Isaac Asimov’s Magazine V02N02 (mar/abr 1978)

Sexta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando a tradução dos Editoriais de Asimov. Esperamos que curtam!

Isaac Asimov's Magazine V02N02 01

EDITORIAL: VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS

Um dos passatempos preferidos por aqueles interessados na ficção-científica — escritores, editores, fãs, leitores — é definir o que é ficção-científica. Mas que diabos é isso? Como diferenciá-la da fantasia? Da ficção em geral?

Provavelmente, existem tantas definições quanto existem pessoas tentando defini-la; e as definições vão desde aquelas dos exclusivistas extremos, que querem a sua ficção-científica pura e com temas mais difíceis, até aquelas dos que querem que sua ficção-científica englobe tudo que existe.

Aqui vai uma definição exclusivista extrema de minha própria autoria: “A ficção-científica lida com cientistas trabalhando com a ciência no futuro”.

Agora veja uma definição inclusivista extrema, de John Campbell: “Ficção-científica é qualquer história que é comprada por um editor de uma revista de ficção-científica.”

Agora, uma definição mais moderada (mais uma vez, de minha autoria): “A ficção-científica é o ramo da literatura que lida com as reações da humanidade às mudanças que ocorrem no nível da ciência e da tecnologia.” Isso deixa em aberto se as mudanças são avanços ou retrocessos e, no que se refere à parte que diz “reações da humanidade”, se o escritor pode referir-se a essas mudanças somente de passagem e sem muitos detalhes.

Para alguns escritores, na verdade, a necessidade de discutir aspectos científicos é tão mínima que eles não gostam nem de usar a palavra “científica” para nomear esse gênero literário. Eles preferem chamar o que quer que seja que eles escrevem de “ficção-especulativa”, o que, em inglês, permite que se mantenha a mesma abreviatura: “SF.” (speculative fiction, como em science-fiction).

(Eu não gosto do termo speculative fiction, a não ser pelo fato que ele talvez pudesse abolir o abominável termo “sci-fi”. Mas aí talvez ele criasse “spec-fic” no lugar, o que é ainda pior)

—> (continua após a figura abaixo)

Isaac Asimov's Magazine V02N02 02

De vez em quando me dá vontade de repensar tudo por um ângulo novo, então porque não buscar uma abordagem histórica para a definição? Por exemplo:

Qual é a primeira obra literária do ocidente que possuímos intacta, e que possa ser considerada pelos inclusivistas como ficção-científica?

Que tal a “Odisséia” de Homero? A obra não lida com a ciência em um mundo que ainda não a havia inventado; mas lida com os equivalentes a monstros extraterrestres, tais como Polifemo, e com pessoas que tem à sua disposição o equivalente à ciência avançada, como Circe.

Mesmo assim a maioria das pessoas se referem à “Odisséia” como um “conto de viagem”.

Mas tudo bem. Os dois pontos de vista não são necessariamente mutuamente excludentes. O “conto de viagem”, no final das contas, era a história de fantasia original. Por que não seria? Antes de nosso tempo, viajar era o árduo luxo de alguns poucos, e somente eles tinham a capacidade de ver coisas que a vasta maioria da humanidade não tinha.

A maioria das pessoas, até pouco tempo atrás, vivia e morria na mesma cidade, no mesmo vale, no mesmo metro quadrado de terra no qual eles nasceram. Para eles, tudo o que houvesse além do horizonte era fantasia. Poderia ser qualquer coisa — e eles poderiam acreditar em qualquer coisa que lhes afirmassem que existisse naquelas terras de maravilhas a mais de 80 quilômetros de distância. Plínio não tinha tanto conhecimento assim que não pudesse acreditar nas fantasias que lhe contavam sobre as terras distantes, e mil anos de leitores acreditaram em Plínio. Sir John Mandeville não teve nenhuma dificuldade em contar suas histórias ficcionais de viagem como se fossem verdadeiras.

E por 25 séculos após Homero, quando alguém queria escrever uma história de fantasia, escrevia um conto de viagem.

Imagine alguém que sai a navegar, chega a uma ilha desconhecida e lá encontra maravilhas. Não é assim a história de Simbad, o Marujo, e seus relatos sobre o Rukh e o Velho do Mar? Não é assim a história de Lemuel Gulliver e seus encontros com os Lilliputians e Brobdingnagians? Aliás, não é assim a história de King Kong?

O Senhor dos Anéis, juntamente com a sua horda de imitações abjetas, é também um conto de viagem.

No entanto, esses contos de viagem não seriam mais fantasias, em vez de ficção-científica? Onde é que entra a “verdadeira” ficção-científica?

Considere o primeiro escritor profissional de ficção-científica, o primeiro que ganhava a vida graças a sua indubitável ficção-científica — Júlio Verne. Ele não se considerava um escritor de ficção-científica, pois o termo ainda não havia sido inventado.

Por doze anos ele escreveu para o palco francês com pouco sucesso. Mas ele era um viajante e um explorador frustrado e em 1863, de repente, recebeu um pagamento vultuoso pelo seu “Cinco Semanas em um Balão”. Ele considerava seu livro como um conto de viagem, mas de um tipo diferente, já que ele fazia uso de um equipamento só tornado possível graças ao avanço da ciência.

Verne seguiu esse caminho de sucesso utilizando outros dispositivos científicos, tanto do presente como do futuro possível, para levar seus heróis cada vez mais longe, em suas “viagens extraordinárias” — das regiões polares até o fundo-do-mar, passando pelo centro da Terra, até a Lua.

—> (continua após a figura abaixo)

Isaac Asimov's Magazine V02N02 03

A Lua tem sido um destino atraente para os autores de contos de viagem desde Luciano de Samósata, no Século I d.C. Nesses casos, a Lua era considerada simplesmente como mais uma terra distante, mas o que Verne fez de diferente é que ele se esforçou para que seus heróis chegassem lá através de princípios científicos que ainda não haviam sido aplicadas na vida real (apesar dos métodos não serem possíveis de serem realizados do jeito que ele os descreveu).

Depois dele, outros escritores levaram seus personagens em viagens ainda mais longas até Marte e outros planetas; e finalmente em 1928, E.E. Smith, em seu “The Skylark of Space,” rompeu todos os limites com seu “motor sem inércia” e levou a humanidade até as estrelas mais distantes. (clique no link do Projeto Gutemberg para baixar o livro de graça, em inglês)

Ou seja, a ficção-científica começou como um desenvolvimento do conto de viagem, diferenciando-se principalmente no fato de que os meios de transporte e comunicação descritos ainda não existem, mas poderiam existir se o estágio da ciência e da tecnologia em determinado momento fossem extrapolados até estágios mais avançados no futuro.

Mas, com certeza, nem toda a ficção-científica pode ser considerada um conto de viagem. E quanto as histórias que se passam bem aqui na Terra mas lidam com robôs, ou com desastres nucleares ou ecológicos, ou ainda, com novas interpretações do passado distante?

Nenhum desses cenários, porém, acontece “bem aqui”, na Terra. Seguindo a tradição de Júlio Verne, tudo o que acontece na Terra só é possível em função das mudanças contínuas (avanços, normalmente) no nível da ciência e da tecnologia, de forma que a história deve acontecer “bem aqui”, mas numa Terra do futuro.

O que você acha, então, da seguinte definição: “Histórias de ficção-científica são viagens extraordinárias que nos levam a qualquer um dos infinitos possíveis futuros.”?

— Dos quais temos amostras bem aqui nesta edição — e em cada uma das nossas edições.

—Isaac Asimov

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Blablabla

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