The Prime of Life – O Melhor da Vida

Primeira aparição:
The Magazine Of Fantasy and Science Fiction,
outubro de 1966

THE PRIME OF LIFE
O MELHOR DA VIDA

It was, in truth, an eager youth
Um jovem, um dia, se aproximou e,
Who halted me one day.
É verdade, logo me parou.
He gazed in bliss at me, and this
Me encarou com olhar profundo
Is what he had to say:
E me disse, lá do fundo:

"Why, mazel tov, it's Asimov,
"Mazel tov, é o Asimov,
A blessing on your head!
Como estou agradecido!
For many a year, I've lived in fear
Pois por anos vivi o temor
That you were long since dead.
De que já houvesse falecido.

Or if alive, one fifty-five
Ou se ainda estivesse vivo,
Cold years had passed you by,
Que 50 anos o tivessem envelhecido
And left you weak, with poor physique,
E o deixado fraco, esclerosado,
Thin hair and rheumy eye.
Com o cabelo ralo e o olho cansado.

For sure enough, I've read your stuff
Pois saiba que leio seu trabalho
Since I was but a lad
desde que eu era um raparigo
And couldn't spell or hardly tell
e não era capaz de distinguir
The good yarns from the bad.
nem o joio, nem o trigo.

My father, too, was reading you
Meu pai, ele também o lia
Before he met my Ma.
Mesmo antes de a mamãe o conhecer.
For you he earned, once he had learned
Ele o acompanhava desde que havia
About you from his Pa.
através do pai dele descoberto você.

Since time began, you wondrous man,
Desde o início dos tempos, venerado!
My ancestors did love
Mestre da F.C., homem prodigioso,
That s.f. dean and writing machine.
Uma verdadeira 'máquina de escrever':
The aged Asimov.”
Assim é Asimov, o idoso".

I'd had my fill. I said: "Be still!
"Já chega", eu disse, "Pare!
I've kept my old-time spark.
Ainda estou cheio da energia de outros tempos.
My step is light, my eye is bright,
Meu passo é firme, meu olhar brilha,
My hair is thick and dark.”
Escuros e grossos são meus cabelos".

His smile, in brief, spelled disbelief,
Seu sorriso era descrente, então sem nada em mente,
So this is what I did;
Simplesmente agi.
I scowled, you know, and with one blow,
Não aguentei, sabe, e com uma só pancada,
I killed that rotten kid.
Matei o catinguento guri.

1966

(Tradução de João Wolf)
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Marcos Cronológicos

Só para a gente ter uma ideia do tempo cronológico abarcado pela saga completa da Fundação, incluindo as histórias dos Robôs e do Império (após Asimov ter unido tudo num universo só), resolvi fazer esse post com uma lista selecionada das principais obras e em que ano elas se passam – no tempo fictício estipulado por Asimov.

São mais de 21 mil anos de história, desde os primeiros robôs até… bem, é melhor você ler pra saber!

Trantor-0

Para uma lista completa, incluindo os contos avulsos, visite este link.

Calendário Atual

1998 – “Robbie” (Eu, Robô; etc)
2015 – “Runaround” (Eu, Robô; etc)
2015 – “Reason” (Eu, Robô; etc)
2016 – “Catch That Rabbit” (Eu, Robô; etc)
2021 – “Liar!” (Eu, Robô; etc)
2029 – “Little Lost Robot” (Eu, Robô)
2032 – “Evidence” (Eu, Robô; etc)
2033 – “Escape!” (Eu, Robô)
2052 – “The Evitable Conflict” (Eu, Robô; etc)
2170 – “Too Bad!” (Visões de Robô)
3421 – The Caves of Steel (Cavernas de Aço)
3422 – The Naked Sun (O Sol Desvelado)
3423 – “Mirror Image” (Visões de Robô, etc)
3424 – The Robots of Dawn (Robôs do Amanhecer)
3624 – Robots and Empire (Robôs e Império)
4850 – The Stars, Like Dust (Poeira de Estrelas)
11129 – The Currents of Space (Correntes do Espaço)

Calendário da Era Galáctica (GE)

827 GE (12411 ) – Pebble in the Sky (827 Era Galactica)
12020 GE – Prelude to Foundation (Prelúdio à Fundação)
12028 GE – “Eto Demerzel” (Crônicas da Fundação)
12067 GE – “The Psychohistorians” (Fundação)
12069 GE – Epilogue (Crônicas da Fundação)

Calendário da Era da Fundação (FE)

49-50 FE (12117-12118 GE) – “The Encyclopedists” (Fundação)
195-196 FE (12263-12264 GE) – “The General” (Fundação e Império)
376-377 FE (12444-12445 GE) – “Search by the Foundation” (Segunda Fundação)
498 FE (12566 GE) – Foundation’s Edge (Os Limites da Fundação)
498 FE (12566 GE) – Foundation and Earth (Fundação e Terra)

03 – Náufragos em Órbita

FICHA TÉCNICA:

  • Primeira aparição: Edição de março de 1939 da revista Amazing Stories.
  • Título em Português: Perdido em Vesta; Náufragos em Órbita
  • Publicação no Brasil: Foi publicada no livro Mistérios (1970 – Expressão e Cultura).
  • Comentários: primeiro conto que ele conseguiu vender para ser publicado em uma revista. Ele tinha apenas 18 anos.

Captura de Tela 2015-10-16 às 16.36.25Tá bom, talvez não seja nenhum clássico e talvez devesse ter recebido um Isaac Amarelo. Mas eu realmente gosto desse conto, principalmente considerando que é tão antigo e, mesmo assim, já deixa transparecer aqui e ali o Asimov que conhecemos. Também pode ser considerado um conto essencial, pois graças a ele Asimov percebeu que havia uma chance de ganhar algum dinheiro vendendo histórias. Ele até explora uma técnica que viria a usar muito posteriormente: apresentar um quebra-cabeça para o qual os personagens precisam encontrar uma solução. A tradução abaixo é inédita. Divirta-se!

Amazing-Stories-Cover-March-1939-206x300 Náufragos em Órbita

(Tradução original do blog Eu, Asimov – por João Wolf)

— Dá pra fazer o favor de parar de andar pra cima e pra baixo assim? — disse Warren Moore largado no sofá.  — Não nos trará nenhum benefício. Pense em como somos sortudos, estamos hermeticamente protegidos, não estamos?

Mark Brandon girou rapidamente, abriu um sorriso amarelo e disse, em tom malicioso — Se esse pensamento lhe deixa satisfeito, fico feliz por você. Naturalmente, você ainda não sabe que nosso suprimento de ar vai durar somente três dias — E retomou com um ar desafiador à sua caminhada que havia sido interrompida.

Moore bocejou e se espreguiçou, se ajeitou numa posição mais confortável, e retrucou — Gastar toda essa energia só vai consumir ainda mais rápido o nosso ar. Por que você não segue o exemplo do nosso Mike aqui? Ele está de boa.

“Mike” era Michael Shea, outrora também um tripulante da Silver Queen. Seu corpo pequeno e atarracado descansava sobre a única cadeira do cômodo e seus pés estavam sobre a única mesa. Ele olhou para cima quando seu nome foi mencionado, sua boca se esticou em um contorcido e irônico sorriso.

— Você já tem que ficar na expectativa que coisas assim possam acabar acontecendo alguma vez — ele disse. — Viajar por entre asteroides é um negócio arriscado. Devíamos ter dado o salto. Leva mais tempo, mas é a única maneira segura. Mas não, o capitão queria permanecer no prazo, ia conseguir passar com certeza… — Mike cuspiu com nojo — e agora aqui estamos.

— O que quer dizer com ‘dar o salto’? — perguntou Brandon.

— Ah, creio que nosso amigo Mike quer dizer que nós deveríamos ter evitado o cinturão de asteroides traçando um curso por fora do plano da elíptica — respondeu Moore. — É isso, não é, Mike?

Mike hesitou e então respondeu, com cuidado — Sim… Acho que é isso.

Moore sorriu maliciosamente e continuou — Bem, eu não colocaria toda a culpa no Capitão Crane. A tela repulsora deve ter falhado uns cinco minutos antes que aquele pedaço gigante de granito nos atingisse. Isso não foi culpa dele, apesar de que nós devíamos ter adotado um curso seguro em vez de ter confiado na tela. — Ele balançou a cabeça pensativo. — A Silver Queen simplesmente se despedaçou. Foi realmente um milagre que esta parte da nave tenha permanecido intacta e, mais ainda, hermeticamente fechada.

— Você tem um estranho conceito de sorte, Warren — disse Brandon. — Sempre teve, desde que conheci você. Aqui estamos nós, presos na décima parte de uma espaçonave, com somente três compartimentos inteiros, com ar para três dias e sem nenhuma perspectiva de estarmos vivos após esse prazo, e você ainda tem a pachorra de ficar falando de sorte.

— Comparado com os outros que morreram instantaneamente quando o asteroide nos atingiu, sim — foi a resposta de Moore.

— Você acha mesmo, né? Bem, vou te falar que morte instantânea não me parece tão ruim comparado com o que nós vamos ter que passar. Morrer sufocado é uma droga de uma maneira desagradável de morrer.

— Talvez achemos uma saída — disse Moore, esperançoso.

— Por que vocês não encaram os fatos? — O rosto de Brandon estava vermelho e a sua voz tremia. — A gente já era, estou te dizendo. Já era!

Mike deu uma olhada para um e para o outro com ar de dúvida e tossiu para atrair a atenção deles.

— Bem, rapazes, já que estamos no mesmo barco, acho que não adianta ficar monopolizando as coisas. — Ele sacou de dentro de seu bolso uma pequena garrafa que estava cheia de um líquido esverdeado. — Isto é Jabra da melhor qualidade. Não sou tão orgulhoso que não possa compartilhar, e em partes iguais.

Brandon demonstrou os primeiros sinais de prazer de todo o dia.

Água Marciana Jabra. Porque você não falou nada antes?

Mas quando ele avançou para pegar a garrafa, uma mão firme agarrou seu pulso. Ele olhou para os calmos olhos azuis de Warren Moore

— Não seja idiota, — disse Moore — não há suficiente para nos deixar bêbados por três dias. O que você quer fazer? Ficar doidão agora e depois morrer sóbrio e frio? Vamos guardá-la para as últimas seis horas quando o ar ficar pesado e a respiração começar a doer — aí esvaziaremos essa garrafa entre a gente e nunca saberemos quando o fim chegar, ou pelo menos não nos importaremos.

A mão de Brandon se deixou cair de forma relutante.

— Mas que droga, Warren, se você levasse um corte você sangraria gelo. Como você pode consegue pensar de forma lógica numa hora dessas? — Ele começou a se mover na direção de Mike e a garrafa foi guardada novamente. Brandon andou até a vigia e olhou lá pra fora. Moore se aproximou e colocou um braço gentil sobre os ombros do rapaz mais jovem.

— Porque levar tudo tão a sério, cara? — Ele perguntou. — Você não vai durar muito nesse ritmo. Dentro de vinte e quatro horas você vai estar louco se continuar assim. — Não houve nenhuma resposta. Brandon olhava fixamente para o astro circular que preenchia quase completamente a vigia, então Moore continuou a falar. — Vesta também não vai te ajudar.

Mike Shea se aproximou lentamente da vigia. — Se pelo menos estivéssemos lá em baixo, em Vesta, estaríamos seguros. Há gente lá. A que distância estamos?
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— Não mais do que 400 ou 500 quilômetros, julgando pelo tamanho aparente — respondeu Moore. Lembre-se que Vesta possui somente 300 quilômetros de diâmetro.

— Nossa salvação está a 400 quilômetros, — murmurou Brandon — mas para a gente é como se fosse um bilhão. Se pelo menos houvesse uma maneira de sairmos dessa órbita que este pedaço de metal podre adotou. Entende, se conseguíssemos nos dar um empurrão pra começarmos a cair… Não haveria perigo na queda se conseguíssemos, porque esse anãozinho não tem gravidade suficiente para destruir nem uma bomba de creme na queda.

— Mas tem o suficiente pra nos manter em órbita — retrucou Brandon. — Deve ter nos pego quando estávamos inconscientes depois do acidente. Queria que tivesse ficado mais próximo, nós teríamos sido capazes de pousá-lo.

— Lugar esquisito, esse Vesta — observou Mike Shea. — Eu estive lá em baixo duas ou três vezes. Uma lixeira! É todo coberto com um treco que parece neve, só que não é neve. Eu me esqueci do que eles chamam esse treco.

— Dióxido de carbono congelado? — disparou Moore.

— Isso, gelo seco, aquele lance de carbono, isso mesmo. Eles dizem que é por isso que Vesta é tão brilhante.

— Naturalmente! Isso causaria mesmo um alto coeficiente de albedo.

Mike lançou um olhar desconfiado para Moore mas resolveu deixar passar.

— É difícil conseguir ver qualquer coisa lá em baixo por causa da neve, mas se você olhar com atenção — ele apontou — conseguirá ver uma espécie de borrão cinza. Eu acho que é a Abóbada Bennet. É onde eles mantém o observatório. E logo acima temos a Abóbada Calorn. Ali é uma estação de combustível, é sim. Há muitas mais, só que eu não consigo vê-las. — Ele hesitou e então virou-se para Moore. — Chefe, escute, eu estive pensando. Você não acha que eles começariam a procurar por nós assim que escutassem sobre o acidente? E não seria mais fácil para nós sermos encontrados a partir de Vesta, considerando que estamos tão perto?

— Moore balançou a cabeça. — Não, Mike, eles não estão nos procurando. Ninguém vai saber sobre o acidente até que a Silver Queen deixe de aparecer no dia marcado. Sabe, quando o asteroide nos atingiu, não tivemos tempo de mandar um SOS — ele suspirou — e eles também não vão nos encontrar ali em Vesta. Nós somos tão pequeninos que mesmo a essa distância eles não poderiam nos ver, a não ser que soubessem o que estão procurando, e que soubessem exatamente onde procurar.

— Hmm. — A testa de Mike estava franzida em profundos pensamentos. — Então temos que chegar a Vesta antes que se passem os três dias.

— Você pegou o espírito da coisa, Mike. — Se pelo menos soubéssemos como fazer isso, hein?

Brandon explodiu de repente — Será que vocês poderiam parar com esse taca-taca infernal e fazer alguma coisa? Pelo amor de Deus, façam alguma coisa.

