Isaac Asimov’s Magazine V01N04 (Inverno de 1977)

Quarta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as traduções dos Editoriais de Asimov e quaisquer outros textos de interesse.

Tradução para o português disponível abaixo.

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EDITORIAL

Durante um período de seis semanas no início do ano de 1975, a cidade de Nova York foi o endereço não de uma, mas de três convenções de Star Trek. A cada uma delas compareceram milhares de fãs — sendo que um grande número deles compareceu a todas as três, em sua totalidade ou em parte.

Eu mesmo fui a todas as três, e não pude evitar de lembrar da primeira convenção de ficção científica que conseguiu ser mais do que um encontro de membros de fã-clubes locais.

Ela aconteceu em 1939 e nasceu do cérebro de um fã de renome, Sam Moskowitz. Fãs de todo o país já se correspondiam, mas Sam achou que aquilo definitivamente não era suficiente. Ele se perguntava: Por que não poderia existir um encontro mundial no qual todos os fãs poderiam se encontrar e, maravilhados, se verem ao vivo? Com muita vontade e determinação, Sam, que tinha acabado de fazer 20 anos, transformou aquele pensamento em realidade.

No dia 2 de julho de 1939, eu era uma dessas pessoas que realmente compareceram na Primeira Convenção Mundial de Ficção Científica num salão localizado na Rua 59 entre as Park e Madison Avenues. Mas eu não era um mero fã. Eu já havia publicado duas histórias na revista Amazing Stories; e a minha terceira história publicada, “Trends“, aparecera na edição de julho da revista Astounding Science Ficion, que por acaso estava nas prateleiras ao mesmo tempo em que acontecia a convenção. Eu compareci como um profissional. No entanto, ser um profissional não me proporcionou absolutamente nenhum sentimento maior de segurança, da mesma forma que alcançar o status de formado na faculdade três semanas antes também não. O fato é que eu ainda estava na minha adolescência e era incrivelmente aparvalhado.

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Meu diário, na página referente ao dia 2 de julho (um domingo), detalha todos os esforços que fiz para parecer uma pessoa civilizada. Eu estava “todo arrumado, usando um terno novo, gravata, camisa engomada, etc. — e era um dia quente”. Não apenas isso, mas eu havia chegado ao extremo:  “Eu me barbeei antes de sair, também”. Horn_&_Hardart_automat

No entanto, eu não fui direto para a convenção. Antes, fui me encontrar com alguns bons amigos em um Automat (ver imagem ao lado para saber o que é isso — nota do tradutor) do outro lado da rua. Acontece que, Sam Moskowitz, que estava organizando a convenção, estava (juntamente com os chegados dele) enrolado em uma confusão homérica com seis rebeldes  — três dois quais acabaram virando verdadeiros gigantes em nosso campo: Cyril Kornbluth (que faleceu em 1958), Donald A. Wollheim e Frederik Pohl.

Eu não sabia qual era a causa da confusão; mas eu já havia conhecido Pohl e os outros pouco tempo antes, e não conhecia Sam (que desde então se tornou um grande amigo), então naturalmente eu me juntei aos conhecidos contra os desconhecidos. Fred Pohl era o único daquele grupo que não estava presente, já que ele tinha uma consulta com o médico que o atrasara, então o grupo finalmente seguiu seu caminho sem ele. Subimos as escadas e lá em cima estava Sam e seus chegados bloqueando a nossa entrada. Eu estava certo que iria acontecer uma grande batalha, e que os mortos e feridos logo iriam entupir toda a Rua 59, então eu fui ficando um pouquinho para trás para poder assumir o papel estratégico na reserva.

No entanto, não houve batalha nenhuma. Os rebeldes simplesmente pararam e deram meia volta. Quanto a mim, Sam não me conhecia, não me reconheceu como inimigo e me ignorou. Um tanto quanto confuso, logo me encontrei dentro do salão.

Eu deveria ter colocado meus princípios acima de minha vontade. Eu deveria ter dito, “Se vocês impedirem a entrada dos meus amigos, vocês estarão impedindo a minha entrada,” e então deveria ter me retirado. Eu deveria — mas não fiz nada disso. Eu queria ir à convenção.

Uma vez lá dentro, assim como centenas de outros, eu estava com os olhos esbugalhados de tanta felicidade.

