00 – Irmãos Menores

FICHA TÉCNICA:

  • Primeira aparição: Revista literária da Brooklyn Boys High Recorder (Primavera 1934) – Asimov tinha 14 anos.
  • Outras aparições: Before the Golden Age (1974) – não aparece no índice, mas está no início do ensaio 1934; Opus 200 (1979); Além dessas duas aparições, uma edição limitada foi produzida em 1989 – apenas 126 cópias foram impressas, das quais 100 foram distribuídas – todas elas, autografadas por Asimov. Sabemos que uma cópia foi enviada para Arthur C. Clarke (veja página 108 do livro Yours, Asimov).
  • Observação: Na data de hoje, procurando na internet, encontrei 3 cópias desse livro disponíveis para venda, com preços que variam de R$500 a R$750. Alguém se habilita? (AbeBooks.com)
  • Comentários: O próprio Asimov nem lembrava direito desse texto até mencioná-lo a título de curiosidade no livro Como Tudo Começou (Early Asimov). Após o fato, começou a pensar no assunto e, encucado sem saber se o texto ainda existia, tratou de garimpa-lo (ele descreve os detalhes de sua busca no livro Opus 200, no início do último capítulo: Autobiografia).

O texto nada mais é do que isso mesmo: uma curiosidade, um documento histórico, um exercício literário de um menino de 14 anos que, como ele mesmo diz, não demonstrava em absolutamente nada que aquele rapaz teria algum talento literário e se tornaria um dos escritores mais prolíficos da história da humanidade. A tradução a seguir é inédita. Divirta-se!

 

Irmãos Menores

(Tradução livre para o blog Eu, Asimov – por João Wolf)

Minha missão neste momento é expressar os rancorosos sentimentos que nós, os irmãos maiores (desgraçadas sejam nossas vidas) temos pelos nossos irmãos menores.

Quando eu recebi pela primeira vez a notícia que teria um irmãozinho, no dia 25 de julho de 1929, me senti um pouco desconfortável. Eu mesmo não sabia nada a respeito de ter um irmão, mas muitos dos meus amigos já haviam relatado em inúmeras histórias as inconveniências (para dizer o mínimo) de ter que cuidar de bebês.

No dia 3 de agosto chegou em casa meu irmãozinho. Tudo o que eu via era um amontoado de pele rosada, aparentemente sem a capacidade de causar estrago nenhum.

Naquela mesma noite, eu pulei da cama repentinamente com arrepios por todo o corpo e de cabelo em pé. Eu havia escutado um guincho que não parecia ter sido produzido por nenhuma criatura deste planeta. Em resposta às minhas frenéticas indagações, minha mãe me informou de maneira muito natural que havia sido simplesmente o bebê. Simplesmente o bebê! Eu quase caí duro no chão. Um insignificante bebê, de apenas 4 quilos, com dez dias de idade, ser capaz de gritar daquela maneira! Como assim? Eu tinha certeza que nem mesmo três homens gritando juntos conseguiriam produzir tantos decibéis, mesmo utilizando ao máximo suas cordas vocais.

Mas isso havia sido só o começo. Quando os dentinhos dele começaram a nascer, começou também a tortura de verdade. Eu não consegui pregar o olho por dois meses. Eu só conseguia continuar vivendo porque dormia de olhos abertos na escola.

E ainda tem mais. A Páscoa estava chegando e eu estava todo animado com a ideia de viajar para Rhode Island – até que aquele pivete do meu irmão pegou sarampo e todos os planos viraram pó.

Assim que ele atingiu a idade em que todos os seus dentes já haviam nascido, achei que teriam um pouco de paz, mas não, isso não poderia ser. Eu ainda não havia aprendido que quando uma criança aprende a andar e a emitir aquele balbuciar de bebê, ela vira algo pior que um tufão.

O passatempo favorito dele era cair das escadas, atingindo cada degrau com um barulho retumbante. Isso acontecia em média uma vez a cada dois minutos, e sempre vinha acompanhado de uma repreensão da minha mãe (não para ele, mas para mim por não estar tomando conta dele direito).