— Moore encolheu os ombros e sem dar nenhuma resposta voltou à poltrona. Ele recostou-se de forma confortável, mas havia uma pequena dobra entre seus olhos que revelavam sua concentração. Não havia nenhuma dúvida: eles estavam em uma péssima situação. Ele relembrou os eventos do dia anterior pela, provavelmente, vigésima vez. Assim que o asteroide bateu, rasgando a nave ao meio, ele apagou rápido como a luz; por quanto tempo ele não sabia, já que seu próprio relógio havia quebrado e não havia nenhum outro marcador de tempo disponível. Quando veio a si, descobriu que ele mesmo, juntamente com Mark Brandon, com quem ele dividia a cabine, e Mike Shea, um membro da tripulação, eram os únicos ocupantes que restavam do que sobrara da Silver Queen. Este pedaço que sobrara agora adernava na órbita de Vesta. No momento a situação era até confortável. Havia alimento para uma semana. Também havia um gravitador de área sob o piso que os mantinham com seus pesos normais e que continuaria a fazer isso por tempo indeterminado, certamente por mais tempo do que o ar iria durar. O sistema de luzes estava em condições menos satisfatórias mas estava aguentando até agora.

Mas não havia dúvida onde estava o problema. Três dias de ar! Não que não houvesse outras coisas desanimadoras. Não havia nenhum sistema de aquecimento — apesar de que levaria muito tempo para que a nave irradiasse calor suficiente no vácuo do espaço para deixá-los desconfortáveis. Muito mais importante era o fato de que a parte da nave em que eles estavam não possuía nem meios de comunicação, nem mecanismos de propulsão. Moore suspirou. Um jato de combustível funcionando resolveria tudo, bastaria um pequeno disparo na direção certa e eles seriam enviados com segurança até Vesta.

A dobra entre seus olhos ficou mais funda. O que havia para ser feito? Eles tinham somente uma roupa espacial, uma pistola de calor e um detonador. Aquela era a soma total de ferramentas espaciais que eles tinham, após uma busca completa pelas partes acessíveis da nave. Uma bela confusão… Moore se encolheu, se levantou e pegou um copo d’água. Engoliu mecanicamente, ainda mergulhado em pensamentos, quando uma ideia o atingiu. Ele olhou com uma expressão curiosa para o copo vazio em sua mão.

— Mike, me diz uma coisa, que tipo de suprimento de água nós temos? Engraçado eu não ter pensado nisso antes.

Os olhos de Mike se arregalaram ao máximo numa expressão caricata de surpresa. — Você não sabia, chefe?

— Sabia o que? — perguntou Moore sem paciência.

— Nós temos toda a água que havia. — Ele fez um gesto amplo com as mãos. Ele parou, mas como a expressão de Moore não revelou nada além de total falta de compreensão, ele continuou a explicação. — Você não está entendendo? Nós temos o tanque principal, o lugar onde toda a água de toda a nave era guardada. — Ele apontou para uma das paredes.

— Você quer dizer que há um tanque cheio de água colado em nós?

Mike assentiu vigorosamente — Isso aí! IVA cúbico de 30 metros cada lado. E está 75% cheia.

Moore estava atônito. — 230 quilômetros cúbicos de água. — Então de repente: — Por que a água não vazou pelos canos partidos?

— O tanque tem somente uma única saída, que passa pelo corredor bem do lado de fora deste compartimento. Eu estava consertando esse cano principal quando o asteroide nos atingiu, então tive que fechá-lo. Depois que eu voltei a mim, abri o cano que vinha até à nossa torneira, mas essa é a única saída aberta no momento.

— Oh. — Moore sentiu uma sensação esquisita em suas entranhas mais profundas. Uma ideia estava querendo se formar em seu cérebro, mas por tudo o que é mais sagrado ele não estava conseguindo ligar todos os pontos. Ele sabia apenas que havia ouvido algo recentemente que continha algum significado importante, mas ele não conseguia determinar exatamente o que era.

087Brandon, enquanto isso, estava escutando Shea em silêncio, e agora emitia uma risada curta e sem humor. — O Destino parece estar brincando conosco… Primeiro, nos coloca em uma curta distância de um lugar seguro mas garante que não haja nenhuma forma de nós chegarmos lá. Depois nos oferece comida para uma semana, ar para três dias, e água para um ano! Água para um ano, você está me ouvindo? Água suficiente para beber e fazer gargarejo e pra lavar e tomar banhos e… e fazer qualquer outra coisa que quisermos. Água — dane-se a água!

— Mark, você precisa ver o lado positivo das coisas — disse Moore numa tentativa de dissolver a melancolia do rapaz. — Finja que somos um satélite de Vesta… e somos mesmo, pensando bem. Temos nosso próprio período de revolução e rotação. Temos um equador e um eixo. Nosso polo norte está localizado em algum lugar acima da vigia, apontando na direção de Vesta, e nosso “sul” está na distância oposta a Vesta, em algum lugar posterior ao tanque de água. Bem, sendo um satélite, temos uma atmosfera e, veja bem, um recém-descoberto oceano. Fala sério, não estamos tão mal assim. Durante os três dias de ar que ainda temos, podemos comer rações em dobro e beber água até ficarmos com os poros encharcados. Inferno, nós temos água o bastante para jogar fora!

A ideia, que tinha se formado pela metade, imediatamente completou-se e entrou em foco. O gesto descuidado com o qual tinha acompanhado a última observação ficou congelado em pleno ar. Sua boca fechou com um estalo e sua cabeça levantou com um movimento brusco. Mas Brandon, imerso em seus próprios pensamentos, não reparou nas estranhas ações de Moore.

— Por que você não termina a sua analogia do satélite — ele disparou — ou será que você, tal qual um otimista profissional, ignora todos os fatos desagradáveis? Se fosse eu no seu lugar, eu continuaria assim: — Ele começou a imitar a voz de Moore — No momento o satélite é habitável e tem pessoas vivendo nele mas, devido ao esgotamento de sua atmosfera em 3 dias, se tornará em breve um mundo morto. Bem, por que não responde? Por que insiste em fazer piada com a situação? Não percebe… Qual é o problema?

— A última frase foi uma exclamação de surpresa e as ações de Moore certamente causavam surpresa. Ele havia ficado de pé rapidamente e, após dar um tapinha na própria testa permaneceu imóvel e silencioso, olhando a distância com as pálpebras gradualmente se fechando. Brandon e Mike Shea o observavam com um espanto silencioso.

De repente Moore explodiu.

— A-ha! Consegui. Por que não pensei nisso antes!? — Suas exclamações foram ficando inteligíveis.

Mike pegou a garrafa de Jabra com um olhar significativo, mas Moore a afastou com impaciência. Na mesma hora Brandon, sem nenhum aviso, deu um golpe com a direita, atingindo Moore de surpresa no queixo e derrubando-o no chão.

Moore rosnou e esfregou o queixo. Um tanto indignado, perguntou:

— Por que você fez isso?

— Levante-se e farei novamente! — gritou Brandon — Eu não aguento mais. Não aguento mais os seus sermões e ter que ouvir esse papinho. Você é que está ficando doido.

— Doido que nada! Só um pouco empolgado demais, só isso. Escutem, pelo amor de Deus. Eu acho que descobri uma maneira de…

Brandon olhou ressentido pra ele. — Descobriu, é? Levanta as nossas esperanças com algum plano de meia tigela e depois descobre que não funciona. Não quero saber, ouviu? Eu é que descobri um uso melhor pra essa água: afogar você e ainda economizar um pouco de ar.

Moore perdeu a paciência.

— Escute, Mark, fique fora disso. Deixe que eu me viro. Eu não preciso e não quero a sua ajuda. Já que você tem tanta certeza que vamos morrer e tem tanto medo, por que não termina logo essa agonia? Temos uma pistola de calor e um detonador, ambos em perfeito funcionamento. Faça a sua escolha e se mate. Shea e eu não vamos interferir. — Os lábios de Brandon se apertaram como que num último e fraco gesto de desafio e, de repente, ele desistiu, abjeta e completamente.

— Ok, Warren, estou com você. E-Eu acho que eu não tinha muita certeza do que eu estava falando. Eu não me sinto muito bem, Warren. E-Eu…

— Está tudo bem, rapaz. — Moore estava genuinamente com pena dele. — Tenha calma. Sei como você se sente. Também me pegou. Mas você não deve ceder. Lute contra isso, ou você ficará completamente louco. Bem, agora tente dormir um pouco e deixe tudo comigo. As coisas vão dar certo no final.

Brandon, apertando sua mão na testa dolorida, foi tropeçando até o sofá e se deixou cair. Soluços silenciosos sacudiam seu corpo enquanto Moore e Shea permaneceam em um silêncio embaraçoso ali perto.

Depois de alguns instantes, Moore deu uma cutucada em Mike — Vamos — ele sussurrou — vamos começar. Temos que ir a alguns lugares. A cabine cinco é no final do corredor, certo? —Shea fez que sim com a cabeça e Moore continuou — Pressurizada e impermeável ao ar?

— Bem — disse Shea após pensar um pouco — a porta de dentro é, com certeza, mas não sei nada sobre a porta de fora. Pelo que sei pode até ser uma peneira. Entende, quando eu testei a parede quanto à impermeabilidade ao ar, eu não ousei abrir a porta de dentro, porque se houvesse algo errado com a porta de fora… bum! — o gesto que acompanhou essa última palavra foi deveras expressivo.

— Então nos cabe descobrir qual a condição dessa porta externa agora mesmo. Eu tenho que dar um jeito de ir lá fora e teremos que nos arriscar. Onde está a roupa espacial?

Ele pegou a única roupa espacial que havia no armário, jogou por sobre os ombros e seguiu pelo longo corredor que descia pela lateral da cabine. Ele passou por portas fechadas atrás das quais, em algum momento, já houve cabines de passageiros, mas que agora eram meras aberturas para o espaço. Ao final do corredor havia a porta bem fechada da cabine pressurizada de número 5.

Moore parou e ficou observando e analisando a porta. — Parece tudo bem — ele comentou — mas naturalmente não dá pra saber o que há do outro lado. Deus, eu espero que funcione. — Franziu a testa — Claro que poderíamos usar esse corredor inteiro como cabine pressurizada, a porta para o nossa área como a porta interna e esta porta aqui como a porta externa, mas isso significaria perder metade do nosso suprimento de ar. Não podermos nos dar ao luxo.

Ele se virou para Shea — Então. O indicador mostra que a porta foi usada pela última fez para entrada, então a câmara deve estar cheia de ar. Abra somente uma fresta na porta e se houver um assobio fino, feche-a rapidamente.

— Aqui vai — e moveu a alavanca um encaixe. O mecanismo havia sido severamente abalado durante o choque do acidente e seus mecanismos anteriormente silenciosos deram lugar a um som áspero, duro, mas ainda assim funcionando. Uma fina linha preta apareceu do lado esquerdo da porta, marcando onde ela havia deslizado uma fração de milímetro em seu encaixe.

Não havia assobio! A expressão de ansiedade no rosto de Moore diminuiu um pouco. Ele pegou um cartão de dentro de seu bolso e segurou-o próximo à fenda. Se o ar estivesse escapando, o cartão deveria ficar preso, empurrado pelo gás. Mas caiu no chão.

Mike Shea colocou um dedo na boca e depois na fenda. — Graças a Deus — suspirou — nem sinal de corrente de ar.

— Bom, muito bom. Abra mais um pouco. Vamos.

Mais um encaixe da alavanca e a fenda abriu-se mais um pouco. Nada de corrente de ar ainda. Lentamente, encaixe por encaixe, eles abriram a passagem cada vez mais. Os dois homens haviam prendido a respiração, temerosos de que, apesar de não estar perfurada, a porta de fora pudesse estar tão enfraquecida que poderia ceder a qualquer momento. Mas ela se mantinha no lugar!

Moore era só alegria enquanto entrava na roupa espacial.

— As coisas estão indo muito bem até agora, Mike. — ele disse — Fique sentado bem aqui e espere por mim. Não sei quanto tempo vai levar, mas eu vou voltar. Onde está a pistola de calor? Está com você?

Shea entregou a arma e perguntou — Mas o que você vai fazer? Eu meio que gostaria de saber.

Moore parou antes de afivelar o capacete. — Você me ouviu dizer lá dentro que nós temos água suficiente para jogar fora? Bem, eu tenho pensado nisso e até que não é uma má ideia. Eu vou jogar a água fora.

Sem dar nenhuma outra explicação, ele entrou na cabine pressurizada, deixando para trás um Mike Shea muito confuso.14598370529_59466652c0_b

O coração de Moore batia forte enquanto ele aguardava a abertura da porta. Seu plano era extraordinariamente simples, mas não tão fácil de ser realizado.

Havia um som de equipamento chiando e engrenagens arranhando. O ar começou a sair para o nada. A porta diante dele deslizou alguns centímetros para abrir e então ficou presa. O coração de Moore parou por um instante ao pensar que ela não abriria, mas após alguns empurrões e puxões, ela deslizou até o fim.

Ele acionou o gancho magnético e, com muito cuidado, colocou seu pé para fora, no espaço. Desajeitadamente, conseguiu sair e ficar do lado de fora da nave. Ele nunca havia estado do lado de fora de nenhuma nave no espaço até então e um vasto pavor tomou conta dele enquanto ficava ali pendurado, como uma mosca, em seu precário poleiro. Por um momento a tontura o dominou. Ele fechou os olhos por cinco minutos ali pendurado, se agarrando nas laterais do que um dia havia sido a Silver Queen. O gancho magnético o segurava firmemente e, quando ele abriu novamente os olhos, sua autoconfiança havia retornado em certa medida.

Olhou em torno de si. Pela primeira vez desde o acidente ele pode ver as estrelas em vez de Vesta, que era a única coisa que dava pra ver através da vigia. Ansiosamente, buscou nos céus o pequeno ponto branco e azul que seria a Terra. Ele sempre achara engraçado que a Terra fosse sempre o primeiro objeto que os viajantes espaciais procuravam ao olhar para as estrelas, mas a graça da situação dessa vez passou longe dos seus pensamentos. Sua busca foi em vão. De onde ele estava, a Terra era invisível. Tanto o planeta, como o Sol, devem estar escondidos atrás de Vesta.

Ainda assim, havia muitas outras coisas que ele não pode deixar de notar. Júpiter estava a sua esquerda, um globo brilhante do tamanho de uma pequena ervilha. Moore pode observar dois de seus satélites. Saturno também estava visível, um planeta brilhante de certa magnitude negativa, rivalizando com Vênus como visto da Terra.

Moore achava que um grande número de asteroides também seriam visíveis – já que eles tinham naufragado no meio do cinturão de asteroides – mas o espaço parecia surpreendentemente vazio. Em um certo momento, pensou ter visto um corpo arremessado da nave passar a alguns quilômetros de distância, mas a impressão foi tão rápida que ele não poderia jurar que havia sido real.

