam a imagem de fanzines e do augusto grupo dos Escritores de Ficção Científica dos Estados Unidos.

Pode ser que travemos embates entre nós a respeito de assuntos sem maiores consequências mas, na adversidade, juntamos forças como ninguém! Mais que tudo, nosso senso de união se sobrepõe a qualquer sentimento de ‘competição’.

Talvez isso tenha origem nos dias em que a ficção científica era a categoria mais desvalorizada dentro das revistas “pulp”, o beco com as piores oportunidades e o pagamento mais baixo — o pior dos piores, por assim dizer. Por isso, aqueles que eram devotos desse campo se sentiam como párias, isolados, e tinham que se unir para se defenderem. Além disso, aqueles que realmente conseguiam escrever para a mídia tinham que saber que o faziam por amor e não pela grana, e eles tinham que se sentir como uma irmandade. Como poderia haver competição se não havia nem dinheiro nem fama pelos quais competir?

Pode ser que aqueles que entrem nesse campo nos dias de hoje — após a ficção científica ter sobrevivido à morte das revistas “pulp” — após ter entrado num período de respeito quase exagerado, tanto para o público em geral como para os acadêmicos — após ter invadido triunfalmente as mídias visuais — pode ser que esses não se sintam tanto como membros de uma fraternidade assim tão unida, como nós, dos velhos tempos (se é que posso usar esse termo para alguém como eu, que acabou de passar dos trinta), nos sentíamos. Se for assim, sinto muito por eles.

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Eu tomei consciência disso uma vez mais quando passei por uma situação um tanto quanto humilhante para alguém com minha tão conhecida e vigorosa juventude. O que aconteceu foi que, no dia 18 de maio de 1977, eu sofri um leve infarto do miocárdio — ou, se você quer usar o termo mais comum, um ataque do coração. (Não tema, ó Gentil Leitor, eu sobrevivi e o prognóstico é bom, desde que eu perca peso, faça um pouco de exercício e alivie um pouco a minha determinação inumana em cumprir prazos.)

A primeira pergunta que meu médico me fez (um profissional incrível, o melhor do mundo, na verdade) foi se eu gostaria de ir à público sobre o assunto.

“Claro”, eu disse. “Com certeza irei escrever artigos sobre isso.” (Está vendo?)

Então fizemos isso, e imediatamente pessoas de toda a minha família e escritores e leitores de ficção científica de todo o país começaram a entrar em contato para expressar sua preocupação. Harlan Ellison, com uma emoção que contradizia totalmente a persona de durão que ele cultiva tão diligentemente quanto eu cultivo a minha persona de modéstia e auto-satisfação, ligou duas vezes da Califórnia e se ofereceu para pegar um avião e ajudar como pudesse. Naturalmente, demos uns berros com ele para que desse mais atenção à sua máquina de escrever e parasse de se preocupar.

Fui forçado a cancelar todos os compromissos por um período de seis semanas, incluindo o discurso de formatura que eu faria na Universidade Johns Hopkins apenas dois dias depois. Na verdade, foram oito dias após o ataque, mas meus sintomas foram muito confusos e inicialmente pareciam indicar cálculos biliares, então levou um tempo até chegar no diagnóstico correto. Eu então disse ao meu médico que dois dias não fariam mal e que eu deveria fazer o discurso. Meu médico, no entanto, muito irritado comigo por eu ter ousado apresentar sintomas atípicos que atrasaram o início do meu tratamento, me colocou numa unidade de tratamento cardíaco em menos de uma hora.

A maioria dos meus compromissos, dentro do possível, foi cumprida pelos meus amigos da família da ficção-científica, que correram pra lá e pra cá pra me substituir. George Scithers foi em meu lugar até a Brown University, e adivinhem quem me substituiu em outras três palestras, chegando ao cúmulo de se forçar à indignidade de alugar um smoking para uma delas? Ninguém menos do que meu concorrente direto, Ben Bova, editor da revista Analog.

A revista Analog, e a sua antecessora, Astounding, lideram o campo tanto em circulação quanto em prestígio por mais de um terço de século; e esta revista que o leitor tem em mãos tem a intenção de alcançá-la e ultrapassá-la e, é óbvio, Analog prefere que não consigamos nada disso.