“Tomar conta” dele não é tão fácil quanto parece. Os bebês têm o hábito de mostrar a sua devoção agarrando generosos fachos de cabelo e puxando-os com uma força que você nunca poderia imaginar que um ser de um ano de idade seria capaz de possuir. Quando, após alguns minutos de tortura excruciante, você consegue convencê-lo a soltar, ele resolve se distrair batendo na sua canela com um pesado pedaço de ferro, de preferência um que seja afiado ou pontudo.

Um bebê não é uma peste somente quando está acordado; ele é assim também quando está tirando sua sonequinha da tarde.

Cena típica: Estou sentado em uma cadeira ao lado do berço, totalmente imerso na história dos Três Mosqueteiros, e meu irmão está, aparentemente, dormindo pacificamente; só que não. Com um instinto sinistro, apesar de seus olhos fechados e a ausência da habilidade de ler, ele sabe exatamente quando eu chego numa parte emocionante e, com um sorriso malicioso, escolhe exatamente aquele momento para acordar. Com um resmungo eu deixo meu livro de lado e começo a balançar o berço até que meus braços pareçam que vão cair a qualquer momento. Quando finalmente ele volta a dormir, eu já perdi o interesse no famoso trio de mosqueteiros e meu dia está arruinado.

Agora meu irmãozinho já está com quatro anos e meio e a maioria desses hábitos irritantes já desapareceram, mas no fundo eu sinto que ainda há mais por vir. Eu temo o dia em que ele começará a frequentar a escola, colocando um novo fardo em meus ombros. Tenho certeza absoluta que eu serei afligido não somente pelos trabalhos de casa passados pelos meus próprios professores insensíveis, mas ficarei responsável também pelos do meu pequeno irmãozinho.

Nem morto!

(Nota de Asimov: Desnecessário dizer que este texto é completamente ficcional, a não ser pelas datas de nascimento do meu irmão e sua chegada em casa, que estão corretos. Na verdade, meu irmão Stan era uma criança modelo, que me deu muito pouco trabalho. Sim, eu o empurrava no carrinho um bocado, mas eu tinha sempre um livro aberto na barra de direção, então eu não me importava. Eu também me sentava ao lado do berço quando ele estava dormindo, mas, de novo, eu estava sempre lendo – e ele raramente me perturbava. E, quando chegou a época, sempre fez seu próprio trabalho de casa.)

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Estamos de volta!

Olá pessoal! Boas notícias, em breve continuaremos com as atualizações no site!

Atualizações nas listas, novas traduções, guias, resenhas e muitas novidades!

Obrigado àqueles que continuaram nos acompanhando e visitando o site mesmo sem novas atualizações por todo esse tempo.

Abraço!

João Wolf

Isaac Asimov’s Magazine V02N06 (nov/dez 1978)

Décima edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Por motivo de viagem, as traduções estão sendo feitas aos poucos, porém resolvemos adiantar e postar as páginas em inglês desde já.

Em breve teremos a tradução em português, obrigado por aguardar.

(Incluindo um presentinho de Natal — o Conto As Chemist to Chemist, by Isaac Asimov)

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Abaixo, a seção de cartas. Clique na imagem para amplia-la.

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Isaac Asimov’s Magazine V02N05 (set/out 1978)

Nona edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Por motivo de viagem, as traduções estão sendo feitas aos poucos, porém resolvemos adiantar e postar as páginas em inglês desde já.

Em breve teremos a tradução em português, obrigado por aguardar.

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EDITORIAL: POPULAR, MAS NUNCA VULGAR

A palavra em Latim “populus” significa “pessoas”; a palavra em Latim “vulgus” significa “pessoas”.

Em Inglês (e em Português também) temos a palavra “popular” e a palavra “vulgar”, ambas se referem a atributos relacionados a pessoas. Podemos ter, por exemplo, “eleições populares”, que significa que as pessoas em geral, em vez de apenas um grupo privilegiado de indivíduos, podem votar. Temos também “língua vulgar”, que significa a língua falada pelas massas, em vez do Latim que era falado pelas altas classes.

Claro que podemos, ao utilizar o termo “pessoas”, nos referir a toda a população sem nenhuma distinção. Podemos, por outro lado, nos referir à maioria das pessoas mudando o termo para “pessoas comuns”, distinguindo-as das classes “melhores” – melhores seja através do nascimento, educação ou autoestima.