E então, claro, havia Vesta. Quase diretamente abaixo dele, agigantava-se como um balão que preenchia um quarto de todo o céu. Ele flutuava firmemente, branco como a neve, e Moore olhou para ele com um desejo ansioso. Um impulso bem forte com as pernas contra o casco da nave — ele pensou — poderia iniciar sua queda na direção de Vesta. Ele talvez conseguisse pousar em segurança e conseguir ajuda para os outros. Mas o resultado mais provável é que ele simplesmente iria entrar em outra órbita ao redor de Vesta. Não, teria que ser melhor do que isso. Isso o lembrou que ele não tinha tempo a perder. Ele deu uma boa olhada pelo lado da nave, procurando pelo tanque de água, mas tudo o que conseguia ver era uma maçaroca de anteparas projetadas para fora, amassadas, despedaçadas e pontiagudas. Ele hesitou. Parecia claro que a única coisa a fazer era chegar até a vigia iluminada da sala onde eles estavam e continuar dali até o tanque.

Cuidadosamente ele foi se arrastando pelo casco da nave. A não mais do que quatro metros da cabine pressurizada, a regularidade da superfície terminava abruptamente. Havia uma cavidade escancarada que Moore reconheceu como sendo o local onde anteriormente havia uma cabine adjunta ao corredor. Ele teve um arrepio. E se ele se deparasse com um cadáver inchado em um desses quartos? Ele conhecia a maioria dos passageiros, a maioria deles pessoalmente.

Mas ele superou seus receios e se forçou a continuar sua precária jornada em direção ao seu objetivo.

E então ele encontrou a primeira dificuldade prática. A cabine em si era feita de material não-metálico em várias partes. O gancho magnético foi feito para ser usado somente no casco externo e era inútil em muitas partes internas da nave. Moore havia se esquecido disso quando de repente se deu conta que estava flutuando e escapando do alcance, sem poder usar seu gancho. Ele engasgou e se agarrou em uma parte pontuda próxima. Lentamente ele puxou a si mesmo de volta a uma área segura.

Deitou-se por um momento, quase sem ar. Em teoria, ele não deveria ter peso aqui fora no espaço – a influência da gravidade de Vesta é mínima – mas o gravitador local abaixo de sua cabine ainda funcionava. Sem o equilíbrio dos outros gravitadores, ele começou a aplicar forças variáveis e rapidamente mutáveis conforme ele ia mudando de posição. Se o gancho magnético se soltasse de repente nessas condições, isso poderia significar ser lançado de uma só vez para longe da nave. E aí?

Estava na cara que isso ainda seria mais difícil do que ele pensara.

Ele continuou a avançar centímetro a centímetro, agachado, testando cada áreazinha para ver se o gancho magnético funcionaria. Algumas vezes teve que fazer caminhos longos e circulares para avançar apenas alguns metros, e as vezes era forçado a trepar e escorregar por sobre partes de material não-metálico. E sempre havia o cansativo puxão do gravitador, continuamente mudando de direção enquanto ele avançava, estabelecendo chãos horizontais e anteparas verticais em ângulos estranhos e quase aleatórios.

Com cuidado, ele investigou todos os objetos com os quais se deparou. Mas era uma busca inútil. Objetos soltos, cadeiras, mesas, tudo havia sido lançado longe no primeiro impacto, provavelmente, e agora eram corpos independentes no Sistema Solar. Ele conseguiu, no entanto, pegar uma espécie de pequena luneta e uma caneta-tinteiro. Colocou os objetos no bolso. Não tinham valor nenhum nas condições atuais mas, de alguma forma, eles pareciam deixar essa viagem macabra pela lateral de uma nave morta um pouco mais real.

Por 15 minutos, 20, meia-hora, ele avançou lentamente em direção aonde ele achava que a vigia deveria estar. O suor escorria para dentro de seus olhos e seus cabelos pareciam uma espécie de massa molhada. Seus músculos começavam a doer por causa dos esforços a que não estava acostumado. A cabeça, já esgotada por causa dos desafios do dia anterior, começava a vacilar, a pregar-lhe peças.

Aquele rastejar parecia eterno, algo que ele fizera para sempre e que para sempre continuaria fazendo. O objetivo de sua jornada, a razão de todo aquele esforço, parecia sem importância; tudo o que sabia é que era necessário mover-se. Aqueles momentos, há uma hora atrás, em que ele estivera com Brandon e Shea, pareciam confusos e perdidos num passado distante. Aquela época mais normal, há dois dias atrás, completamente esquecida. Diante dele, apenas as paredes recortadas, apenas a necessidade vital de chegar a algum destino incerto existiam em sua mente que rodopiava. Agarrar, esticar, puxar. Procurar as ligas de ferro. Subir e entrar nos buracos que já foram quartos e depois sair novamente. Sentir e puxar. Sentir e puxar. Sentir e… uma luz.

Moore parou. Se ele não estivesse grudado na parede ele teria caído. De alguma forma a luz parecia clarear algumas coisas. Era a vigia. Não aquelas escuras pelas quais passara, mas uma viva e acesa. Atrás dela estaria Brandon. Ele respirou fundo e se sentiu melhor, sua cabeça clareando.

E agora o caminho estava aberto diante dele. Em direção àquela centelha de vida, ele se agarrou a esse pensamento. Mais perto, e mais perto, e mais perto, até que ele pode tocá-la. Havia chegado!

Seus olhos mergulharam na cabine tão familiar. Deus sabia que ela não trazia nenhuma associação feliz em sua mente, mas pelo menos era algo real, algo quase natural. Brandon dormia no sofá. Seu rosto estava cansado e pálido, mas um sorriso aparecia vez por outra.

Moore levantou o pulso para bater. Ele sentia um desejo urgente de falar com alguém, nem que fosse por sinais; mas ele se segurou no último instante. Talvez o garoto estivesse sonhando com a sua casa. Ele era jovem e sensível e havia sofrido muito. Deixe-o dormir. Haverá tempo suficiente para acordá-lo quando – e se – sua ideia tiver sido posta em prática.

Ele encontrou a parede dentro da cabine atrás da qual estava o tanque de água e tentou localizá-lo pelo lado de fora. Agora não era tão difícil; a parede de trás se destacava proeminentemente. Moore ficou maravilhado, pois parecia um milagre que ela tenha escapado de ser perfurada. Talvez o Destino não tenha sido tão irônico com eles como eles pensavam. A passagem até lá foi fácil, apesar de estar do outro lado do fragmento. O que fora antes um corredor dava diretamente até lá. Quando a Silver Queen estava inteira, esse corredor havia sido plano e horizontal, mas agora, sob o efeito desequilibrado do gravitador local, parecia mais uma ladeira inclinada. Mesmo assim, o caminho era simples. Já que era feito de aço-berilo uniforme, Moore não encontrou dificuldade enquanto percorria os seis metros até o suprimento de água.

E agora a crise – a última etapa – havia sido alcançada. Ele sentia que precisava descansar primeiro, mas sua ansiedade crescia rapidamente em intensidade. Era agora ou nunca. Ele se arrastou até o centro inferior do tanque. Lá, encostado em uma pequena saliência formada pelo chão do corredor que um dia havia se estendido naquele lado do tanque, ele começou os trabalhos.

— É uma pena que o cano principal esteja apontando na direção errada — ele murmurou para si. — Teria me poupado um trabalhão se estivesse do lado certo. Do jeito que está… — Ele suspirou e voltou ao trabalho. O raio de calor foi ajustado para concentração máxima e as emanações invisíveis foram focadas em um ponto a aproximadamente 25 centímetros acima do chão do tanque.

Gradualmente, o efeito do raio sobre as moléculas no casco começou a ficar aparente. Um ponto do tamanho de uma moeda começou a brilhar fracamente no ponto no qual o raio de calor estava focado. Vacilava um pouco, às vezes diminuindo, às vezes aumentando, enquanto Moore lutava para firmá-lo com seu braço cansado. Ele se apoiou na saliência e conseguiu melhores resultados e o pequeno círculo de radiação começou a brilhar mais forte.

Asimovs-MysteriesLentamente, a coloração foi subindo no espectro. O vermelho escuro que apareceu primeiro se iluminou numa cor de cereja. Enquanto o calor continuava a jorrar, o brilho ia se espalhando por uma área maior, como um alvo feito de camadas sucessivas de tons de vermelho cada vez mais escuros. A área ao redor do ponto focal estava ficando desconfortavelmente quente, mesmo sem brilhar, e Moore achou melhor não tocá-la com o metal de sua roupa.

Moore começou a xingar, pois a própria saliência estava ficando quente. Parecia que praguejar era única coisa que o mantinha firme. E quando uma parede derretida começou a irradiar calor à sua direita, o principal alvo de suas maledicências passaram a ser os fabricantes da sua roupa espacial. — Por que eles não fabricaram uma roupa capaz de manter o calor do lado de fora tão bem quanto mantém o calor dentro?

Mas logo surgiu aquilo que Brandon chamara de otimismo profissional. Com o gosto salgado de suor em sua boca, ele se consolava. — Podia ser pior, acho. Pelo menos, os cinco centímetros de espessura da parede não formam propriamente uma barreira. Imagine se o tanque tivesse sido construído contra o casco externo. Ufa! Imagine tentar passar por 30 centímetros de espessura! — Cerrou os dentes e continuou.

O ponto de luz estava agora brilhando numa cor amarelo-alaranjada e Moore sabia que o ponto de derretimento da liga de aço-berilo estava próximo. O brilho o obrigava a observar o ponto somente a certos intervalos de tempo e, mesmo assim, por apenas alguns momentos.

Era evidente que tudo teria que ser feito rapidamente, ou não daria certo. A pistola de calor não havia sido carregada totalmente pra começo de conversa e, disparando energia em potência máxima como ele vinha fazendo por quase dez minutos, já devia estar chegando ao fim da carga. No entanto ele estava ainda apenas passando pela camada plástica. Em um impulso de impaciência, Moore empurrou o centro do ponto com a boca da arma, e rapidamente a puxou de volta.

Uma depressão profunda se formou no metal macio, mas ainda sem perfurar. Mas Moore estava satisfeito. Já estava quase lá. Se houvesse ar entre ele e a parede, sem dúvida ele já teria ouvido o borbulhar da água dentro do tanque e o assovio do vapor. A pressão estava aumentando. Por quanto tempo mais a parede enfraquecida iria aguentar?

Então, de forma tão repentina que Moore por alguns momentos nem percebeu, ele havia conseguido. Uma fissura minúscula se formou no fundo daquela depressão feita pela boca da arma e, em menos tempo que se leva para imaginar, a agitada água lá de dentro abriu caminho.

O metal, líquido e macio naquele ponto, formou uma bolha e se rompeu, abrindo um buraco do tamanho de uma ervilha. E daquele buraco veio um assobio e um rugido. Uma nuvem de vapor surgiu e cobriu Moore. De dentro da neblina ele conseguia ver que o vapor se condensava quase que imediatamente em cubículos de gelo, que se encolhiam rapidamente e sumiam. Por 15 minutos ele observou o jato de vapor sair. Até que ele se deu conta de uma leve pressão que o empurrava para fora da nave. Uma alegria selvagem tomou conta dele quando percebeu que isso era o efeito da aceleração da nave. Era a sua própria inércia que o impulsionava para trás. Isso significava que seu trabalho estava terminado – e com sucesso. Aquele jato de água estava fazendo as vezes de um foguete.

Ele começou a voltar.

Se os horrores e perigos da jornada até o tanque haviam sido enormes, a volta deveria ser ainda pior. Ele estava infinitamente mais cansado, seus olhos doloridos estavam quase cegos e, somada aos puxões loucos do gravitador, havia a força criada pela variação da aceleração da nave. Mais quaisquer que fossem os problemas para retornar, eles não o preocupavam. Posteriormente, ele nem se lembraria do caminho doloroso.

Como ele conseguira percorrer aquela distância em segurança, ele não sabia. A maior parte do tempo ele estava envolto numa loucura de alegria, mal se apercebendo da realidade da situação. Ele só tinha um pensamento – retornar rapidamente para poder contar as boas-novas.

De repente ele percebeu que estava diante da porta da cabine pressurizada. Ele mal se deu conta de que era a cabine. Praticamente não sabia porque apertou o botão sinalizador. Algum tipo de instinto o mandou fazê-lo. Mike Shea estava esperando. Houve um estalo e um estrondo e a porta exterior começou a abrir, ficou presa e parou no mesmo lugar de antes, mas uma vez mais conseguiu abrir até o final. Fechou-se atrás de Moore, então a porta de dentro abriu e ele caiu nos braços de Shea.

Como num sonho, ele sentiu ser puxado, carregado pelo corretor até a cabine. Sua roupa espacial foi rasgada. Um líquido quente ardeu em sua garganta. Moore engasgou, engoliu, se sentiu melhor. Shea guardou a garrafa de Jabra de novo em seu bolso. As imagens borradas de Brandon e Shea diante dele foram ficando mais nítidas até ficarem claras. Moore secou o suor do rosto com a mão tremendo e ensaiou um sorriso fraco.

— Espere — protestou Brandon — não diga nada. Você parece meio morto. Descanse, ok?

Mas Moore fez que não com a cabeça. Com uma voz rouca e arranhada ele narrou o melhor que pode os eventos das últimas duas horas. A história era incoerente e pouco inteligível mas maravilhosamente impressionante. Os dois ouvintes praticamente não respiraram durante a narrativa.

— Você está dizendo — gaguejou Brandon — que o jato de água está nos empurrando em direção a Vesta, como se fosse um foguete?

— Exato. Como um foguete — arquejou Moore. — Ação e reação. Está localizado… no lado oposto a Vesta… dessa forma… nos empurrando em direção a Vesta.

Shea estava dançando diante da vigia.

— Ele tem razão, Brandon, meu rapaz! Dá para ver a Cúpula de Bennet clara como o dia. Estamos nos aproximando, estamos nos aproximando.

Moore sentiu-se melhor. — Nós estamos nos aproximando numa rota em espiral por causa da nossa órbita original. Iremos pousar dentro de 5 ou 6 horas, provavelmente. A água vai durar por um bom tempo e a pressão ainda é grande, já que a água está jorrando como vapor.

— Vapor? Na baixa temperatura do espaço? — Brandon estava surpreso.

— Vapor… Na baixa pressão do espaço. — corrigiu Moore. — O ponto de fervura da água cai junto com a pressão. É muito baixo no vácuo. Mesmo o gelo possui uma pressão de vapor suficiente para sublimar. — Ele sorriu. — Na verdade, a água congela e ferve ao mesmo tempo. Eu vi. Vamos fazer uma pequena pausa, então. Bem, como se sente agora, Brandon? Muito melhor, hein?