Mas isso não afeta Ben e eu. Éramos amigos antes, somos amigos agora e seremos amigos no futuro, ganhando ou perdendo, já que a ‘competição’, não importa o resultado, só tem a beneficiar a ficção-científica, e a ficção-científica é a nossa vida e nossa irmandade.

—> (continua após a figura abaixo)

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Ele veio visitar-me no hospital e eu disse a ele, “Ben, como foram as palestras? Você se lembrou de não ser tão bom quanto eu?”

“Eu fui uma porcaria”, ele disse.

“Não foi, não, Ben”, eu disse, acusadoramente. “Todos estão dizendo que você foi ótimo e que ninguém vai me querer mais como palestrante — então eu contratei um pistoleiro pra dar cabo de você. Lhe darei o beijo da morte”.

“Hah!” disse Ben, fazendo escárnio. “O que um judeu sabe a respeito do beijo da morte? Somente nós, os italianos, podemos dar o beijo da morte.”

Frustrado, eu disse, “Muito bem, eu estou em débito com você por me substituir. Como posso um dia lhe pagar?”

“Do que você está falando?” disse Ben. “Eu tenho estado em débito com você por anos e ainda estou procurando uma forma de pagar a você. Isso não foi nada.”

“Mesmo o smoking alugado?” eu disse, sem conseguir acreditar.

Isso o deixou balançado. Mas aí ele falou, em uma voz grave, sofrida, “Mesmo o smoking alugado.”

“Você está doido. Eu é que estou devendo a você.”

E a conversa seguiu em uma ladainha sobre quem estava devendo a quem, até que uma enfermeira, olhando para nós com uma cara de desaprovação, fechou a porta pois estávamos perturbando o andar inteiro.

“Como você pode se sentar aí, Ben,” eu disse, num tom zangado, “nessa sua inocência italiana e se recusar a levar o crédito, ativando, assim, minha culpa judaica, sabendo que meu coração não poderá resistir a toda essa tensão?”

“Que inocência italiana?” ele disse, num tom tão zangado quanto. “É por causa da superstição italiana. Com certeza você ouviu falar da superstição italiana?”

“Qual superstição?”

“A que diz que levar o crédito e, por conta disso, lucrar com o sofrimento de um amigo, traz má sorte.”

“Do que você está falando? A Máfia…”

“Ah, então,” disse Ben, “é diferente se é você que causa o sofrimento.”

E eu caí na gargalhada e a discussão se encerrou.

Mas muito obrigado Ben, e muito obrigado à toda a minha família da ficção-científica, editores, publishers, escritores e fãs, que fizeram com que minha estadia no hospital tenha sido tão cheia de flores e presentes e visitas e cartões que acabei saindo um dia mais cedo por solicitação geral da equipe do hospital.

—Isaac Asimov

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Marcos Cronológicos

Só para a gente ter uma ideia do tempo cronológico abarcado pela saga completa da Fundação, incluindo as histórias dos Robôs e do Império (após Asimov ter unido tudo num universo só), resolvi fazer esse post com uma lista selecionada das principais obras e em que ano elas se passam – no tempo fictício estipulado por Asimov.

São mais de 21 mil anos de história, desde os primeiros robôs até… bem, é melhor você ler pra saber!

Trantor-0

Para uma lista completa, incluindo os contos avulsos, visite este link.

Calendário Atual

1998 – “Robbie” (Eu, Robô; etc)
2015 – “Runaround” (Eu, Robô; etc)
2015 – “Reason” (Eu, Robô; etc)
2016 – “Catch That Rabbit” (Eu, Robô; etc)
2021 – “Liar!” (Eu, Robô; etc)
2029 – “Little Lost Robot” (Eu, Robô)
2032 – “Evidence” (Eu, Robô; etc)
2033 – “Escape!” (Eu, Robô)
2052 – “The Evitable Conflict” (Eu, Robô; etc)
2170 – “Too Bad!” (Visões de Robô)
3421 – The Caves of Steel (Cavernas de Aço)
3422 – The Naked Sun (O Sol Desvelado)
3423 – “Mirror Image” (Visões de Robô, etc)
3424 – The Robots of Dawn (Robôs do Amanhecer)
3624 – Robots and Empire (Robôs e Império)
4850 – The Stars, Like Dust (Poeira de Estrelas)
11129 – The Currents of Space (Correntes do Espaço)

Calendário da Era Galáctica (GE)