É possível, para os que possuem uma mente democrática, usar os adjetivos com um sentido favorável e ter os melhores pensamentos em tudo o que se refere às características das pessoas. Para os que possuem uma mente mais esnobe, é possível usar os adjetivos com um sentido desfavorável, e pressupor que tudo o que agrada às massas tem que ser necessariamente de qualidade inferior, posto que somente um longo processo de cultivo intelectual pode subir o nível de fruição até que alcance o gosto refinado desses privilegiados.

Em nosso idioma Inglês, diferenciamos esses dois significados, e “popular” acabou por representar os aspectos favoráveis do gosto geral, enquanto “vulgar” passou a representar os aspectos desfavoráveis. Por isso que Shakespeare faz com que Polonius aconselhe seu filho da seguinte forma: “Seja popular, mas nunca vulgar”.

Em Francês, creio que a distinção seja menos evidente. Eu mesmo, por exemplo, já fui descrito em Francês como estando envolvido com a “vulgarização” da ciência. Esse comentário teria me deixado irritado se as frases em volta não deixassem claro que se tratava de um elogio.

Em Inglês, no entanto, somente é possível dizer que eu sou um “popularizador” da ciência. Se alguém tentar afirmar que sou um “vulgarizador” da ciência, é melhor que seja um amigo meu e que esteja sorrindo na hora que o disser.

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Apesar disso, não consigo evitar pensar que, para alguns cientistas, não existe “popularização” da ciência, somente “vulgarização”.

Por que? Pela razão de sempre – arrogância.

Não é raro encontrar um cientista que se ache um membro da aristocracia intelectual. Alcançar

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Abaixo, a seção de cartas. Clique na imagem para amplia-la.

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Isaac Asimov’s Magazine V02N04 (jul/ago 1978)

Oitava edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Seguimos disponibilizando os Editoriais de Asimov traduzidos para o português. Divirta-se!

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Editorial: É uma coisa engraçada

É uma coisa engraçada, mas muitos iniciantes tentam escrever ficção-científica de humor. O que faz disso algo engraçado é que ser engraçado é muito difícil, e mesmo alguns excelentes escritores de ficção-científica não conseguem manejar o humor — mesmo assim muitos iniciantes acham que conseguem.

Por que é tão difícil ser engraçado?

Pra começo de conversa, você tem que acertar o alvo. Se você está buscando drama, é capaz de você, mesmo conseguindo um resultado patético, conseguir algum resultado meia-boca e até vender a história se sensibilizar o editor, mesmo que ele não chegue às lágrimas. Se você está buscando o suspense, você pode atingir um suspense moderado e vender a história se conseguir acelerar um pouco o coração do editor, mesmo que não saia galopando.

Você pode atingir próximo ao alvo, mesmo que não seja na mosca, em quaisquer outras características que buscamos na ficção, e mesmo assim conseguir vender a história.

Com exceção do humor. O alvo do humor tem que ser a mosca. Não existe outra opção.

Você consegue imaginar algo que seja somente meio engraçado? Você já ouviu alguém contar uma história que fosse só “um pouco humorística”? O que acontece?

Claro! Ninguém ri. Na melhor das hipóteses, alguém poderá exibir um sorriso por educação.

Uma história engraçada, no entanto, quando é realmente engraçada, é algo muito bom e deve ser encorajado. Bom humor, perspicácia, até certa molecagem, quando bem feita, contribui para a alegria das nações e para a eupepsia* dos indivíduos.

(*Ué, vá olhar no dicionário. Como você acha que poderá se tornar um escritor se não aumentar o vocabulário?)

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Mesmo assim, até os melhores de nós não nascem já sabendo como escrever com humor. Temos que praticar um pouco no início para ver se temos talento   se o tivermos, temos que desenvolvê-lo através da prática contínua.

Então, aqui vão algumas regras que podem ser úteis.