— Brandon corou e seu rosto baixou. Por alguns momentos, buscou as palavras certas. Finalmente ele falou, num susurro. — Sabe de uma coisa, eu devo ter agido como um idiota e um covarde naquela hora. E-Eu acho que não mereço tudo isso depois de ficar em pedaços e ainda deixar o peso de nossa escapada nos seus ombros. Eu queria que você me desse uma surra, ou algo assim, por ter te acertado um soco antes. Me faria me sentir melhor. Estou falando sério. — Ele parecia mesmo estar sendo sincero.

Moore lhe deu um empurrãozinho de leve.

— Esqueça isso. Você nunca vai saber como eu também cheguei perto de desmoronar. — Ele elevou a voz para abafar quaisquer outras desculpas de Brandon. — Ei, Mike, pare de ficar olhando por essa vigia e traga aquela garrafa de Jabra.

— Mike obedeceu alegremente, e trouxe três unidades de plexatron para serem usados como copos. Moore encheu cada um deles exatamente até a borda. Ficar bêbado era sua vingança.

— Cavalheiros — disse ele solenemente — um brinde! — Os três elevaram suas canecas em uníssono. — Cavalheiros, eu lhes dou o suprimento de um ano da boa e velha H20 que costumávamos ter!

— FIM —

O Anel em Torno do Sol

FICHA TÉCNICA:

  • Título Original: Ring Around the Sun
  • Quinto conto escrito por Asimov, em 1938.
  • Apareceu na edição de março de 1940 da revista Future Fiction.
  • Foi publicado no livro O Futuro Começou (1978 – Hemus),
  • A tradução abaixo foi retirada da edição acima citada, que no momento está fora de catálogo e sem previsão de reedição. Os tradutores daquela edição foram: Norberto de Paula Lima, Danusa Scarton Rabello Alves e Valéria Fernandes.

 

NCaptura de Tela 2015-10-16 às 16.35.37OSSA OPINIÃO: ISAAC AMARELO

Asimov fez algumas tentativas no início de sua carreira usando a seguinte fórmula: 1) apresentação rápida de um cenário, 2) os personagens passam por peripécias, 3) final humorístico surpreendente. Eu gosto mais quando ele salpica seu senso de humor de forma mais discreta na ficção, ou então quando deixa rolar toda a sua irônica auto-adulação nos textos de não-ficção. Tendo dito isso, achei o conto divertidinho — mais pela caracterização dos personagens do que pela história em si.

 

future_fiction_194003 Ring Sun
Capa da revista onde o conto apareceu pela primeira vez.

Jimmy Turner estava cantarolando alegremente, se bem que um tanto rouco, quando entrou na sala de recepção.

– O velho ranzinza está? – perguntou, acompanhando a pergunta com uma piscada, com a qual a bela secretária enrubesceu, agradecida.

– Está, e esperando por você. – Levou à porta em que estava escrito em letras grandes e pretas, “Frank McCutcheon, Gerente Geral, United Space Mail”.

Jim entrou. – Alô, chefe, o que há?

– Oh, é você? – McCutcheon olhou para cima, de sua escrivaninha, mascando um charuto fedorento. – Sente-se.

McCutcheon olhou para ele sob suas espessas sobrancelhas cinzentas. O “Velho Ranzinza”, como era conhecido por todos os membros da United Space Mail, era conhecido por nunca ter dado risada, tanto quanto estivesse na memória de seu conhecido mais antigo, muito embora corresse o rumor de que ele sorrira quando criança, ao ver seu pai caindo de uma macieira. Neste momento, sua expressão fazia este rumor parecer exagerado.

– Agora, escute, Turner – grunhiu – a United Space Mail está inaugurando um novo serviço, e você foi escolhido. – Não se importando com a reação de Jimmy, continuou: – De agora em diante o correio de Vênus está com o funcionamento estendido para o ano inteiro.

– O quê! Sempre pensei que era ruinoso, financeiramente, entregar o correio de Vênus, exceto quando o planeta está do mesmo lado do Sol que nós.

– Claro – admitiu McCutcheon – se seguimos as rotas ordinárias. Mas podemos cortar caminho através do sistema se apenas pudéssemos nos aproximar o bastante do Sol. É aí que você entra! Fizeram uma nova nave equipada para se aproximar a vinte milhões de milhas do Sol e que poderá ficar a essa distância indefinidamente.

Jimmy interrompeu, nervosamente. – Espere um pouco, Ran… sr. McCutcheon, não estou entendendo. Que tipo de nave é essa?

– Como quer que eu saiba? Não sou egresso de nenhum laboratório. Pelo que me dizem, emite alguma espécie de campo que desvia as radiações do Sol em tomo dela. Entendeu? Ela é toda defletida. Nenhum calor a atinge. Pode ficar lá para sempre e mais frio do que aqui em Nova Iorque.

– Oh, é assim? – Jimmy estava cético – Já foi testada, ou isso é um pormenor que foi deixado para mim?

– Foi testada, claro, mas não sob condições solares reais.

– Então, nada feito. Já fiz muito pela United mas isto não. Não estou louco, ainda.

McCutcheon empertigou-se – Devo lembrar lhe o juramento que fez ao entrar para o serviço, Turner? “Nosso voo pelo espaço…?”

– “…nunca deve ser interrompido por nada, exceto a morte” – terminou Jimmy – Sei disso tão bem quanto você, e também percebo que é muito fácil dizer isso sentado numa cadeira confortável. Se é tão idealista, pode fazê-lo sozinho Por mim, nada feito. E se quiser, pode me despedir. Posso arranjar outros empregos assim – e estalou os dedos.

A voz de McCutcheon caiu para um sussurro sedoso. – Ora, vamos, Turner, não seja apressadinho. Ainda não escutou tudo o que eu tinha a dizer. Roy Snead será seu companheiro.

– Há! Snead! Aquele mascarado não teria coragem de aceitar um trabalho desses nem num milhão de anos. Conte-me alguma outra história.

– Bem, de fato, ele aceitou. Pensei que você poderia acompanhá-lo. Pensei que você poderia acompanhá-lo, mas creio que ele estava certo. Ele insistiu em que você desistiria. Pensei de início que seria diferente.

McCutcheon despediu-o com um gesto da mão, e continuou despreocupadamente a ler o relatório com que estava ocupado quando Jimmy entrou. Jimmy virou-se, hesitou, e então voltou.

– Espere um pouco, sr. McCutcheon; quer dizer que Roy vai mesmo? – McCutcheon assentiu, ainda aparentemente absorvido em outros assuntos, e Jimmy explodiu. – Ora, aquele traiçoeiro baixinho! Então ele pensa que não tenho peito para ir! Vou mostrar-lhe. Vou pegar o trabalho e apostar dez dólares contra um níquel de Vênus como ele vai se acovardar no último minuto.

– Ótimo! – McCutcheon ergueu-se e apertou-lhe a mão. – Imaginei que você reconsideraria. O major Wade tem todos os pormenores. Você parte em seis semanas, e eu vou para Vênus amanhã; você provavelmente me encontrará lá.

Jimmy saiu, ainda fervendo, e McCutcheon chamou a secretária. – Srta. Wilson, chame Roy Snead pelo ‘visor.

Uma pausa de alguns minutos e então o sinal vermelho acendeu-se. O ‘visor foi ligado e o rosto moreno e vivaz de Snead apareceu na visichapa.

– Alô, Snead – resmungou McCutcheon. – Perdeu aquela aposta, Turner aceitou o serviço. Pensei que ele morreria de rir quando lhe contasse que você disse que ele não iria. Mande-me os vinte dólares, por favor.

– Espere um pouco, sr. McCutcheon – o rosto de Snead estava negro de fúria – qual foi essa ideia de dizer àquele bêbado imbecil que eu não iria? Você teve a ideia, seu mentiroso. Estarei aí sim, mas pode preparar mais vinte e aposto que ele ainda vai mudar de ideia. Mas eu estarei ai. – Roy Snead ainda estava vociferando, quando McCutcheon desligou.

O Gerente Geral recostou-se, jogou fora seu charuto, já destroçado, e acendeu outro. Seu rosto continuava azedo, mas havia uma nítida nota de satisfação em sua voz, ao dizer: – Ha! Sabia que os pegaria.

Era um par suarento e cansado que pilotava a nave “Helios” através da órbita de Mercúrio. A despeito da amizade superficial que lhes era imposta pelas semanas solitárias pelo espaço, Jimmy Turner e Roy Snead mal se dirigiam um ao outro. Acrescente-se a esta hostilidade dissimulada, o calor do imenso Sol e a torturante incerteza sobre o resultado final da viagem, e temos um par miserável, de fato.

Jimmy olhou, exausto, para a multidão de mostradores à sua frente, e, afastando uma mecha de cabelo molhado de seus olhos, resmungou: – Qual a indicação do termômetro agora, Roy ?

– Cento e vinte e cinco graus Fahrenheit, e ainda subindo – foi a resposta, igualmente rosnada.

Jimmy blasfemava fluentemente: – O sistema de refrigeração está no máximo, o casco da nave reflete 95% da radiação, e ainda está nos cento e vinte. – Fez uma pausa. – O gravômetro indica que ainda estamos a uns trinta e cinco milhões de milhas do Sol. Quinze milhões de milhas até que o campo defletor se torne eficaz. A temperatura provavelmente ainda chegará aos 150. Bela perspectiva! Verifique os dessecadores. Se o ar não for mantido absolutamente seco, não duraremos muito.

– Dentro da órbita de Mercúrio, pense só! – A voz de Snead era brusca. – Ninguém já esteve tão perto do Sol como isto, e ainda vamos nos aproximar mais.

– Muitos já estiveram a esta distância, e ainda mais perto – lembrou Jimmy – mas eles estavam fora de controle e desceram no Sol. Friedlander, Debuc, Anton… Sua voz sumiu num entristecido silêncio.

Roy ajeitou-se incomodado – Qual a eficiência do campo de deflexão, Jimmy ? Seus alegres pensamentos não são muito animadores, sabe?

– Bem, foi testado nas piores condições que os técnicos do laboratório puderam criar. Eu assisti aos testes. Foi imerso numa radiação próxima da do Sol a uma distância de vinte milhões de milhas. O campo funcionou como mágica. A luz
dobrou-se em torno dele, de modo que a nave ficou invisível. Os homens dentro dela disseram que tudo o que estava fora é que ficava invisível, e que nenhum calor os atingia. Coisa estranha, porém, o campo trabalha apenas sob certas intensidades de radiação.

– Bem, de qualquer modo, espero que acabe logo – disse Roy, esperançoso. – Se o Velho Ranzinza está pensando em fazer desta a minha rota regular….bem, vai perder seu melhor piloto.

– Perderá seus dois melhores pilotos – corrigiu Jimmy.

Os dois caíram em silêncio, e o “Helios” prosseguiu viagem.

A temperatura subia: 130; 135; 140. Então, três dias depois, como mercúrio oscilando em tomo de 148, Roy anunciou que estava se aproximando do cinturão crítico, onde a radiação solar atingia uma intensidade suficiente para energizar o campo.

Os dois esperavam, mentes em concentração febril, pulsos latejando.

– Acontecerá de repente?

– Não sei. Precisamos esperar.

Das escotilhas, apenas as estrelas eram visíveis. O Sol, três vezes maior do que visto da Terra, derramava seus raios cegantes sobre metal opaco, pois nesta nave especialmente projetada, as escotilhas fechavam-se automaticamente quando atingidas por radiação forte.

E então as estrelas começaram a desaparecer. Lentamente, de início, as mais fracas desapareceram – depois, as mais brilhantes: Polaris, Regulus, Arcturus, Sirius. O espaço estava uniformemente preto.

– Está funcionando – disse Jimmy, aliviado. As palavras mal saíram de sua boca, quando as escotilhas do lado do Sol abriram.se. O Sol desaparecera.

– Bem, já me sinto melhor – Jimmy Turner estava jubilante. – Ra- paz, funciona, como mágica. Sabe, se eles puderem ajustar este campo de deflexão a todas as intensidades de radiação, poderíamos ter a invisibilidade perfeita. Faria uma arma muito conveniente. – Acendeu um cigarro e recostou-se, deliciado.

– Mas, enquanto isso, fazemos voo cego – insistiu Roy.

Jimmy sorriu, paternal. – Não precisa se preocupar com isso, Bolacha. Cuidei de tudo. Estamos em órbita em torno do Sol. Em duas semanas, estaremos do lado oposto e então deixarei os foguetes nos mandarem para fora desta faixa, disparando em direção a Vênus. – Estava realmente muito satisfeito consigo mesmo..

– Deixe com Jimmy Turner, o “Crânio”. Estaremos lá em dois meses, ao invés dos seis meses regulares. Está viajando com o melhor piloto da United.

Roy logo riu. – Ao ouvi-lo, alguém pensaria que você fez todo o trabalho. Tudo o que está fazendo é guiar a nave no curso que eu calculei. Você é o mecânico; eu sou o cérebro.

– Ah, sim? Qualquer cadete de escola de pilotos pode calcular um curso; é preciso um homem para pilotar.

– Bem, na sua opinião. Mas, quem tem o maior salário, o piloto ou o navegador?

Jimmy não teve resposta para isto, e Roy saiu triunfante, da sala de pilotagem. Inconsciente de tudo isto, o “Helios” continuava disparando pelo espaço.

Por dois dias, tudo esteve em paz; então, no terceiro, Jimmy inspecionou o termômetro, coçou a cabeça e ficou preocupado. Roy entrou, olhou para ele, e ergueu as sobrancelhas, surpreendido.

– Algo errado? – Inclinou-se e viu a altura da fina coluna vermelha. – Apenas 100 graus. Não é nada perto do que já passamos. Pela sua expressão, pensei que havia algo errado com o campo de deflexão, e que estava subindo de novo – afastou-se com um bocejar ostensivo.

– Ora, cale-se, seu macaco idiota – o pé de Jimmy ergueu-se numa quase tentativa de pontapé. – Eu me sentiria melhor se a temperatura estivesse subindo. Este campo defletor está trabalhando bem demais para o meu gosto.

– Como? Que quer dizer?

– Explicarei, e se escutar cuidadosamente, você poderia até entender. Esta nave é construída como uma garrafa térmica. Ganha calor apenas com a maior dificuldade e perde-o do mesmo modo. – Interrompeu-se, para que as palavras calassem. A temperaturas ordinárias, esta nave não deve perder mais do que dois graus por dia, se nenhuma fonte exterior agir. Talvez na temperatura em que estamos, a perda possa chegar a cinco graus por dia. Está percebendo?

A boca de Roy estava aberta, e Jimmy continuou. – Agora, esta maldita nave perdeu cinquenta graus em menos de três dias.

– Mas, é impossível.

– Aí está. – Jimmy apontou, ironicamente. – Vou lhe dizer o que está errado. É o campo. Age como agente repulsor de radiações eletromagnéticas, e de certa forma está acelerando a perda de calor de nossa nave.