Conheci fãs, gigantes no campo da ficção-científica, cujas cartas haviam entupido as revistas da época — Forrest J. Ackerman, Jack Darrow, Milton A. Rothman. Eu conheci escritores que para mim eram verdadeiros Deuses, com os quais eu agora compartilhava uma bebida e conversava com alguma familiaridade superficial. Alguns eu já havia conhecido: John Campbell, Jack Williamson, L. Sprague de Camp. Alguns eu conheci naquele dia e mantive a amizade para sempre, como John D. Clark, por exemplo. Alguns encontrei pela primeira e única vez: Nelson Bond, Harl Vincent, Manly Wade Wellman.

No fim das contas, a realidade lá fora chamou e eu tive que deixar o Monte Olimpo temporariamente. Eu saí e fui almoçar com meus amigos rebeldes exilados. Eles não me culparam pela minha traição. Sabiam que eu não era parte dessa Grande Guerra de Fãs e que eu queria estar na Convenção. Meu diário revela que eu almocei “sanduíches de frango e café” e que “paguei 90 centavos” (Eu pagaria por volta de 900 centavos hoje em dia).

—> (continua após a figura)

 

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De tarde, assistimos ao filme “Metropolis”, um filme mudo que havia sido produzido na Alemanha 30 anos antes. Me pareceu que o filme fora produzido durante a Idade das Trevas, e eu vaiei do início ao fim. Eu não o havia revisto até a alguns meses atrás. Mas aí eu já tinha 50 anos, e o filme me pareceu ter amadurecido consideravelmente durante esse intervalo. (Bem, ele ou eu.)

Frank Paul, ilustrador e convidado de honra, falou para o público, e depois vários editores de revistas também se levantaram para dizer algumas palavras. Mort Weisinger da revista Thrilling Wonder Stories disse para o público de fãs que “não sabia que vocês eram assim tão sinceros,” e sua frase apareceu na edição do dia seguinte da revista Time.

Foi então que alguns notáveis que estavam na plateia foram apresentados, e eu aplaudi loucamente quando aqueles gigantes literários se levantavam um a um para ir ao palco aceitar as homenagens. Finalmente, John D. Clark, que estava sentado ao meu lado, gritou, “E quanto a Asimov?” e eu fui também chamado ao palco.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que eu fui considerado um notável, e eu caminhei em direção ao palco tremendo muito. Eu passei por John Campbell (caramba, ele tinha acabado de fazer 29 anos) e ele, com boas intenções, claro, tentou me ajudar com um empurrão que quase me fez estatelar no chão. Cheguei ao microfone, me apresentei como “o pior escritor de ficção-científica ainda não linchado” e me sentei, a cara vermelha como um camarão. Foi a minha primeira vez diante de uma plateia e a última vez que eu tive vergonha diante dela.

Passei um total de 9 horas na convenção, das 10 da manhã até as 7 da noite; e essas foram provavelmente as 9 horas mais delirantes da minha vida até aquele momento.

Houve 32 Convenções Mundiais de Ficção-Científica desde então (com exceção dos anos em que aconteceu a Segunda Guerra Mundial) e inúmeras convenções regionais. Milhares de pessoas comparecem hoje em dia a essas convenções. O delírio continua, ou mais provavelmente, é ainda maior — mesmo para mim, e olha que eu já saí da minha adolescência já há alguns anos.

E é porque não queremos que você perca nenhuma convenção simplesmente porque não tomou conhecimento, que você encontrará, em cada edição desta revista, as informações sobre locais e datas das convenções que vem por aí.

—Isaac Asimov

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Abaixo, em inglês, a seção de cartas dessa edição. Clique na imagem para ampliá-la, se necessário.

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Poeminha de Isaac Asimov

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CONVENÇÃO DE FICÇÃO CIENTÍFICA

Ah, criaturas de Alpha Centauri
Extra-terrestres que desejam glória
     Conquistando a Terra
     Mas, que vale a guerra?
Pois sempre vencemos no final da história.

(Tradução de João Wolf)
Asimov
 

Isaac Asimov’s Magazine V01N03

Terceira edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as páginas traduzidas da revista que contenham textos de Asimov (não nos daremos ao trabalho de disponibilizar contos que possam ser encontrados em outras fontes).

Tradução para o português: disponível abaixo.

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EDITORIAL

Todo entusiasta de ficção científica se depara com ocasiões onde deve defender sua arte quando é questionado ou atacado por pessoas de fora. Eu já passei por essas ocasiões mais vezes do que a maioria, já que eu estou nesse campo por um período de tempo longo demais para quem tem só um pouquinho mais de 30 anos, e porque eu sou um notável membro desse campo.