  1. Mantenha o texto curto. A não ser que você seja um gênio nato da comédia, um Mark Twain ou um P.G. Wodehouse, você não conseguirá manter um nível constante e satisfatório de humor por toda a extensão de um romance. De fato, quanto mais tempo você tentar mantê-lo, menor a possibilidade de você conseguir evitar cair na insipidez ou no doloroso exagero. Minha opinião pessoal é que você deve tentar manter a extensão do texto em, no máximo, 3000 palavras.
  2. Não tente fazer com que cada frase seja sensacionalmente engraçada. Em primeiro lugar, você irá se cansar demais e morrer jovem, e um escritor morto não nos serve. Em segundo lugar, você não vai conseguir. E em terceiro lugar, humor contínuo, mesmo se alcançado, provavelmente não é eficiente. O leitor irá se gastar de rir no início e achará o resto da história um tédio. Aqueles intervalos periódicos que dão ao leitor tempo de recarregar sua reserva de risadas são importantes.
  3. O humor não é, em si, uma história. O humor, se bem feito, tem o poder de melhorar uma história; mas o humor não transforma uma história ruim em uma história boa. Se você está escrevendo uma história de ficção-científica de humor, certifique-se que, ao retirar as partes engraçadas, o que sobrar ainda seja uma história de ficção-científica razoavelmente boa por si.

Agora vamos considerar uma subdivisão dentro das histórias de ficção-científica humorísticas: as histórias de Ferdinand Feghoot (O nome é derivado de uma série escrita por Grendel Briarton (Reginald Bretnor) sobre um cavalheiro com esse nome. As histórias apareceram em 2 livros e 3 revistas, incluindo esta aqui). Esse tipo consiste em uma história cuja única razão para a sua existência é terminar em um elaborado trocadilho.

Há regras para esse tipo de história também.

  1. Já que o trocadilho final é a razão para a história, é óbvio que não podemos sobrecarregar o trocadilho com uma história longa demais, ou o anticlímax irá provocar uma raiva assassina (rosnado) mesmo no mais gentil dos editores — que é como George pode ser descrito. Seja objetivo, eu diria que o texto não deveria passar de 500 palavras.
  2. Mesmo essas 500 palavras precisam perfazer uma história de ficção-científica decente, que não force a barra de forma óbvia em preparação para o trocadilho. O ideal seria o leitor não suspeitar que um trocadilho está a caminho, dessa forma não terá tempo de intensificar seus sentimentos de hostilidade homicida.
  3. Busque o equilíbrio perfeito. A frase que funciona como trocadilho deve ser longa o suficiente para que o leitor a ache engenhosa, mas não tão comprida que o canse antes do fim. O ideal seria que o leitor possa ler a frase em uma olhada.

A distância entre o trocadilho e a frase como um todo deve ser grande o suficiente para se tornar engenhosa e imprevisível, mas não tão esticada que, mesmo após o leitor ler a frase, haja um perceptível período de tempo no qual o leitor não sabe do que você está falando. Lembre-se que a piada deve ser entendida imediatamente. Mesmo uma pequena pausa poderá ser fatal para a gargalhada.

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4.  O trocadilho é feito para o ouvido. É o som que conta, não a aparência. (Em seguida Asimov dá um exemplo de um trocadilho onde, apesar de a palavra ser escrita de forma diferente, a pronúncia é a mesma, garantindo que o trocadilho funcione. Ele segue com um segundo exemplo onde a escrita é a mesma porém a pronúncia é diferente, e afirma que, mesmo lendo silenciosamente em sua cabeça, a pronúncia diferente da palavra faz com que o trocadilho não funcione tão bem. Não sei se essa regra a que Asimov se refere funciona da mesma forma em Português, mas creio que não seja o caso – nota do editor/tradutor).

Para resumir, o tipo de trocadilho ideal, em minha opinião nada modesta, é a minha obra “Sure Thing” (Com Certeza, em tradução livre) na edição de Verão de 1977 da revista Isaac Asimov Magazine. Leia-a novamente e você verá. Há também dois exemplos autênticos na edição de Outono de 1977 da Isaac Asimov Magazine, se você quiser compará-los.

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Um último aspecto a ser mencionado é um aspecto triste. Mesmo uma história bem humorada ou um texto excelente do tipo de Ferdinand Feghoot não possui garantias de ser aceito para publicação. Uma revista deve ter variedade para ter sucesso, e essa variedade deve refletir, com um mínimo de precisão, o gosto e preferências de seus leitores.