Roy mergulhou em seus pensamentos e fez alguns cálculos mentais rápidos. – Se o que diz está certo – acabou dizendo – chegaremos ao ponto de congelamento em cinco dias e então passaremos uma semana no que corresponderia ao clima de inverno.

– Isso mesmo. Mesmo considerando um declínio na perda de calor com baixa da temperatura, provavelmente acabaremos com o mercúrio em algum ponto entre trinta e quarenta abaixo de zero.

Roy engoliu em seco. – E a vinte milhões de milhas do Sol!

– Isso não é o pior – ressaltou Jimmy. – Esta nave, como todas as outras usadas para viajar dentro da órbita de Marte, não tem sistema de aquecimento. Com o Sol brilhando furiosamente, e sem meios de perder calor exceto por uma irradiação ineficiente. As naves de Marte e Vênus sempre se especializaram com sistemas de refrigeração. Nós, por exemplo, temos um equipamento de refrigeração muito eficiente.

– Estamos enrascados, então. O mesmo se aplica a nossos trajes espaciais.

A despeito da temperatura ainda muito quente, os dois estavam começando a experimentar alguns arrepios de antecipação.

– Sabe, não vou ficar aguentando isto – declarou Roy. – Voto por sairmos daqui já e voltarmos para a Terra. Não podem esperar mais de nós.

– Continue! Você é o piloto. Você pode calcular um curso a esta distância do Sol e garantir que não cairemos no Sol?

– Diabos! Não tinha pensado nisso.

Os dois esgotaram sua imaginação. A comunicação por rádio havia sido impossível, desde que passaram da órbita de Mercúrio. O Sol estava num máximo de manchas, e a estática havia abafado todas as tentativas.

Então, sentaram-se e esperaram.

Os próximos poucos dias foram ocupados inteiramente com a observação do termômetro, com alguns minutos tomados aqui e ali, sempre que um dos dois pensava numa maldição diferente para lançar sobre a cabeça do sr. Frank McCutcheon, Permitiram-se comer e dormir, mas não o apreciavam.

Entrementes, o “Helios”, inteiramente despreocupado com as atribulações de seus ocupantes, prosseguia em sua rota.

Como Roy predissera, a temperatura passava a linha vermelha marcada “congelamento”, já por volta de seu sétimo dia no cinturão de deflexão, Os dois estavam notavelmente infelizes quando aconteceu exatamente como esperavam.

Jimmy havia retirado cem galões de água do tanque.Com isto enchera quase todo recipiente a bordo.

– Poderá – assinalou – evitar que os canos estourem quando a água se congelar. E se o fizerem, como é provável, ainda assim, teremos nossas reservas de água. Precisaremos aguentar mais uma semana, como sabe.

E no dia seguinte, o oitavo, a água congelou. Lá estavam os baldes, transbordando com gelo, envoltos em seu frio branco. Os dois olhavam para eles, desesperados, Jimmy abriu um deles.

– Totalmente congelado – disse, inexpressivamente, e enrolou outro cobertor em volta de si mesmo.

Era difícil pensar em qualquer outra coisa que não o frio crescente, agora. Roy e Jimmy haviam recolhido todo cobertor e lençol a bordo da nave. depois de vestirem três ou quatro camisas e número igual de calças.

Ficavam na cama o máximo tempo possível, e quando forçados a saírem, procuravam ficar perto do pequeno queimador de óleo, para se aquecerem. Mesmo este prazer duvidoso logo lhes seria negado, pois como observou Jimmy, “a reserva de óleo é extremamente limitada e precisaremos do queimador para derreter a água e a comida”.

Os ânimos estavam exaltados e as discussões eram frequentes, mas a miséria comum evitava que chegassem a vias de fato. Foi no décimo dia, porém, que os dois, unidos por seu ódio comum, de repente acabaram amigos

A temperatura estava se aproximando do zero, já se decidindo a cair para as regiões negativas. Jimmy estava encolhido a um canto, lembrando-se dos tempos em Nova Iorque, quando reclamara do calor de agosto e imaginava como pôde dizer aquilo. Roy, enquanto isso, havia manipulado dedos enrijecidos tempo suficiente para calcular que teriam de suportar o frio por exatamente mais 6.354 minutos.

Considerou o número com desgosto e leu-o para Jimmy. Este fez uma careta e reclamou: – Do jeito que me sinto, não vou durar nem 54 minutos, quanto mais 6.354. – E então, impaciente – gostaria que você pudesse pensar em algum modo de nos tirar disto.

– Se não estivéssemos tão perto do Sol – sugeriu Roy – poderíamos ligar os motores principais e sairmos.

– Sim, e se caíssemos no Sol, estaríamos confortavelmente aquecidos. Grande ajuda a sua!

– Bem, você é que se chama “O Crânio”, pense você em algo. Do jeito que fala, pode-se pensar que foi tudo minha culpa!

– Certamente que é, seu jumento vestido de gente! Meu melhor discernimento me dizia para nunca embarcar nesta viagem louca. Quando McCutcheon a propôs, recusei imediatamente; eu sabia. – Jimmy estava amargurado. – E então, o que acontece? O louco que você é, aceitou e precipitou-se, onde qualquer homem sensato recearia entrar. E então, claro, eu precisava ir junto.

– Ora, você deveria saber porque fiz isso – a voz de Jimmy se elevava – eu deveria tê-lo deixado ir sozinho e congelar, e então sentar-me ao lado de uma lareira e refestelar-me. Isto é, se soubesse o que viria a acontecer.

Um olhar de descontentamento surpreso apareceu na face de Roy .

– Ah, é assim? Então é isso! Tudo o que posso dizer é que você certamente é um gênio para distorcer os fatos, pelo menos. O fato é que você foi indescritivelmente estúpido para aceitar, e eu o pobre coitado arrastado por força das circunstâncias.

A expressão de Jimmy era do mais supremo desdém. – Evidentemente o frio o deixou meio insano, muito embora eu admita que não é preciso muito para abalar o pouco de juízo que você tem na cabeça.

– Escute aqui – respondeu Roy, esquentado – a 10 de outubro, McCutcheon chamou-me pelo ‘visor e disse-me que você havia aceito, e riu- se de mim por me acovardar e não aceitar. Você nega isso?

– Sim, nego completamente. A 10 de outubro, o Ranzinza disse-me que você decidira ir e tinha apostado com ele que…

A voz de Jimmy desapareceu, e um olhar chocado tomou sua face. – Ei,… está certo de que McCutcheon lhe disse que eu concordava em ir?

Um sentimento de frio agarrou o coração de Roy quando ele percebeu a mudança de Jimmy, um sentimento que vencia a insensibilidade causada pelo frio.

– Absolutamente – ele respondeu – juro; por isso é que vim.

– Mas ele me disse que você aceitara e por isso é que vim. – Jimmy já estava se sentindo um idiota.

Os dois caíram num silêncio retraído e fatal, que foi quebrado por Roy, que falou numa voz que tremia de emoção.

– Jimmy, fomos vítimas de uma desprezível, baixa, e hipócrita artimanha. – Seus olhos se dilataram, furiosos. – Fomos ludibriados, espoliados… – as palavras lhe faltavam, mas ele continuou praguejando com sons sem sentido, indicadores principalmente de uma ira devoradora. Jimmy estava mais calmo, mas não menos vingativo. – Está certo, Roy, McCutcheon jogou sujo conosco. Chegou às maiores profundezas da iniquidade humana. Mas vamos tirar a forra. Quando passarmos por todos os 6300 minutos, temos contas a ajustar com o sr. McCutcheon.

– O que vamos fazer? – Os olhos de Roy estavam cheios de uma euforia sanguinária.

– De momento, sugiro que simplesmente o ataquemos e o façamos em pequeníssimos pedacinhos.

– Não, não é cruel o suficiente. Que tal queimá-lo em óleo?

– É razoável, sim; mas leva muito tempo. Vamos dar-lhe uma boa surra à moda antiga – com soco inglês.

Roy esfregou as mãos. – Teremos muito tempo para pensar em medidas realmente adequadas. O sujo, amaldiçoado, covarde, leproso… – O resto derivou fluentemente no irreprodutível.

E por mais quatro dias, a temperatura caiu. Foi no décimo quarto e último dia que o mercúrio congelou, a coluna vermelha apontava, congelada, para quarenta abaixo de zero.

Neste terrível último dia, tinham acendido o queimador de óleo, usando todo o seu escasso suprimento de óleo. Tremendo e mais que meio enregelados, estavam encolhidos juntos, tentando usar cada última gota de calor.

Jimmy havia encontrado um par de protetores de orelhas alguns dias antes, em algum canto obscuro, e agora trocava de mãos ao fim de cada hora. Ambos estavam sentados sob uma pequena montanha de cobertores esfregando mãos e pés gelados. A cada minuto que passava, sua conversação, concernente ao sr. McCutcheon quase exclusivamente, ficou mais vitriólica.

– Sempre citando aquele três vezes maldito slogan do correio espacial: “Nosso voo pelo esp…” – Jimmy engasgou, em sua fúria impotente.

– Sim, e sempre abrindo buracos em poltronas, ao invés de vir aqui e fazer algo parecido com o trabalho de homens, o coisa podre – concordou Roy .

– Deveremos passar pela zona de deflexão em duas horas. Então mais três semanas, e estaremos em Vênus – disse Jimmy , espirrando.

– Não vejo a hora – disse Snead, que estivera fungando nos últimos dois dias. – Nunca mais vou fazer outra viagem espacial, exceto aquela que me leve de volta à Terra. Depois vou ganhar a vida plantando bananas na América Central. Um indivíduo pode ficar decentemente aquecido ali, pelo menos.

– Poderemos nem sair de Vênus, depois do que estamos para fazer com McCutcheon.

– Você pode estar certo, mas não faz mal. Vênus é até mais quente que a América Central, e é tudo o que importa.

– Nem precisamos ter preocupações com a lei – Jimmy espirrou de novo. – Em Vênus, a prisão perpétua é o limite para homicídio em primeiro grau. Uma cela seca e quente para o resto da vida. O que poderia ser melhor?

O outro braço do cronômetro girava em seu passo regular; os minutos eram contados. As mãos de Roy flutuavam amorosamente sobre a alavanca que dispararia os jatos principais, que levariam o “Helios” para longe do Sol e daquela terrível zona de deflexão.

 

E por fim: – Agora! – gritou Jimmy , ansioso – Ligue os motores!

Com um profundo rugido de reverberação, os foguetes dispararam. O “Helios” tremeu de proa a popa. Os pilotos sentiram a aceleração comprimi-los contra seus assentos, e ficaram felizes: Em questão de minutos, o Sol brilharia de novo e eles estariam aquecidos, e de novo sentiriam o abençoado calor.

Aconteceu antes que se apercebessem do fato. Houve um lampejar momentâneo, então um rangido e um estalo, com a abertura das escotilhas do lado do Sol.

– Veja – exclamou Roy – as estrelas! Saímos! – Lançou um olhar extático de alegria para o termômetro. – Bem, meu velho, lá vamos nós de novo. – Puxou os cobertores à sua volta, pois o frio ainda permanecia.

Havia dois homens no escritório de Frank McCutcheon na filial venusiana do Correio Espacial. – O próprio McCutcheon e o velho Zebulon Smith, com seus cabelos brancos, inventor do campo de deflexão. Smith falava.

– Mas, sr. McCutcheon, é realmente de grande importância que eu saiba exatamente como funcionou meu campo defletor. Certamente eles devem ter transmitido toda informação possível para o senhor.

O rosto de McCutcheon era um tratado de azedume ao morder a ponta de um de seus charutos imensos, e acendeu-o.

– Isso, meu caro sr. Smith – disse ele – é exatamente o que eles não fizeram. Desde que se afastaram do Sol a distância que lhe permitia comunicação, tenho mandado pedidos de informações quanto à praticabilidade do campo. Eles simplesmente recusam-se a responder. Dizem que funcionou e que estão vivos, e darão mais informações quando chegarem a Vênus. E é tudo!

Zebulon Smith suspirou, desapontado. – Não é um tanto incomum, insubordinação, por assim dizer? Penso que eles teriam a obrigação de serem completos em seus informes e darem quaisquer pormenores que lhes são pedidos.

– É verdade. Mas estes são os “ases”, e um tanto temperamentais. Precisamos tolerar estes desvios. Além do que, eu os ludibriei para embarcarem nesta viagem, muito arriscada, como sabe, e estou inclinado a ser indulgente.

– Bem, então suponho que preciso esperar.

– Mas não será por muito tempo. – McCutcheon assegurou-lhe. – Devem chegar hoje, e posso dizer-lhe que, assim que tiver contato com eles enviar-lhe-ei todos os pormenores. Afinal, sobreviveram, por duas semanas, a uma distância de vinte milhões de milhas do Sol, de modo que sua invenção é um sucesso. Isto já deve satisfazê-lo.

Smith mal acabara de sair, quando a secretária de McCutcheon entrou com uma expressão estranha no rosto.

– Algo está errado com os pilotos da “Helios”, sr. McCutcheon – ela informou-o. – Acabo de receber um boletim do Major Wade da cidade de Pallas, onde desceram. Recusaram-se a comparecer à celebração preparada para eles, mas alugaram imediatamente um foguete para chegar aqui, recusando-se a declarar a razão. Quando o Major Wade tentou detê-los, tornaram-se violentos, pelo que ele diz. – Pousou o comunicado sobre a mesa.

McCutcheon olhou-o distraidamente. – Hmm! Eles realmente parecem desconcertantemente temperamentais. Bem, mandem-nos para mim quando chegarem; vou falar com eles.

Foi três horas depois que o problema dos dois pilotos insubordinados de novo apresentou-se à sua mente, desta vez por uma súbita comoção na sala de recepção. Ouviu as vozes iradas de dois homens e então as enérgicas reprovações de sua secretária. De súbito, a porta abriu-se e Jim Turner e Roy Snead irromperam.

Roy friamente fechou a porta e encostou-se contra ela.

– Não deixe ninguém perturbar enquanto eu não acabar – Jimmy disse-lhe.

– Ninguém vai passar por esta porta por alguns instantes – Roy respondeu ameaçador. – Mas lembre-se, você prometeu deixá-lo um pouco para mim.

McCutcheon nada disse durante estes instantes, mas quando ele viu Turner despreocupadamente tirar um par de socos ingleses de seu bolso e pô-los nos dedos com um ar determinado, decidiu que era hora de parar com a comédia.

– Olá, rapazes – disse com uma cordialidade incomum para ele. – Bom vê-los de novo. Sentem-se.