827 GE (12411 ) – Pebble in the Sky (827 Era Galactica)
12020 GE – Prelude to Foundation (Prelúdio à Fundação)
12028 GE – “Eto Demerzel” (Crônicas da Fundação)
12067 GE – “The Psychohistorians” (Fundação)
12069 GE – Epilogue (Crônicas da Fundação)

Calendário da Era da Fundação (FE)

49-50 FE (12117-12118 GE) – “The Encyclopedists” (Fundação)
195-196 FE (12263-12264 GE) – “The General” (Fundação e Império)
376-377 FE (12444-12445 GE) – “Search by the Foundation” (Segunda Fundação)
498 FE (12566 GE) – Foundation’s Edge (Os Limites da Fundação)
498 FE (12566 GE) – Foundation and Earth (Fundação e Terra)

Isaac Asimov’s Magazine V01N04 (Inverno de 1977)

Quarta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as traduções dos Editoriais de Asimov e quaisquer outros textos de interesse.

Tradução para o português disponível abaixo.

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EDITORIAL

Durante um período de seis semanas no início do ano de 1975, a cidade de Nova York foi o endereço não de uma, mas de três convenções de Star Trek. A cada uma delas compareceram milhares de fãs — sendo que um grande número deles compareceu a todas as três, em sua totalidade ou em parte.

Eu mesmo fui a todas as três, e não pude evitar de lembrar da primeira convenção de ficção científica que conseguiu ser mais do que um encontro de membros de fã-clubes locais.

Ela aconteceu em 1939 e nasceu do cérebro de um fã de renome, Sam Moskowitz. Fãs de todo o país já se correspondiam, mas Sam achou que aquilo definitivamente não era suficiente. Ele se perguntava: Por que não poderia existir um encontro mundial no qual todos os fãs poderiam se encontrar e, maravilhados, se verem ao vivo? Com muita vontade e determinação, Sam, que tinha acabado de fazer 20 anos, transformou aquele pensamento em realidade.

No dia 2 de julho de 1939, eu era uma dessas pessoas que realmente compareceram na Primeira Convenção Mundial de Ficção Científica num salão localizado na Rua 59 entre as Park e Madison Avenues. Mas eu não era um mero fã. Eu já havia publicado duas histórias na revista Amazing Stories; e a minha terceira história publicada, “Trends“, aparecera na edição de julho da revista Astounding Science Ficion, que por acaso estava nas prateleiras ao mesmo tempo em que acontecia a convenção. Eu compareci como um profissional. No entanto, ser um profissional não me proporcionou absolutamente nenhum sentimento maior de segurança, da mesma forma que alcançar o status de formado na faculdade três semanas antes também não. O fato é que eu ainda estava na minha adolescência e era incrivelmente aparvalhado.

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Meu diário, na página referente ao dia 2 de julho (um domingo), detalha todos os esforços que fiz para parecer uma pessoa civilizada. Eu estava “todo arrumado, usando um terno novo, gravata, camisa engomada, etc. — e era um dia quente”. Não apenas isso, mas eu havia chegado ao extremo:  “Eu me barbeei antes de sair, também”. Horn_&_Hardart_automat

No entanto, eu não fui direto para a convenção. Antes, fui me encontrar com alguns bons amigos em um Automat (ver imagem ao lado para saber o que é isso — nota do tradutor) do outro lado da rua. Acontece que, Sam Moskowitz, que estava organizando a convenção, estava (juntamente com os chegados dele) enrolado em uma confusão homérica com seis rebeldes  — três dois quais acabaram virando verdadeiros gigantes em nosso campo: Cyril Kornbluth (que faleceu em 1958), Donald A. Wollheim e Frederik Pohl.

Eu não sabia qual era a causa da confusão; mas eu já havia conhecido Pohl e os outros pouco tempo antes, e não conhecia Sam (que desde então se tornou um grande amigo), então naturalmente eu me juntei aos conhecidos contra os desconhecidos. Fred Pohl era o único daquele grupo que não estava presente, já que ele tinha uma consulta com o médico que o atrasara, então o grupo finalmente seguiu seu caminho sem ele. Subimos as escadas e lá em cima estava Sam e seus chegados bloqueando a nossa entrada. Eu estava certo que iria acontecer uma grande batalha, e que os mortos e feridos logo iriam entupir toda a Rua 59, então eu fui ficando um pouquinho para trás para poder assumir o papel estratégico na reserva.