O fato é que muitas pessoas não gostam de textos de humor e muitos mais nutrem uma antipatia fanática pelo trocadilho mais inofensivo. Portanto devemos semear os nossos textículos humorísticos de forma suave na página de índice, enquanto aqueles com trocadilhos mais pesados devem aparecer somente quando as antenas do nosso Gentil Editor transmitirem a ele a mensagem que um intervalo suficiente já passou desde a última vez, para que seja seguro imprimir um novo.

Mas eu lhes asseguro que George e eu (que somos como uma só pessoa no que se refere a tudo que é literário) somos jovens de coração alegre cuja inclinação para o riso só é excedida pelo nosso amor por uma boa gargalhada, e iremos fazer com que esta revista seja tão alegre quanto possível — se os escritores cooperarem.

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Abaixo, a seção de cartas. Clique na imagem para amplia-la.

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Isaac Asimov’s Magazine V02N03 (mai/jun 1978)

Sétima edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Seguimos disponibilizando os Editoriais de Asimov traduzidos para o português. Divirta-se!

 

Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v02n03 01

EDITORIAL: O Nome de Nosso Campo

No editorial da última edição, falei sobre as “viagens extraordinárias”de Júlio Verne e que elas levantam a questão de como é difícil encontrar um nome para o tipo de publicações que temos aqui nesta revista e em outras do mesmo tipo.

Esta revista contém “histórias”; e uma “história” nada mais é do que recontar eventos, descrevendo detalhes de forma organizada. O relato pode ser tanto de incidentes reais como inventados, e com o tempo passamos a separar a “História” como a realidade, e simples “histórias” como algo ficcional. Em inglês usamos duas palavras diferentes: History para o primeiro caso e story para o segundo caso.

Um “conto” é algo que é “contado”, e uma “narrativa” é algo que é “narrado”. Tanto “contar” como “narrar” podem ser usados para acontecimentos reais ou inventados. “Narrar” é a palavra menos usada das duas simplesmente porque é mais difícil de falar e por trazer uma sensação de mais formalidade.

Uma palavra que é usada exclusivamente para peças criadas da imaginação e nunca para as histórias reais é “ficção”, que vem de uma palavra do latim que significa “inventar”.

O que esta revista contém, então, são histórias — ou contos — ou, mais precisamente, ficção. Naturalmente, há diferentes variedades de ficção, dependendo da natureza de seu conteúdo. Se os eventos relatados lidam principalmente com amor e relacionamentos, temos as “histórias de amor” ou “contos de amor”. Do mesmo jeito, podemos ter “histórias de detetive” ou “contos de terror” ou “ficção de mistério” ou “histórias de confessionário” ou “contos de caubói” ou “ficção na selva”. As peças que aparecem nesta revista lidam, de uma forma ou de outra, com as mudanças futuras no nível da ciência, ou na tecnologia que é movida pela ciência. Será que não faz sentido, então, considerar essas peças como “histórias científicas”, ou “contos científicos” ou, mais precisamente, “ficção científica”?

No entanto, o termo “ficção científica”, um nome tão óbvio quando se pensa nele, só surgiu muito tarde. As viagens extraordinárias de Júlio Verne eram chamadas de “fantasias científicas” na Grã-Bretanha, e o termo parecido, “science fantasy“, ainda é usado até hoje.

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“Fantasia” é uma palavra derivada de outra, grega, que significa “imaginação”, então não é completamente inapropriada, mas implica na existência mínima de restrições do que se pode fazer. Quando falamos em “fantasia” nos dias de hoje, geralmente estamos nos referindo a histórias que não dependem das leis da natureza descobertas pela ciência, enquanto histórias de ficção científica dependem.

Outro termo usado nos anos 20 nos Estados Unidos era “scientific romance”, ou “romance científico”. A palavra romance era usada originalmente para descrever qualquer coisa publicada nas línguas românicas, ou seja, os idiomas comuns da Europa ocidental; isso quer dizer que era utilizado para se referir a textos cujo objetivo era a diversão. Trabalhos mais sérios eram escritos em latim, claro. O problema é que “romance” passou a ser aplicado para histórias de amor, então “romance científico” ficou esquisito.