Jimmy ignorou a oferta. – Tem algo a dizer, algum último pedido antes que eu comece as operações? – disse, rangendo os dentes.

– Bem, se vocês querem dessa forma – respondeu McCutcheon – eu poderia perguntar exatamente o que significa tudo isto – se não for muito irracional. Talvez o defletor tenha sido ineficiente, e vocês tenham tido uma viagem um tanto quente.

A única resposta a isto foi um bufo de Roy e um olhar frio de Jimmy

– Primeiramente – disse este – qual foi aquela ideia daquela trapaça imunda e nojenta que fez conosco?

Os sobrolhos de McCutcheon ergueram-se. – Ah, aquelas mentirinhas que lhes disse para que vocês fossem? Ora, aquilo não foi nada. Uma prática comum nos negócios, é tudo. Ora, faço coisas ainda piores do que essas todos os dias, e as pessoas consideram isso rotineiro. Além do mais, que mal lhes fez?

– Diga-lhe sobre nossa”viagem agradável”, Jimmy – instou Roy .

– É exatamente o que vou fazer – foi a resposta. Voltou-se para McCutcheon e assumiu o ar de um mártir. – Primeiro, nesta viagem danada, nós fritamos numa temperatura que chegou aos 150, mas isso era de se esperar, e não reclamamos; estávamos à metade da distância de Mercúrio ao Sol.

– Mas, depois disto, entramos naquela zona onde a luz se dobra à nossa volta; a radiação incidente caiu a zero e começamos a perder calor não só um grau por dia, como aprendemos na escola de pilotagem. – Fez uma pausa para respirar, com mais algumas novas pragas que acabava de imaginar, então continuou.

– Em três dias, descemos a cem, e em uma semana, até o congelamento. Então, por toda uma semana, sete longos dias, seguimos nossa rota abaixo de zero. Estava tão frio no último dia, que o mercúrio congelou. – A voz de Turner subiu até se esganiçar, e na porta, uma certa auto-piedade fez Roy tomar fôlego com um audível engolir em seco. McCutcheon permanecia impassível.

Jimmy continuou. – Lá estávamos nós, sem um sistema de aquecimento, de fato, sem calor de nenhuma espécie, nem mesmo roupas quentes. Congelamos, diabos; precisávamos derreter nossa comida e nossa água. Estávamos enrijecidos, não podíamos nos mover. Foi um inferno, estou lhe dizendo, às avessas. – Interrompeu-se, procurando palavras.

Roy Snead incumbiu-se de continuar. – Estávamos a vinte milhões de milhas do Sol e eu estava com as orelhas enregeladas. Sim, isso mesmo. – E brandiu o punho no nariz de McCutcheon. – E foi sua culpa. Você nos atraiu para isto! Enquanto estávamos congelando, prometemo-nos que voltaríamos para pegá-lo e vamos manter a nossa promessa. – Voltou-se para Jimmy. – Vamos começar? Já perdemos muito tempo.

– Esperem, rapazes – falou, enfim, McCutcheon. – Deixem-me entender direito. Querem dizer que o campo de deflexão funcionou tão bem que manteve afastada toda a radiação e retirou todo o calor que estava na nave? – Jimmy concordou, bruscamente.

– E vocês gelaram por toda uma semana por isso? – McCutcheon continuou.

De novo, uma rosnada.

E então, uma coisa muito estranha e incomum aconteceu. McCutcheon, o “Velho Ranzinza”, o homem sem o músculo do “risus”, sorriu. De fato, mostrava seus dentes. E mais, o sorriso cresceu, e cresceu até que finalmente um riso enferrujado, há muito não utilizado, foi ouvido mais e mais alto, até se desdobrar numa sonora gargalhada, e a gargalhada em gritos. Numa só explosão estentórica, McCutcheon compensou uma vida inteira de azedume.

As paredes reverberavam, as persianas vibravam, e ainda a risada homérica continuava. Roy e Jimmy ficaram boquiabertos, inteiramente inertes. Um contador, surpreso, pôs a cabeça para dentro da porta e congelou onde estava. Outros acumulavam-se perto da porta, conversando em cochichos assombrados. McCutcheon tinha rido!

Gradualmente a hilaridade do velho Gerente Geral amorteceu-se. Acabou com alguns engasgos e finalmente voltou um rosto avermelhado para seus pilotos, cuja surpresa havia muito, dera lugar à indignação.

Disse-lhes: – Foi a melhor piada que já ouvi. Podem considerar-se pagos em dobro, vocês dois. – Ele ainda estava sorrindo, e não conseguia evitar os soluços.

Os dois pilotos esfriaram com esta proposta simpática. – O que é tão terrivelmente engraçado? – Jimmy queria saber. – Não vejo nada do que me rir.

A voz de McCutcheon pingava mel. – Amigos, antes da partida, dei a cada um de vocês diversas folhas mimeografadas contendo instruções especiais. O que aconteceu com elas?

Houve um repentino embaraço no ar.

– Não sei. Devo ter perdido a minha – embatucou Roy .

– Nunca olhei para a minha, esqueci-me dela. – Jimmy estava legitimamente consternado.

– Como veem – exclamou McCutcheon, triunfante – foi por culpa de sua própria imbecilidade.

– Como pode dizer isso? – Jimmy queria saber. – O Major Wade disse-nos tudo o que precisávamos saber sobre a nave, além do que, creio que não há nada que você possa nos dizer sobre como pilotar uma.

– Oh, não? Wade evidentemente esqueceu de informá-los de uma minúcia que vocês deveriam ter encontrado em minhas instruções. A força do campo de deflexão é ajustável. Acontece que estava ajustada para força máxima quando vocês começaram, eis tudo. – Estava começando a rir-se de novo, levemente. – Agora, se vocês tivessem se dado ao trabalho de ler aquelas folhas, saberiam que um simples movimento de uma alavanquinha – fez o gesto apropriado com o polegar – teria enfraquecido o campo de qualquer quantidade desejada, e permitiria que qualquer dose de radiação penetrasse, o quanto se desejasse.

E agora a risada tornava-se mais alta. – E vocês congelaram-se por uma semana porque não tiveram cabeça para puxar uma alavanca. E então vocês, os ases, vêm aqui e acusam a mim. Que piada! – E pôs-se a rir de novo enquanto um par de rapazes, humilhados, olhava um para o outro, embaraçados.

Quando McCutcheon voltou ao normal, Jimmy e Roy tinham-se ido.

Numa alameda adjacente ao prédio, um garoto de dez anos olhava, com a boca aberta e totalmente absorto, os dois rapazes, empenhados na estranha e assombrosa ocupação de chutarem um ao outro, alternada mente, com toda a força!

 

— FIM —

A Ameaça de Calisto

FICHA TÉCNICA:

  • Título Original: The Callistan Menace (Stowaway / Magnetic Death)
  • Segundo conto escrito por Asimov, em 1938.
  • Apareceu na edição de abril de 1940 da revista Astonishing Stories.
  • Foi publicado no livro O Futuro Começou (1978 – Hemus),
  • A tradução abaixo foi retirada da edição acima citada, que no momento está fora de catálogo e sem previsão de reedição. Os tradutores daquela edição foram: Norberto de Paula Lima, Danusa Scarton Rabello Alves e Valéria Fernandes.

 

Captura de Tela 2015-10-16 às 16.35.37NOSSA OPINIÃO: ISAAC AMARELO

Apesar de ser um conto divertido, ainda não é um representante do conhecido estilo de Asimov, não conseguimos ouvir a “voz” dele. Mas até que para uma segunda tentativa do ainda futuro escritor profissional, vai bem. É possível perceber as fortes influências da ficção científica das revistas pulp, com seus monstros gigantes, e um certo tom de filme de terror. Recomendo a leitura, até porque o conto é relativamente curto, mas sem muitas expectativas.

 

Capa da revista na qual o conto apareceu pela primeira vez.
Capa da revista na qual o conto apareceu pela primeira vez.

– Maldito Júpiter! – rosnou Ambrose Whitefield farto de tudo, com o que concordei, com a cabeça. – Tenho estado de serviço no satélite de Júpiter – disse eu – por quinze anos, e ouvi estas duas palavras faladas talvez um milhão de vezes. É provavelmente a praga mais sincera do sistema solar.

Nosso turno nos controles da nave patrulha “Ceres” acabava de ser rendido e descíamos os dois níveis para nosso quarto com passos arrastados.

– Maldito Júpiter – e maldito seja de novo – insistiu Whitefield, morosamente. – É grande demais para este sistema. Fica lá atrás de nós e puxa, e puxa, e puxa! Precisamos manter os Átomos funcionando todo o tempo. Precisamos verificar o curso – completamente – a cada hora. Sem descanso, sem parar, sem cessar! Nada senão o mais podre dos trabalhos.

Havia gotículas de transpiração em sua testa e ele as limpava com as costas da mão. Era jovem, mal tinha trinta anos, e podia-se ver por seus olhos que estava nervoso, e mesmo um pouco assustado.

E não era Júpiter que o estava incomodando, a despeito de sua maledicência. Júpiter era a menor de suas atribulações. Era Calisto! Era aquele pequeno satélite que brilhava num azul pálido em nossas visichapas e fazia Whitefield suar e que já tinha estragado quatro de minhas noites de sono. Calisto! Nosso destino!

Mesmo o velho Mac Steenden, veterano com seu bigode grisalho que, em sua juventude, viajara com o grande Peewee Wilson em pessoa, cumpria suas funções com um olhar ausente. Quatro dias fora – e mais dez dias à nossa frente – e o pânico estava chegando com suas garras.

Éramos todos corajosos, no curso ordinário dos acontecimentos. Nós oito no “Ceres” havíamos nos defrontado com a púrpura Letrônica e o traiçoeiro Disintos, de piratas e rebeldes e os ambientes estranhos de meia dúzia de mundos. Mas é preciso mais do que uma bravura quixotesca para enfrentar o desconhecido; para enfrentar Calisto, o “mundo misterioso” do sistema solar.

Um fato era conhecido sobre Calisto – um sombrio e simples fato. Por um período de vinte e cinco anos, sete naves, progressivamente melhor equipadas, tinham descido lá – e nunca mais se ouviu falar delas. Os jornais dominicais povoavam o satélite com qualquer coisa, desde super-dinossauros até fantasmas invisíveis da quarta dimensão, mas isso não resolvia o mistério.

Éramos a oitava. Tínhamos uma nave melhor do que qualquer das precedentes. Éramos os primeiros a testar o novo casco de berílio-tungstênio, duas vezes mais forte do que as velhas cascas de aço. Possuíamos armamentos superpesados e a última propulsão atômica.

E mesmo assim – éramos apenas a oitava expedição – e cada um de nós sabia disso.

Whitefield entrou em seus aposentos silenciosamente e mergulhou em seu catre. Seus punhos estavam fechados sob seu queixo e estavam brancos nas juntas. Parecia-me que ele não estava longe de estourar. Era um caso para cuidadosa diplomacia.

– O que precisamos – disse eu – é uma boa e forte bebida.

– O que precisamos – respondeu asperamente – é de um monte de bebida boa e forte.

– Bem, o que nos impede? – Olhou para mim, suspeitoso. – Você sabe que não há uma gota de álcool a bordo. É contra os regulamentos da Frota!

– Água de Jabra, cintilante – disse eu, devagar, deixando as palavras gotejarem de minha boca. – Envelhecida sob os desertos de Marte. Suco de esmeralda derretida! Caixas cheias!

– Onde?

– Eu sei onde. Que me diz? Algumas doses – apenas algumas – nos alegrarão.

Por um momento seus olhos faiscaram, e então apagaram-se de novo. – E se o Capitão descobrir? Ele é fanático pela disciplina, e numa viagem como esta, pode nos custar um rebaixamento.

Pisquei e sorri. – Escondida pelo próprio capitão. Ele não pode nos disciplinar sem cortar sua própria garganta – o velho hipócrita. Ele é o melhor capitão que já houve, mas ele gosta de sua água de esmeralda.

Whitefield olhou para mim longa e duramente. – Está bem; leve-me até lá.

Deslizamos até a sala de provisões, que estava deserta, claro. O Capitão e Steeden estavam nos controles; Brock e Charney nos motores; e Harrigan e Tuley estavam com suas cabeças idiotas roncando em seus quartos.

Movendo-me tão imperceptivelmente quanto podia, por mero hábito, empurrei para o lado os diversos volumes de tabletes de comida, e desloquei para o lado um painel oculto perto do chão. Pus a mão dentro e tirei uma garrafa empoeirada, que, à luz fraca, refletia um verde-mar.

– Sente-se – falei – fique à vontade. – Tirei dois copos pequenos e os enchi.

Whitefield bebia devagar e com todas as evidências de satisfação. Virou o copo no segundo gole.

– Afinal, como você foi voluntário para esta viagem, Whitey ? – perguntei. – Você me parece um pouco jovem para uma coisa destas.

Abanou a mão. – Você sabe como é. As coisas ficam monótonas depois de algum tempo. Fui estudar zoologia depois de sair do colégio – grande campo, depois das viagens interplanetárias – e tinha uma posição confortável e boa, lá em Ganimedes. Era monótono, porém; estava totalmente entediado. De modo que juntei-me à Frota por impulso, assim como fui voluntário para esta viagem. – Suspirou, lastimoso. – Estou arrependido de tê-lo feito.

– Não é assim que se encara a coisa, menino. Tenho mais experiência e sei. Quando está para entrar em pânico, está tão bom como se estivesse morto. Ora, daqui a dois meses, estaremos em Ganimedes.

– Não estou apavorado, se é isso que está pensando – exclamou, nervoso. – É… é… – houve uma longa pausa, durante a qual tremeu, entornando seu terceiro copo. – Bem, estou me roendo tentando imaginar por que diabos devemos esperar. Minha imaginação está trabalhando em excesso e meus nervos estão no fim.

– Claro, claro – consolei-o – não o estou acusando. É assim com todos nós, acho. Mas você precisa ser cuidadoso. Ora, lembro-me certa vez, numa viagem Marte-Titã, em que tínhamos de…

Whitefield interrompeu o que era uma de suas histórias favoritas – e eu as tinha como qualquer outro da ativa – com um cutucão nas costelas que me tirou o fôlego.

Pousou seu Jabra cuidadosamente.

– Diga-me, Jenkins – gaguejou – não bebi o suficiente para me fazer imaginar coisas, não?

– Depende do que você imaginou.

– Poderia jurar que vi algo movendo-se em algum lugar na pilha de caixas vazias, do outro lado.

– É mau sinal – e tomei outro gole, ao dizê-lo. – Seus nervos estão subindo para seus olhos, e agora estão brincando com você. Fantasmas, eu suponho, ou ameaça de Calisto nos assombrando por antecipação.