Eu tenho uma lista enorme de coisas positivas para falar sobre o nosso campo, basta escolher. Uma que raramente eu uso, porque é muito especializada e restritiva para o público em geral, é que ela dá uma oportunidade sem igual para o escritor de ficção científica.

Considere por um momento o fato de que a humanidade já possui por volta de 5.000 anos de literatura, e que ela inclui alguns escritores que eram muito bons mesmo em explorar a condição humana e a interação entre o homem/mulher/universo. De Homero a Bellow, passando por Vergil, Shakespeare e Tolstói, tivemos gênios trabalhando com isso.

Que difícil se tornou, então, para que escritores descubram algo de novo a dizer.

É aí que a ficção científica vem ao resgate, permitindo a nós que abandonemos o universo de Homero e de Shakespeare, e que tenhamos um vislumbre de algo novo — um Universo que não foi ainda experimentado por ninguém e que é capaz de existir na imaginação fértil daqueles que, através do seu talento e prática, conseguem construir do nada um mundo cheio de vida e luz.

Sim, Homero criou o Olimpo e suas divindades, e todos os escritores de ficção criam o que não existe — mas o escritor de ficção científica possui uma tarefa especial. Ele joga um jogo com regras, enquanto o escritor de fantasia, o mitologista e o mentiroso comum não o fazem. O escritor de ficção científica aceita as regras do Universo (as “leis da natureza”) e trabalha dentro desses limites. O resultado é que o escritor de ficção científica tem uma chance, que os outros não tem, de antecipar, de descobrir que o que ele criou a partir de sua imaginação pode se tornar realidade um dia.

—> (continua abaixo)

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No meu conto “Nós, Os Marcianos”, escrito em junho de 1952, fiz com que meus personagens, num determinado momento, flutuassem no espaço, com suas roupas espaciais conectadas à espaçonave através de um cabo. Eu levei quatro páginas descrevendo a euforia envolvida no processo, e fiz meus personagens debaterem se alguém estava deliberadamente esticando a sua vez de ficar lá fora ou não. Até onde eu saiba, ninguém havia até então pensado em ficar pendurado no espaço por prazer; só se havia feito isso por necessidade.

No entanto, quando o homem começou a caminhar no espaço em 1965, 13 anos após eu ter escrito a história, aconteceu que os astronautas tinham que receber ordens com uma certa firmeza para retornar à espaçonave, porque eles gostavam de ficar lá fora.

É um sentimento gostoso saber que você acertou, e que criou tudo da sua cabeça.

Além disso, há um certo prazer sádico em cutucar noções estabelecidas na cabeça das pessoas. Eu estava tão acostumado a ouvir que o espaço era um ambiente hostil e mortal, que deliberadamente resolvi mudar meu ponto de vista. É a gravidade e o ar e o oceano e a luz do Sol muito forte que são hostis e mortais. O espaço profundo, sem nada dessas coisas, é tranquilo. Claro que você precisa de uma roupa espacial para suprir as suas necessidades no espaço — mas até aí, você também precisa de comida, roupas e abrigo para suprir suas necessidades na Terra.

E se vamos falar sobre inversão de noções estabelecidas, considere o seguinte:

Qual tem sido uma das maiores constantes universais na ficção senão o poder do amor? Homero não ousou contar sua história sobre a Guerra de Tróia enquanto um episódio movido por ganância e rivalidade — isso não seria plausível. Em vez disso, ele a contou como uma história sobre o amor conflitante de Paris e Menelau por Helena. Aí sim havia convicção.

Acreditamos que o poder do amor pode fazer de tudo. O amor tudo conquista. Ou, como disse Virgílio, em Latim, e em ordem inversa de palavras, “Omnia vincit amor.”

O engraçado é que nós acreditamos nisso mesmo tendo evidências diárias que não é assim que funciona. O amor é muito fraco e as pessoas desistem dele por causa dos mais leves pretextos. A ganância tem precedência, a ambição tem precedência; o desejo de dormir, por comida, por assistir a um jogo de futebol, por não fazer nada, tem precedência.

Os divórcios são mais frequentes a cada ano e os casais que estão se divorciando (que estiveram um dia, presumivelmente, apaixonados) brigam por causa dos motivos mais banais. Pior ainda são os casais que não se divorciam, que continuam casados — e que o fazem sem um pingo de amor.