“Histórias de pseudo-ciência” já chegou a ser usado, mas é um insulto. “Pseudo” vem de uma palavra em grego que significa “falso”, e mesmo que as extrapolações da ciência usadas na ficção científica não sejam ciência de verdade, também não chegam a ser ciência de mentira. Elas são “ciência que um dia pode vir a ser verdade”.

“Histórias de super-ciência”, mais outro nome que chegou a ser usado, é muito bobo e infantil.

Em 1926, quando Hugo Gernsback publicou a primeira revista da história a ser devotada exclusivamente à ficção científica, ele a denominou Amazing Stories. (que pode ser traduzido por histórias espetaculares, incríveis, surpreendentes)

Esse nome pegou. Quando apareceram outras revistas, sinônimos para “amazing” foram frequentemente usados. Tínhamos Astounding Stories, Astonishing Stories, Wonder Stories, Marvel Stories, e Startling Stories. Todas essas revistas estavam nas bancas na época em que o mundo e eu éramos jovens.

Esses nomes, no entanto, não descrevem a natureza das histórias mas, sim, seus efeitos no leitor, e isso não é suficiente. Uma história pode surpreender, maravilhar ou assustar você; pode ser incrível ou espetacular; e ainda assim não ser necessariamente ficção-científica. Não precisa nem ser uma história de ficção. Era necessário algo melhor.

Gernsback sabia disso. Originalmente ele havia pensado em chamar a revista de “Scientific Fiction”. No entanto, isso era difícil de pronunciar rapidamente, principalmente por causa da repetição da sílaba “fic”. Por que então não combinar as palavras e eliminar uma dessas duas sílabas? Teríamos então “scientifiction”. (Imaginem, em português, “ficcientífica”.)

Só que “scientifiction” é uma palavra feia, difícil de entender e, mesmo se compreendida, capaz de afastar aqueles leitores em potencial que correspondem a palavra “científico” com a palavra “difícil”. Gernsback então usou a palavra somente no subtítulo: Amazing Stories: the Magazine of Scientificion. Ele apresentou também a abreviatura “stf”. Tanto a palavra como a abreviatura ainda são usadas de vez em quando.

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Quando Gernsback foi forçado a abrir mão da Amazing Stories, ele publicou uma revista concorrente chamada Science Wonder Stories (algo como Histórias Maravilhosas da Ciência). Em seu primeiro número (junho de 1929) ele usou o termo “ficção científica” e a abreviação “S.F.” — ou “SF” sem os pontos — acabou se popularizando. Em algumas ocasiões o termo apareceu com hifen, “ficção-científica”, mas isso só acontece raramente. A história, no entanto, não termina aí.

Como eu disse na edição passada, existe um sentimento compartilhado por alguns que o termo “ficção científica” dá ênfase demasiada e de forma errônea ao conteúdo científico das histórias. Desde 1960, em particular, a ficção científica passou a transferir uma parte desse foco na ciência para a sociedade, dos aparelhos tecnológicos para as pessoas. Ainda lida com as mudanças no nível da ciência e tecnologia, mas essas mudanças passam cada vez mais para o pano de fundo.

Eu creio que foi Robert Heinlein quem primeiro sugeriu que passássemos a usar o termo “ficção especulativa”; alguns, como Harlan Ellison, apoiam fortemente essa mudança. Para mim, porém, “especulativa” parece uma palavra fraca. Tem quatro sílabas e não é muito fácil de pronunciar rapidamente. Além disso, praticamente qualquer coisa poderia ser ficção especulativa. Um romance histórico pode ser especulativo; uma história sobre um crime real pode ser especulativa. “Ficção especulativa” não carrega em si uma descrição precisa do nosso campo de trabalho e não creio que iria funcionar. Na verdade, eu acho que eles tentaram usar “speculative fiction”, o termo correspondente em inglês, somente para poder manter o “s.f.”