– Eu vi, estou lhe dizendo. Há algo vivo ali. – Inclinou-se para mim – seus nervos estavam perto do colapso – e por um momento, na luz fraca e sombria, eu mesmo me engasguei.

– Você está maluco – disse, em voz alta, e os ecos me acalmaram um pouco. Depositei meu copo vazio e levantei-me apenas um pouquinho tonto. – Vamos lá dar uma olhada nas caixas.

Whitefield seguiu-me e juntos começamos a remover os leves cubos de alumíni daqui para ali. Nenhum de nós dois estava cem por cento sóbrio e fizemos bastante barulho. Pelo canto do olho, pude ver Whitefield tentando mover a caixa mais próxima da parede.

– Essa não está vazia – resmungou, ao erguê-la um pouco do chão.

Murmurando enquanto tomava fôlego, abriu a tampa e olhou para dentro. Por meio segundo ele apenas olhou e então recuou lentamente. Tropeçou em algo e caiu sentado, ainda olhando para a caixa.

Olhei suas ações com os sobrolhos erguidos, e então relanceei apressadamente para o caixote. O relance congelou-se, e emiti um grito rouco que ressoou em cada uma das quatro paredes.

Um garoto estava pondo a cabeça para fora da caixa – um garoto ruivo, de rosto sujo, por volta de treze anos.

– Alô – disse o menino ao sair. Nenhum de nós encontrou forças para responder, de modo que continuou. – Estou contente por terem me encontrado. Estava torcendo meu ombro tentando me dobrar aqui dentro.

Whitefield engoliu em seco, audivelmente. – Meu Deus! Um garoto clandestino! E numa viagem para Calisto!

– E não podemos voltar – recordei-o, com voz exaltada – sem acabarmos conosco mesmos. A rota do satélite de Júpiter é veneno.

– Escute aqui – Whitefield voltou-se para o garoto com súbita beligerância. – Quem é você seu filhote de maluco, e o que está fazendo aqui?

O menino titubeou. – Sou Stanley Fields – respondeu, um pouco assustado. – Sou de Nova Chicago, em Ganimedes. Eu… eu fugi para o espaço, como fazem nos livros. – Interrompeu-se e então perguntou, animado: – Pensa que teremos um combate contra piratas nesta viagem, senhor?

Não havia dúvida de que o garoto estava cheio até as orelhas com lendas do espaço. Eu mesmo costumava lê-las quando era pequeno.

– E seus pais? – perguntou Whitefield, ameaçador.

– Oh, tudo o que tenho é um tio. Ele não se importaria muito, acho. – Já havia passado seu embaraço inicial e olhava para nós, sorridente.

– Bem, o que fazer? – disse Whitefield, olhando para mim completamente desamparado.

Dei de ombros. – Levá-lo ao Capitão. Deixe que ele se preocupe.

– E como ele vai reagir?

– Do modo que ele quiser. Não é culpa nossa. Além do que, não há absolutamente nada que se possa fazer.

E pegando cada um uma das mãos do garoto, fomos embora dali.

O capitão Bartlett é um oficial capaz e um tipo inexpressivo, que raramente exterioriza emoções. Consequentemente, nas poucas ocasiões em que o faz, é como um vulcão mercuriano em erupção – e você não viu nada enquanto não tiver visto uma delas.

Era um caso de última gota. Uma rota de satélites é sempre cansativa. A imagem de Calisto adiante era mais incômoda para ele do que para qualquer um da tripulação. E agora este garoto clandestino.

Não dava mais para suportar! Por meia hora, o Capitão disparou salva após salva da pior espécie de palavrões. Começou com o sol e passou por toda a lista de planetas, satélites, asteroides, cometas, e até os meteoros mesmos. Estava começando com a estrela fixa mais próxima, quando entrou em colapso nervoso, por pura exaustão. Estava tão excitado que nem pensou em perguntar-nos o que estávamos fazendo na dispensa, antes de tudo, pelo que Whitefield e eu estávamos gratos.

Mas o capitão Bartlett não era tolo. Tendo purgado a tensão nervosa de si, viu claramente que o que não pode ser curado, deve ser tolerado.

– Alguém, leve-o e providencie-lhe um banho – resmungou, cansado – e deixem-no fora de minhas vistas, por algum tempo. – Então, acalmando-se um pouco, dirigiu-se a mim. – Não o assuste contando para onde vamos indo. Está numa enrascada, o pobre menino.

Quando saímos, o velhaco de coração mole estava mandando uma mensagem de emergência para Ganimedes tentando entrar em contato com o tio do garoto.

Claro, não sabíamos naquela hora, mas aquele menino foi um presente de Deus – um genuíno golpe de sorte. Desviou-nos a atenção de Calisto. Deu-nos algo mais para nos preocuparmos. A tensão, que ao fim de quatro dias tinha quase atingido o ponto de ruptura, relaxou-se completamente.

Havia algo refrescante na alegria natural do garoto, em sua luminosa ingenuidade. Ele andava pela nave perguntando as questões mais tolas. Insistia em esperar piratas a qualquer momento. E, acima de tudo, persistia em olhar todos e cada um de nós como heróis de seus contos infantis.

Isto pelo menos confortava nossos egos, claro, e elevava nossa moral. Rivalizávamos uns com os outros em peito erguido a contar bravatas, e o velho Mac Steeden, que aos olhos de Stanley era um semideus, quebrou todos os recordes de pura e simples mentira.

Lembro-me, particularmente, da conversa que tivemos no sétimo dia de viagem. Acabávamos de passar o ponto médio da rota e começávamos uma cuidadosa desaceleração. Todos nós (exceto Harrigan e Tuley que estavam nos motores) estávamos sentados na sala de controle. Whitefield, com o rabo dos olhos no Mathematico, conduzia a conversação, e, como sempre, falava sobre zoologia.

– É uma coisinha como um verme – estava dizendo – encontrado apenas na Europa. É chamado Carolus Europis, mas sempre nos referimos a ele como o Verme Magnético. Tem cerca de doze centímetros de comprimento, e tem uma cor assim como ardósia – a coisa mais nojenta que se possa imaginar.

– Gastamos seis meses estudando esse verme, e nunca vi o velho Mornikoff tão excitado com qualquer outra coisa antes. Veja só, matava por algum tipo de campo magnético. Colocando-se um Verme Magnético num extremo de uma sala e uma lagarta no outro, esperando cinco segundos, a lagarta se encolhe e morre.

– E o mais engraçado: não atingiria um sapo, por ser demasiado grande, mas se pegamos esse sapo e colocamos alguma espécie de envoltório de ferro à sua volta, o Verme Magnético mata-o do mesmo modo. É por isso que sabemos que o faz por meio de algum campo magnético – a presença de ferro aumenta sua força mais de quatro vezes.

Sua história nos impressionou bastante. A voz de baixo profundo de Joe Brock ressoou. – Estou bem contente que essas coisas são bem pequenas, se o que você diz é certo.

Mac Steeden espreguiçou-se e cofiou seu bigode cinzento com exagerada indiferença. – Você chama esse verme incomum. Não é nada comparado às coisas que já vi em outros tempos – Abanou a cabeça lentamente, recordando, e sabíamos que estávamos esperando para escutar uma história longa e fantástica. Alguém rosnou, surdamente, mas Stanley animou-se no minuto em que viu que o velho veterano estava para contar uma história.

Steeden notou os olhos acesos do garoto, e dirigiu-se ao pequeno companheiro. – Eu estava com Peewee Wilson quando aconteceu – já ouviu falar de Peewee Wilson, não?

– Oh, sim. – Os olhos de Stanley irradiavam seu culto ao herói. – Li vários livros sobre ele. Foi o maior espaçonauta que já existiu.

– Pode apostar todo o rádium de Titânio que foi, garoto. Não era mais alto que você, e não pesava mais de cinquenta quilos, mas equivalia cinco vezes seu peso em Demônios Venusianos, em qualquer luta. E eu e ele éramos assim. Nunca ia a nenhum lugar, sem que eu o acompanhasse. Quando a coisa estava preta, era sempre a mim que ele recorria.

Suspirou, lúgubre. – Fiquei com ele até o fim. Apenas uma perna quebrada que me impediu de ir com ele em sua última viagem…

Engasgou de repente, e um silêncio gelado varreu-nos todos. O rosto de Whitefield ficou cinzento, a boca do capitão torceu-se um pouco, e meu coração deprimiu-se até a planta de meu pé.

Ninguém falava, mas havia apenas um pensamento entre nós seis. A última viagem de Peewee Wilson tinha sido para Calisto. Tinha sido da segunda expedição – e nunca retornara. Éramos a oitava.

Stanley olhou para cada um de nós, assombrado, mas todos nós evitamos seus olhos.

Foi o capitão Bartlett que se recuperou primeiro.

– Diga, Steeden, você tem uma velha roupa espacial de Peewee Wilson, não? – Sua voz era calma e constante, mas eu podia ver que de tinha que dispender um grande esforço para se manter assim.

Steeden acordou, e olhou para cima. Esteve mastigando as pontas de seu bigode (o que sempre fazia, quando nervoso) e agora elas caíam, apontadas para baixo, descompostas.

– Claro, capitão. Ele deu-a para mim com suas próprias mãos, claro. Foi em ‘23, quando as novas roupas de aço estavam começando a sair. Peewee não tinha mais nenhum uso para sua velha, de vitri-borracha, de modo que deu-ma de presente – e a guardei, desde então. Dá-me boa sorte.

– Bem, eu estava pensando que podíamos arranjar aquela roupa para o garoto aqui. Nenhuma outra pode lhe servir, e ele precisa de uma.

Os olhos ensombrecidos do veterano endureceram e ele abanou a cabeça, vigorosamente. – Não senhor, Capitão; ninguém põe a mão naquela velha roupa. Peewee me deu de presente. Com suas próprias mãos! É… e sagrada! É o que é!

O resto de nós concordou imediatamente com o capitão, mas a obstinação de Steeden estabeleceu-se, e enrijeceu. De novo e de novo ele repetia: – Aquela velha roupa fica onde está. – E enfatizava a questão com golpes de seu punho.

Estávamos para desistir, quando Stanley, até então discretamente silencioso, interpelou-o.

– Por favor, sr. Steeden – havia a suspeita de um tremor em sua voz – deixe-me ficar com ela. Vou tomar bastante cuidado com ela. Aposto que se Peewee Wilson estivesse vivo hoje, ele diria que eu poderia ficar com ela. – Seus olhos azuis umedeceram, e seu lábio tremeu um pouco. O menino era um ator perfeito.

Steeden parecia hesitante e ficou mordendo seu bigode de novo. – Bem… ora, bem, estão todos contra mim, O garoto pode ficar com ela, mas não esperem que eu vá arranjá-la! Vocês podem perder o seu sono com isso – eu lavo minhas mãos.

E assim o capitão Bartlett matou dois coelhos com uma só cajadada. Desviou nossas mentes de Calisto numa hora em que a moral estava periclitante, e deu-nos algo para pensar pelo resto da viagem – para remodelar aquela antiga relíquia, que era o trabalho de mais ou menos uma semana.

Trabalhamos com aquela antiguidade com uma concentração desproporcionada à dimensão do trabalho. Com isto, esquecemos o orbe sempre crescente de Calisto. Soldamos todas as rachaduras e fendas na velha roupa. Remendamos o interior com malha fina de alumínio. Reformamos a pequena unidade aquecedora e instalamos novos recipientes de oxigênio, de tungstênio.

Mesmo o capitão nos dava uma mão com a roupa, e Steeden, depois do primeiro dia, a despeito de sua tirada, do começo, lançou-se com vontade ao trabalho.

Acabamos no dia da descida, e Stanley, quando a experimentou, brilhava de orgulho, enquanto Steeden estava perto, sorrindo e torcendo seu bigode.

Com o passar dos dias, o circulo azul pálido que era Calisto cresceu na visichapa até ocupar a maior parte do céu. O último dia foi inquietante. Executávamos nossas tarefas abstraidamente, e cuidadosamente evitávamos a visão do frio satélite, à frente.

Mergulhamos numa espiral longa e que se contraía lentamente. Com esta manobra, o capitão esperava obter algum conhecimento preliminar da natureza do astro e seus habitantes, mas a informação conseguida era quase inteiramente negativa. A grande percentagem de dióxido de carbono presente na atmosfera escassa e fria era favorável à vida vegetal, de modo que a vegetação era numerosa e diversificada. Porém, o conteúdo de 3% de oxigênio parecia excluir toda possibilidade de vida animal, além das espécies mais simples e menores. Tampouco havia evidência de cidades ou estruturas artificiais de qualquer espécie.

Circundamos Calisto cinco vezes antes de localizarmos um grande lago, mais ou menos com a forma de uma cabeça de cavalo. Foi em direção a esse lago que lentamente baixamos, pois a última mensagem da segunda expedição – a expedição de Peewee Wilson – falava de aterrar perto desse lago.

Ainda estávamos a meia milha de altitude, quando localizamos o brilhante ovoide metálico que era o “Fobos”, e quando finalmente nos chocamos suavemente contra o tapete verde de vegetação, estávamos a menos de quinhentos metros da nave sinistrada.

– Estranho – murmurou o capitão, depois de termos nos reunido na sala de controle, esperando as próximas ordens. – Parece não haver nenhuma evidência de violência. Era verdade! O “Fobos” lá estava, quietamente, aparentemente intacto. Seu casco antiquado de aço brilhava intensamente sob a luz amarela do volumoso Júpiter, pois o pouco oxigênio da atmosfera não podia abrir caminhos de ferrugem por seu resistente exterior.

O capitão emergiu de uma severa contemplação e voltou-se para Charney, ao rádio. – Ganimedes respondeu?

– Sim, senhor. Desejam-nos sorte. – Disse-o simplesmente, mas um calafrio percorreu a minha espinha.

Nenhum músculo da face do capitão se abalou. – Tentou se comunicar com o “Fobos”?

– Sem resposta, senhor.

– Três de nós irão investigar o “Fobos”. Algumas das respostas ao menos, estarão lá.

– Palitos de fósforo! – falou Brock, impassível.

O capitão assentiu, grave.

Pegou oito fósforos, quebrou três pela metade, e estendeu o braço para nós, sem dizer palavra.

Charney adiantou-se, tirando primeiro. Estava quebrado e voltou quietamente para o armário das roupas espaciais. Tuley foi o próximo e depois dele Harrigan e Whitefield. Então, eu, e tirei o segundo fósforo quebrado. Sorri e segui Charney , e em trinta segundos, o velho Steeden juntava-se a nós.

– A nave lhes dará apoio, amigos – disse o Capitão quietamente, ao nos apertar as mãos: – Se algo perigoso acontecer, corram de volta. Nada de heroísmos agora, pois não podemos nos dar ao luxo de perder homens.