No entanto, não houve batalha nenhuma. Os rebeldes simplesmente pararam e deram meia volta. Quanto a mim, Sam não me conhecia, não me reconheceu como inimigo e me ignorou. Um tanto quanto confuso, logo me encontrei dentro do salão.

Eu deveria ter colocado meus princípios acima de minha vontade. Eu deveria ter dito, “Se vocês impedirem a entrada dos meus amigos, vocês estarão impedindo a minha entrada,” e então deveria ter me retirado. Eu deveria — mas não fiz nada disso. Eu queria ir à convenção.

Uma vez lá dentro, assim como centenas de outros, eu estava com os olhos esbugalhados de tanta felicidade.

Conheci fãs, gigantes no campo da ficção-científica, cujas cartas haviam entupido as revistas da época — Forrest J. Ackerman, Jack Darrow, Milton A. Rothman. Eu conheci escritores que para mim eram verdadeiros Deuses, com os quais eu agora compartilhava uma bebida e conversava com alguma familiaridade superficial. Alguns eu já havia conhecido: John Campbell, Jack Williamson, L. Sprague de Camp. Alguns eu conheci naquele dia e mantive a amizade para sempre, como John D. Clark, por exemplo. Alguns encontrei pela primeira e única vez: Nelson Bond, Harl Vincent, Manly Wade Wellman.

No fim das contas, a realidade lá fora chamou e eu tive que deixar o Monte Olimpo temporariamente. Eu saí e fui almoçar com meus amigos rebeldes exilados. Eles não me culparam pela minha traição. Sabiam que eu não era parte dessa Grande Guerra de Fãs e que eu queria estar na Convenção. Meu diário revela que eu almocei “sanduíches de frango e café” e que “paguei 90 centavos” (Eu pagaria por volta de 900 centavos hoje em dia).

—> (continua após a figura)

 

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De tarde, assistimos ao filme “Metropolis”, um filme mudo que havia sido produzido na Alemanha 30 anos antes. Me pareceu que o filme fora produzido durante a Idade das Trevas, e eu vaiei do início ao fim. Eu não o havia revisto até a alguns meses atrás. Mas aí eu já tinha 50 anos, e o filme me pareceu ter amadurecido consideravelmente durante esse intervalo. (Bem, ele ou eu.)

Frank Paul, ilustrador e convidado de honra, falou para o público, e depois vários editores de revistas também se levantaram para dizer algumas palavras. Mort Weisinger da revista Thrilling Wonder Stories disse para o público de fãs que “não sabia que vocês eram assim tão sinceros,” e sua frase apareceu na edição do dia seguinte da revista Time.

Foi então que alguns notáveis que estavam na plateia foram apresentados, e eu aplaudi loucamente quando aqueles gigantes literários se levantavam um a um para ir ao palco aceitar as homenagens. Finalmente, John D. Clark, que estava sentado ao meu lado, gritou, “E quanto a Asimov?” e eu fui também chamado ao palco.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que eu fui considerado um notável, e eu caminhei em direção ao palco tremendo muito. Eu passei por John Campbell (caramba, ele tinha acabado de fazer 29 anos) e ele, com boas intenções, claro, tentou me ajudar com um empurrão que quase me fez estatelar no chão. Cheguei ao microfone, me apresentei como “o pior escritor de ficção-científica ainda não linchado” e me sentei, a cara vermelha como um camarão. Foi a minha primeira vez diante de uma plateia e a última vez que eu tive vergonha diante dela.

Passei um total de 9 horas na convenção, das 10 da manhã até as 7 da noite; e essas foram provavelmente as 9 horas mais delirantes da minha vida até aquele momento.

Houve 32 Convenções Mundiais de Ficção-Científica desde então (com exceção dos anos em que aconteceu a Segunda Guerra Mundial) e inúmeras convenções regionais. Milhares de pessoas comparecem hoje em dia a essas convenções. O delírio continua, ou mais provavelmente, é ainda maior — mesmo para mim, e olha que eu já saí da minha adolescência já há alguns anos.

E é porque não queremos que você perca nenhuma convenção simplesmente porque não tomou conhecimento, que você encontrará, em cada edição desta revista, as informações sobre locais e datas das convenções que vem por aí.

—Isaac Asimov

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Abaixo, em inglês, a seção de cartas dessa edição. Clique na imagem para ampliá-la, se necessário.

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