Isso nos leva a Forrest J. Ackerman, um rapaz maravilhoso por quem tenho enorme afeto. Ele é um devoto dos trocadilhos e jogos de palavras assim como eu também sou, mas Forry nunca aprendeu que algumas coisas são sagradas. Ele não resistiu e cunhou “sci-fi” como um termo análogo, em aparência e pronúncia, ao termo “hi-fi”, a conhecida abreviação de “high fidelity” ou, em português, alta fidelidade. “Sci-fi” é agora amplamente utilizado por pessoas que não leem ficção científica. É usado principalmente por pessoas que trabalham no cinema e na televisão. Isso o transforma, talvez, num termo que tem sua utilidade.

Podemos definir “sci-fi” como aquele material de baixa qualidade que algumas vezes é confundido, pelas pessoas ignorantes, com a “SF”. Sendo assim, Star Trek é SF enquanto Godzilla Vs. Mothra é sci-fi.

— Isaac Asimov

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Abaixo, a seção de cartas. Clique na imagem para ampliar.

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Isaac Asimov’s Magazine V02N02 (mar/abr 1978)

Sexta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando a tradução dos Editoriais de Asimov. Esperamos que curtam!

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EDITORIAL: VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS

Um dos passatempos preferidos por aqueles interessados na ficção-científica — escritores, editores, fãs, leitores — é definir o que é ficção-científica. Mas que diabos é isso? Como diferenciá-la da fantasia? Da ficção em geral?

Provavelmente, existem tantas definições quanto existem pessoas tentando defini-la; e as definições vão desde aquelas dos exclusivistas extremos, que querem a sua ficção-científica pura e com temas mais difíceis, até aquelas dos que querem que sua ficção-científica englobe tudo que existe.

Aqui vai uma definição exclusivista extrema de minha própria autoria: “A ficção-científica lida com cientistas trabalhando com a ciência no futuro”.

Agora veja uma definição inclusivista extrema, de John Campbell: “Ficção-científica é qualquer história que é comprada por um editor de uma revista de ficção-científica.”

Agora, uma definição mais moderada (mais uma vez, de minha autoria): “A ficção-científica é o ramo da literatura que lida com as reações da humanidade às mudanças que ocorrem no nível da ciência e da tecnologia.” Isso deixa em aberto se as mudanças são avanços ou retrocessos e, no que se refere à parte que diz “reações da humanidade”, se o escritor pode referir-se a essas mudanças somente de passagem e sem muitos detalhes.

Para alguns escritores, na verdade, a necessidade de discutir aspectos científicos é tão mínima que eles não gostam nem de usar a palavra “científica” para nomear esse gênero literário. Eles preferem chamar o que quer que seja que eles escrevem de “ficção-especulativa”, o que, em inglês, permite que se mantenha a mesma abreviatura: “SF.” (speculative fiction, como em science-fiction).

(Eu não gosto do termo speculative fiction, a não ser pelo fato que ele talvez pudesse abolir o abominável termo “sci-fi”. Mas aí talvez ele criasse “spec-fic” no lugar, o que é ainda pior)

—> (continua após a figura abaixo)

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De vez em quando me dá vontade de repensar tudo por um ângulo novo, então porque não buscar uma abordagem histórica para a definição? Por exemplo:

Qual é a primeira obra literária do ocidente que possuímos intacta, e que possa ser considerada pelos inclusivistas como ficção-científica?

Que tal a “Odisséia” de Homero? A obra não lida com a ciência em um mundo que ainda não a havia inventado; mas lida com os equivalentes a monstros extraterrestres, tais como Polifemo, e com pessoas que tem à sua disposição o equivalente à ciência avançada, como Circe.

Mesmo assim a maioria das pessoas se referem à “Odisséia” como um “conto de viagem”.

Mas tudo bem. Os dois pontos de vista não são necessariamente mutuamente excludentes. O “conto de viagem”, no final das contas, era a história de fantasia original. Por que não seria? Antes de nosso tempo, viajar era o árduo luxo de alguns poucos, e somente eles tinham a capacidade de ver coisas que a vasta maioria da humanidade não tinha.