Inspecionamos nosso Lectrônic de bolso e saímos. Não sabíamos exatamente o que esperar e não tínhamos certeza de nada, exceto que nossos primeiros passos no solo de Calisto poderiam ser os últimos, mas nenhum de nós hesitou sequer um instante. Nas historietas infantis sobre o espaço, a coragem é uma comodidade barata, mas é muitíssimo mais cara na vida real. E é com considerável orgulho que recordo os primeiros passos firmes com que nós três deixamos a proteção do ‘Ceres”.

Olhei para trás apenas uma vez, e tive um relance da face de Stanley, apertada contra o espesso vidro da escotilha. Mesmo a uma certa distância, sua excitação era apenas aparente. Pobre menino! Nos últimos dois dias, estivera convencido de que estávamos a caminho de arrasarmos algum domínio pirata, e estava morrendo de impaciência pelo começo da luta. Claro, nenhum de nós pensou em desiludi-lo.

O exterior do casco do “Fobos” erguia-se ante nós e nos diminuía com seu poderoso vulto. A nave gigante permanecia no tapete verde escuro, silenciosa como a morte. Uma das sete que haviam tentado, e falharam. E nós éramos a oitava.

Charney quebrou o silêncio perturbador. – O que são estas manchas brancas no casco?

Esticou um dedo revestido de metal e esfregou-o ao longo da chapa de aço. Retirou-o e olhou para a polpa branca macia sobre ele. Com um estremecimento involuntário de repulsa, raspou-a sobre a grama áspera, do chão.

– Que pensa que é?

Toda a nave, tanto quanto podíamos ver – exceto por aquela porção imediatamente perto do chão – estava suja com uma fina camada da substância esponjosa. Parecia esponja seca, como…

Eu disse: – Parece lodo deixado pela passagem de uma lesma gigante, que tivesse saído do lago e deslizado sobre a nave.

Eu não falava sério, mas os outros dois lançaram olhares pressurosos para o espelhado lago onde a imagem de Júpiter estava, imperturbada. Charney tomou seu Lectrônic.

– Ei! – gritou Steeden, súbito, sua voz, metálica e fanhosa, pelo rádio – não devemos ficar aqui conversando. Precisamos achar algum meio de entrar na nave; deve haver alguma abertura no casco. Vá pela direita, Charney, e você, Jenkins, para a esquerda. Verei se posso subir por esta coisa de algum modo.

Considerando cuidadosamente o casco suavemente arredondado, foi para trás, e saltou. Em Calisto, claro, ele pesava apenas dez quilos, ou menos, mesmo com a roupa espacial, de modo que se ergueu nove ou dez metros. Bateu de leve contra o casco, e ao começar a deslizar para baixo, agarrou a cabeça de um rebite e começou a galgar o casco.

Acenando para Charney a esta altura, afastei-me.

– Tudo em ordem? – A voz do capitão soava fraca, em meu ouvido.

– Tudo OK – repliquei – até agora. – E ao dizer isto, o “Ceres” desapareceu atrás do vulto convexo do “Fobos”, morto, e eu estava só, sobre o misterioso satélite.

Prossegui minha ronda em silêncio. A “pele” da espaçonave era contínua exceto pelas escotilhas, negras, imóveis, a mais baixa das quais estava bem acima de minha cabeça. Uma ou duas vezes pensei que pude ver Steeden subindo como um macaco para o topo do casco suave, mas talvez estivesse enganado.

Atingi a proa, finalmente, banhada à plena luz de Júpiter. Ali, a fileira inferior de escotilhas estava baixa o bastante para poder espiar lá dentro, e ao passar de uma para outra, senti-me como olhando para uma nave de fantasmas, pois à luz fantasmagórica, todos os objetos apareciam apenas como sombras incertas.

Apenas a última janela da fileira que se mostrou de um súbito e importante interesse. No retângulo amarelo da luz de Júpiter, projetado sobre o chão, estava o que restava de um homem. Suas roupas estavam soltas à volta dele, soltas, e sua camisa estava enrugada como se as costelas sob ela a houvessem moldado naquela posição. No espaço entre o colarinho aberto da camisa e o quepe de engenheiro, aparecia uma caveira sorridente, sem olhos. O quepe, um pouco deslocado sobre a caveira, parecia adicionar o último refinamento de horror àquela visão.

Um grito em meus ouvidos fez saltar meu coração. Era Steeden, praguejando em algum lugar da neve. Quase de imediato, vi seu corpo revestido de aço deslizando e caindo pelo flanco da nave.

Corremos para ele em passos longos e flutuantes, e ele fez sinal para nós, indicando o lago. Nas suas bordas, parou e inclinou-se sobre um objeto meio enterrado. Dois saltos nos trouxeram perto dele, e vimos que o objeto era um humano em traje espacial, deitado de bruços. Sobre ele estava uma camada espessa da mesma substância macilenta que cobria o “Fobos”.

– Eu o vi do alto da nave – disse Steeden, meio sem fôlego, ao revirar o cadáver.

O que vimos fez-nos explodir simultaneamente em lágrimas. Pelo visor de vidro, aparecia um rosto leproso. Às feições estavam apodrecidas, desmanchadas, como se o apodrecimento tivesse cessado pela interrupção do suprimento de ar. Aqui e ali um pedaço de osso acinzentado aparecia. Foi a coisa mais repulsiva que já havia visto, muito embora já tivesse visto coisas bastante ruins.

– Meu Deus! – a voz de Charney era quase um soluço. – Eles simplesmente morrem e apodrecem. – Falei a Steeden do esqueleto vestido que vi pela escotilha.

– Maldição, é um enigma – resmungou Steeden – e a resposta deve estar dentro do “Fobos”. – Houve um silêncio momentâneo. – Sugiro uma coisa. Um de nós pode voltar e falar para o capitão para desembarcar o desintegrador. Deve haver luz suficiente em Calisto, e, em baixa potência, podemos ter um feixe fino o bastante para abrir um buraco sem explodir com a nave em pedacinhos. Você vai, Jenkins. Charney e eu veremos se podemos encontrar mais alguns dos pobres coitados.

Fui para o ‘Ceres” sem delongas, cobrindo a distância com saltos bem eficientes. Três quartos da distância haviam sido cobertos quando um grito alto soado metalicamente em meus ouvidos, trouxe-me a uma parada brusca. Virei-me assustado, e fiquei petrificado com o que vi.

A superfície do lago fora quebrada numa espuma efervescente e dela saíam as partes dianteiras do que pareciam ser lagartas gigantescas. Esticavam-se para terra, corpos de um cinza sujo pingando lodo e água. Tinham um metro e meio de comprimento, meio metro de espessura, e seu método de locomoção era o mais lento rastejar, para conservar o oxigênio. Exceto por uma projeção pontuda em sua extremidade anterior, cuja ponta brilhava num vermelho fraco, eram absolutamente disformes.

Enquanto olhei, seu número aumentava, até que a borda se tornou uma só massa oscilante de carne cinza repugnante.

Charney e Steeden estavam correndo em direção ao “Ceres”, mas menos da metade da distância tinham percorrido, quando tropeçaram, sua corrida reduzindo-se a uma série de tropeços cegos, e mesmo isto cessou, e quase caíram de joelhos.

A voz de Charney soou fracamente em meus ouvidos: – Busque ajuda! Minha cabeça está se rompendo. Não posso mover-me! Eu… – Ambos estavam imóveis agora.

Comecei a dirigir-me para eles automaticamente, mas um golpe repentino em minhas têmporas me atingiu, e por um momento fiquei confuso.

Então ouvi um grito desesperado de Whitefield: – Volte para a nave, Jenkins! Volte! Volte!

Voltei-me para obedecer, pois a dor aumentava para algo contínuo e dilacerante. Bamboleava e quase caía ao me aproximar da porta da nave, e creio que estava a ponto de desfalecer quando afinal caí dentro dela. Depois, só me lembro de coisas confusas por um bom período.

Minha próxima impressão clara foi da sala de controle do “Ceres”. Alguém havia tirado a minha roupa espacial, e olhei em volta, desalentado, uma cena da mais completa confusão. Meu cérebro estava de alguma forma vazio, e o capitão Bartlett, ao se inclinar sobre mim, aparecia em dobro.

– Você sabe o que aquelas abomináveis criaturas são? – Apontou para fora, para as lagartas gigantes. Abanei a cabeça, mudo.

– São os trisavôs do Verme Magnético de que Whitefield nos falou. Lembra-se do Verme Magnético?

Assenti. – O que mata por um campo magnético que é reforçado pelo ferro nas proximidades.

– Raios, deve ser isso mesmo – gritou Whitefield, de repente. – Poderia jurar. Se não fosse pela sorte de nosso casco ser de berílio-tungstênio, e não de aço – como o “Fobos” e os outros – todos nós estaríamos inconscientes agora e mortos em instantes.

– Então é essa a ameaça de Calisto – minha voz se elevou, num súbito assustar-se. – Mas e Charney e Steeden?

– Acabados – murmurou o capitão, lúgubre. – Inconscientes – talvez mortos. Aquelas minhocas nojentas estão rastejando em direção a eles a não há nada que possamos fazer. – Estalou as articulações dos dedos. – Não podemos ir atrás deles com nossas roupas espaciais sem assinar nossa pena de morte – os trajes espaciais são de aço. Ninguém pode ficar lá e voltar sem uma roupa espacial. Não temos armas com feixe fino a ponto de atingir os Vermes sem calcinar Charney e Steeden também. Pensei em manobrar o “Ceres” para perto e dar uma corrida, mas não se pode manobrar uma espaçonave na superfície de um planeta desta forma, sem rompê-la.

– Em suma – interrompi, secamente – vamos ficar aqui e vê-los morrer. – Ele concordou e deu-me as costas, amargurado.

Senti um puxãozinho em minha manga, e ao voltar-me era Stanley, com seus grandes olhos azuis olhando para mim. Naquela excitação, esqueci-me dele, e agora olhava para ele de mau humor.

– Que é? – Fui logo dizendo.

– Sr. Jenkins. – Seus olhos estavam vermelhos, e penso que ele preferiria piratas aos Vermes Magnéticos, facilmente. – Sr, Jenkins, talvez eu pudesse ir e pegar o sr. Charney e o sr. Steeden.

Simplesmente virei o rosto.

– Mas, sr. Jenkins, eu posso. Ouvi o que o sr. Whitefield disse, e a minha roupa espacial não é de aço; é de vitri-borracha.

– O garoto está certo – falou Whitefield devagar, quando Stanley repetiu sua oferta a todos os outros. – O campo não-reforçado não nos faz mal, é evidente. Ele estaria seguro numa roupa de vitri-borracha.

– Mas aquela roupa não está em boas condições! – Objetou o capitão. – Nunca pensei em fazer o garoto usá-la. – Terminou hesitante e seus modos eram evidentemente irresolutos.

– Não podemos deixar Neal e Mac lá fora sem tentarmos, capitão – disse Brock, impassível.

O capitão decidiu-se subitamente e tornou-se um torvelinho de ação. Mergulhou no compartimento dos trajes espaciais procurando a relíquia, e ajudou Stanley a vestir-se.

– Pegue Steeden primeiro – disse o capitão, ao fechar o último parafuso. – Ele é mais velho e tem menos resistência ao campo. Boa sorte, menino, e se não puder, volte imediatamente. Imediatamente, ouviu bem?

Stanley caiu no primeiro passo, mas a vida em Ganimedes tinha-o acostumado a gravidades abaixo do normal e recuperou-se rapidamente. Não mostrou sinais de hesitação, ao saltar para os dois vultos caídos, e respiramos mais levemente. Claro, o campo magnético não o estava afetando, então.

Ele tinha um dos dois vultos sobre os ombros agora, e estava voltando para a nave a um passo apenas um pouco mais lento. Ao jogar sua carga dentro do compartimento estanque, acenou para nós na janela, e respondemos, acenando para ele.

Ele mal se afastara, quando já tínhamos Steeden dentro. Arrancamos seu traje espacial e o deitamos no catre, fraco e pálido.

O capitão aplicou uma orelha a seu peito e logo riu, aliviado! – O malandro ainda está em ordem.

Reunimo-nos alegres à sua volta, ao ouvirmos isto, todos ansiosos para verificar o pulso dele, certificando-nos de que estava vivo. Seu rosto moveu-se um pouco, e quando uma voz baixa e pastosa se fez ouvir: – Então eu disse ao Peewee, eu disse…– nossas últimas dúvidas foram dissipadas.

Foi um súbito grito de Whitefield que nos levou de volta à janela: – Algo está errado com o garoto.

Stanley estava a meio caminho de volta à nave com sua segunda carga, mas estava cambaleando – progredindo erraticamente.

– Não pode ser – murmurou Whitefield, rouco. – Não pode ser. O campo não pode atingi-lo!

– Deus! – o capitão pôs a mão na cabeça, desesperado – aquela maldita antiguidade não tem rádio. Ele não pode nos dizer o que está errado. – Afastou-se de súbito. – Vou atrás dele. Campo ou não, vou pegá-lo.

– Espere, capitão – disse Tuley , agarrando-o pelo braço – ele vai conseguir.

Stanley estava correndo de novo, mas de uma forma curiosa, oscilando, que deixava bem claro que ele não sabia onde estava indo. Por duas ou três vezes escorregou e caiu, mas a cada vez ele conseguia erguer-se de novo. Caiu contra o casco da nave, finalmente, e rastejou para o compartimento estanque, aberto. Gritamos e rezamos e transpiramos, mas não podíamos ajudar.

E então ele simplesmente desapareceu. Jogara-se contra a porta, e caiu para dentro.

Trouxemos os dois para dentro em tempo recorde, e tiramos-lhes os trajes. Charney estava vivo, logo vimos, e depois o desertamos sem cerimônia, para ver Stanley. O azul de seu rosto, sua língua enrolada, a linha de sangue correndo do nariz para o queixo já contava toda a história.

– O traje estava vazando – disse Harrigan.

– Afastem-se dele – ordenou o capitão – dêem-lhe ar.

Esperamos. Finalmente, um gemido fraco do menino indicava a volta da consciência, e sorrimos juntos.

– Garoto valente – disse o capitão – caminhou aqueles últimos cem metros apenas por teimosia, e nada mais. – Então de novo: – Garoto corajoso; vai ganhar uma Medalha Naval por isto, nem que eu tenha de dar a minha.

Calisto era uma bola que se reduzia no televisor – um mundo comum, sem mistérios. Stanley Fields, capitão honorário da boa nave ‘Ceres”, fazia uma careta para ele, mostrando a língua. Um gesto deselegante, mas o símbolo do triunfo do homem sobre um sistema solar hostil.

 

— FIM —