Isaac Asimov’s Magazine V02N04 (jul/ago 1978)

Oitava edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Seguimos disponibilizando os Editoriais de Asimov traduzidos para o português. Divirta-se!

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Editorial: É uma coisa engraçada

É uma coisa engraçada, mas muitos iniciantes tentam escrever ficção-científica de humor. O que faz disso algo engraçado é que ser engraçado é muito difícil, e mesmo alguns excelentes escritores de ficção-científica não conseguem manejar o humor — mesmo assim muitos iniciantes acham que conseguem.

Por que é tão difícil ser engraçado?

Pra começo de conversa, você tem que acertar o alvo. Se você está buscando drama, é capaz de você, mesmo conseguindo um resultado patético, conseguir algum resultado meia-boca e até vender a história se sensibilizar o editor, mesmo que ele não chegue às lágrimas. Se você está buscando o suspense, você pode atingir um suspense moderado e vender a história se conseguir acelerar um pouco o coração do editor, mesmo que não saia galopando.

Você pode atingir próximo ao alvo, mesmo que não seja na mosca, em quaisquer outras características que buscamos na ficção, e mesmo assim conseguir vender a história.

Com exceção do humor. O alvo do humor tem que ser a mosca. Não existe outra opção.

Você consegue imaginar algo que seja somente meio engraçado? Você já ouviu alguém contar uma história que fosse só “um pouco humorística”? O que acontece?

Claro! Ninguém ri. Na melhor das hipóteses, alguém poderá exibir um sorriso por educação.

Uma história engraçada, no entanto, quando é realmente engraçada, é algo muito bom e deve ser encorajado. Bom humor, perspicácia, até certa molecagem, quando bem feita, contribui para a alegria das nações e para a eupepsia* dos indivíduos.

(*Ué, vá olhar no dicionário. Como você acha que poderá se tornar um escritor se não aumentar o vocabulário?)

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Mesmo assim, até os melhores de nós não nascem já sabendo como escrever com humor. Temos que praticar um pouco no início para ver se temos talento   se o tivermos, temos que desenvolvê-lo através da prática contínua.

Então, aqui vão algumas regras que podem ser úteis.

  1. Mantenha o texto curto. A não ser que você seja um gênio nato da comédia, um Mark Twain ou um P.G. Wodehouse, você não conseguirá manter um nível constante e satisfatório de humor por toda a extensão de um romance. De fato, quanto mais tempo você tentar mantê-lo, menor a possibilidade de você conseguir evitar cair na insipidez ou no doloroso exagero. Minha opinião pessoal é que você deve tentar manter a extensão do texto em, no máximo, 3000 palavras.
  2. Não tente fazer com que cada frase seja sensacionalmente engraçada. Em primeiro lugar, você irá se cansar demais e morrer jovem, e um escritor morto não nos serve. Em segundo lugar, você não vai conseguir. E em terceiro lugar, humor contínuo, mesmo se alcançado, provavelmente não é eficiente. O leitor irá se gastar de rir no início e achará o resto da história um tédio. Aqueles intervalos periódicos que dão ao leitor tempo de recarregar sua reserva de risadas são importantes.
  3. O humor não é, em si, uma história. O humor, se bem feito, tem o poder de melhorar uma história; mas o humor não transforma uma história ruim em uma história boa. Se você está escrevendo uma história de ficção-científica de humor, certifique-se que, ao retirar as partes engraçadas, o que sobrar ainda seja uma história de ficção-científica razoavelmente boa por si.

Agora vamos considerar uma subdivisão dentro das histórias de ficção-científica humorísticas: as histórias de Ferdinand Feghoot (O nome é derivado de uma série escrita por Grendel Briarton (Reginald Bretnor) sobre um cavalheiro com esse nome. As histórias apareceram em 2 livros e 3 revistas, incluindo esta aqui). Esse tipo consiste em uma história cuja única razão para a sua existência é terminar em um elaborado trocadilho.

Há regras para esse tipo de história também.

  1. Já que o trocadilho final é a razão para a história, é óbvio que não podemos sobrecarregar o trocadilho com uma história longa demais, ou o anticlímax irá provocar uma raiva assassina (rosnado) mesmo no mais gentil dos editores — que é como George pode ser descrito. Seja objetivo, eu diria que o texto não deveria passar de 500 palavras.
  2. Mesmo essas 500 palavras precisam perfazer uma história de ficção-científica decente, que não force a barra de forma óbvia em preparação para o trocadilho. O ideal seria o leitor não suspeitar que um trocadilho está a caminho, dessa forma não terá tempo de intensificar seus sentimentos de hostilidade homicida.
  3. Busque o equilíbrio perfeito. A frase que funciona como trocadilho deve ser longa o suficiente para que o leitor a ache engenhosa, mas não tão comprida que o canse antes do fim. O ideal seria que o leitor possa ler a frase em uma olhada.

A distância entre o trocadilho e a frase como um todo deve ser grande o suficiente para se tornar engenhosa e imprevisível, mas não tão esticada que, mesmo após o leitor ler a frase, haja um perceptível período de tempo no qual o leitor não sabe do que você está falando. Lembre-se que a piada deve ser entendida imediatamente. Mesmo uma pequena pausa poderá ser fatal para a gargalhada.

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4.  O trocadilho é feito para o ouvido. É o som que conta, não a aparência. (Em seguida Asimov dá um exemplo de um trocadilho onde, apesar de a palavra ser escrita de forma diferente, a pronúncia é a mesma, garantindo que o trocadilho funcione. Ele segue com um segundo exemplo onde a escrita é a mesma porém a pronúncia é diferente, e afirma que, mesmo lendo silenciosamente em sua cabeça, a pronúncia diferente da palavra faz com que o trocadilho não funcione tão bem. Não sei se essa regra a que Asimov se refere funciona da mesma forma em Português, mas creio que não seja o caso – nota do editor/tradutor).

Para resumir, o tipo de trocadilho ideal, em minha opinião nada modesta, é a minha obra “Sure Thing” (Com Certeza, em tradução livre) na edição de Verão de 1977 da revista Isaac Asimov Magazine. Leia-a novamente e você verá. Há também dois exemplos autênticos na edição de Outono de 1977 da Isaac Asimov Magazine, se você quiser compará-los.

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Um último aspecto a ser mencionado é um aspecto triste. Mesmo uma história bem humorada ou um texto excelente do tipo de Ferdinand Feghoot não possui garantias de ser aceito para publicação. Uma revista deve ter variedade para ter sucesso, e essa variedade deve refletir, com um mínimo de precisão, o gosto e preferências de seus leitores.

O fato é que muitas pessoas não gostam de textos de humor e muitos mais nutrem uma antipatia fanática pelo trocadilho mais inofensivo. Portanto devemos semear os nossos textículos humorísticos de forma suave na página de índice, enquanto aqueles com trocadilhos mais pesados devem aparecer somente quando as antenas do nosso Gentil Editor transmitirem a ele a mensagem que um intervalo suficiente já passou desde a última vez, para que seja seguro imprimir um novo.

Mas eu lhes asseguro que George e eu (que somos como uma só pessoa no que se refere a tudo que é literário) somos jovens de coração alegre cuja inclinação para o riso só é excedida pelo nosso amor por uma boa gargalhada, e iremos fazer com que esta revista seja tão alegre quanto possível — se os escritores cooperarem.

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Abaixo, a seção de cartas. Clique na imagem para amplia-la.

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