A maioria das pessoas, até pouco tempo atrás, vivia e morria na mesma cidade, no mesmo vale, no mesmo metro quadrado de terra no qual eles nasceram. Para eles, tudo o que houvesse além do horizonte era fantasia. Poderia ser qualquer coisa — e eles poderiam acreditar em qualquer coisa que lhes afirmassem que existisse naquelas terras de maravilhas a mais de 80 quilômetros de distância. Plínio não tinha tanto conhecimento assim que não pudesse acreditar nas fantasias que lhe contavam sobre as terras distantes, e mil anos de leitores acreditaram em Plínio. Sir John Mandeville não teve nenhuma dificuldade em contar suas histórias ficcionais de viagem como se fossem verdadeiras.

E por 25 séculos após Homero, quando alguém queria escrever uma história de fantasia, escrevia um conto de viagem.

Imagine alguém que sai a navegar, chega a uma ilha desconhecida e lá encontra maravilhas. Não é assim a história de Simbad, o Marujo, e seus relatos sobre o Rukh e o Velho do Mar? Não é assim a história de Lemuel Gulliver e seus encontros com os Lilliputians e Brobdingnagians? Aliás, não é assim a história de King Kong?

O Senhor dos Anéis, juntamente com a sua horda de imitações abjetas, é também um conto de viagem.

No entanto, esses contos de viagem não seriam mais fantasias, em vez de ficção-científica? Onde é que entra a “verdadeira” ficção-científica?

Considere o primeiro escritor profissional de ficção-científica, o primeiro que ganhava a vida graças a sua indubitável ficção-científica — Júlio Verne. Ele não se considerava um escritor de ficção-científica, pois o termo ainda não havia sido inventado.

Por doze anos ele escreveu para o palco francês com pouco sucesso. Mas ele era um viajante e um explorador frustrado e em 1863, de repente, recebeu um pagamento vultuoso pelo seu “Cinco Semanas em um Balão”. Ele considerava seu livro como um conto de viagem, mas de um tipo diferente, já que ele fazia uso de um equipamento só tornado possível graças ao avanço da ciência.

Verne seguiu esse caminho de sucesso utilizando outros dispositivos científicos, tanto do presente como do futuro possível, para levar seus heróis cada vez mais longe, em suas “viagens extraordinárias” — das regiões polares até o fundo-do-mar, passando pelo centro da Terra, até a Lua.

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A Lua tem sido um destino atraente para os autores de contos de viagem desde Luciano de Samósata, no Século I d.C. Nesses casos, a Lua era considerada simplesmente como mais uma terra distante, mas o que Verne fez de diferente é que ele se esforçou para que seus heróis chegassem lá através de princípios científicos que ainda não haviam sido aplicadas na vida real (apesar dos métodos não serem possíveis de serem realizados do jeito que ele os descreveu).

Depois dele, outros escritores levaram seus personagens em viagens ainda mais longas até Marte e outros planetas; e finalmente em 1928, E.E. Smith, em seu “The Skylark of Space,” rompeu todos os limites com seu “motor sem inércia” e levou a humanidade até as estrelas mais distantes. (clique no link do Projeto Gutemberg para baixar o livro de graça, em inglês)

Ou seja, a ficção-científica começou como um desenvolvimento do conto de viagem, diferenciando-se principalmente no fato de que os meios de transporte e comunicação descritos ainda não existem, mas poderiam existir se o estágio da ciência e da tecnologia em determinado momento fossem extrapolados até estágios mais avançados no futuro.

Mas, com certeza, nem toda a ficção-científica pode ser considerada um conto de viagem. E quanto as histórias que se passam bem aqui na Terra mas lidam com robôs, ou com desastres nucleares ou ecológicos, ou ainda, com novas interpretações do passado distante?

Nenhum desses cenários, porém, acontece “bem aqui”, na Terra. Seguindo a tradição de Júlio Verne, tudo o que acontece na Terra só é possível em função das mudanças contínuas (avanços, normalmente) no nível da ciência e da tecnologia, de forma que a história deve acontecer “bem aqui”, mas numa Terra do futuro.

O que você acha, então, da seguinte definição: “Histórias de ficção-científica são viagens extraordinárias que nos levam a qualquer um dos infinitos possíveis futuros.”?

— Dos quais temos amostras bem aqui nesta edição — e em cada uma das nossas edições.

—Isaac Asimov

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Blablabla

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