—> (continua abaixo)

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Pra ser honesto, há momentos em que o amor parece ser capaz de conquistar tudo. Se estiver absorvido em um momento de desejo (real ou ilusório) quase todo mundo poderá fazer algo idiota e se arrepender depois. E sempre há aqueles que, sim, amam por períodos longos de tempo e que continuarão desfrutando colocar o bem do seu parceiro acima do seu próprio (dentro dos limites da razão).

Eu imagino que seja justamente porque as pessoas não vivenciam esse amor que conquista tudo que elas insistem em tê-lo na ficção. Naqueles casos em que os personagens agem como se fossem pessoas reais e colocam outras coisas na frente do amor, elas são vaiadas e odiadas.

Quando Scrooge deixa sua namorada ir embora porque seu desejo por riqueza está ficando poderoso demais, nós o desprezamos sem ao menos deixar esse sentimento afetar o nosso próprio desejo por riqueza. Quando Scrooge se redime no final e embarca em um curso de ação que o levará a falência dentro de um mês, nós o aplaudimos mas sem nunca ficarmos tentados a segui-lo. E quando Cyrano age como um jumento por causa de uma garota sem nem ao menos uma característica que o redima a não ser um rosto vazio e bonito, nós o aplaudimos e até choramos por ele, apesar de nunca fazermos como ele, a não ser se fosse por uma boa soma em dinheiro.

Mas será que somos capazes de esquecer nossa tola visão ficcional do amor por tempo suficiente para admitir que existem coisas que vêm e deveriam vir antes dele?

Claro! O Amor por Deus deveria vir antes, tal como nossa heroína marcha bravamente em direção ao convento de freiras. Certo? A Honra deveria vir antes, tal como nosso herói marcha bravamente para a guerra. Certo?

E o que nos resta além desses exemplos gastos e fora de moda?

Para isso precisamos recorrer à ficção científica. Leia “Joelle”, de Poul Anderson, por exemplo.

—Isaac Asimov

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Segue abaixo a seção de cartas dessa mesma edição, em inglês.

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Isaac Asimov’s Magazine V01N02 (Verão de 1977)

Segunda edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as páginas da revista que contenham textos de Asimov (não nos daremos ao trabalho de disponibilizar contos que possam ser encontrados em outras fontes). Edições completas podem ser encontradas através de qualquer agregador de arquivos torrent.

Tradução para o português: disponível abaixo.

Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v01n02 (Summer 1977) 01

EDITORIAL

Eu me apresentei na primeira edição desta revista, e como todos vocês seguramente a leram e retornaram para esta segunda edição (vocês a leram, não leram?) não há necessidade de passar por aquilo de novo.

Em vez disso, vamos falar do sangue que dá vida a esta revista — as histórias. E, para obter as histórias, dependemos de vocês, os leitores.

Sim, você.

Existe uma classe de seres humanos chamada “escritores de ficção científica”. Eu lhes garanto, eu sei bem do que estou falando. Eu sou um deles — e tenho sido um deles por algumas dezenas de anos — e nós somos, todos nós, as pessoas mais legais do mundo.

Porém — e este ponto a seguir é muito importante — não há um de nós sequer que já tenha nascido um escritor de ficção científica. Cada um de nós foi, primeiro, um leitor de ficção científica. Eu fui. Eu fui um leitor de ficção científica por nove anos antes de vender minha primeira história de ficção científica e me tornar um escritor de ficção científica.

Vamos ver agora de uma outra perspectiva. É possível ser um leitor de ficção científica sem ao menos querer ser um escritor de ficção científica? É óbvio, quando eu digo “leitor de ficção científica”, não estou me referindo a alguém que apenas assiste a um ou dois episódios de Jornada nas Estrelas aqui e ali, ou que de vez em quando pega para ler um romance de FC. —Eu me refiro a alguém para quem a ficção científica é mais ou menos o arroz-com-feijão, que assina revistas, que vasculha as estantes de livros e revistas, alguém para quem os nomes dos vários escritores da área são como os nomes das pessoas da família.

Alguém como você!

Qualquer pessoa que seja esse tipo de leitor ou leitora só pode querer se tornar um escritor de ficção científica. Eu passei por isso e me lembro muito bem.

E você também pode. Você pode se tornar um escritor de ficção científica. Você quer, não quer?

O que o impede? Será que é porque é difícil?

Bem, sim e não. Escrever boa ficção científica realmente é difícil para o iniciante. Fazer qualquer coisa que requeira uma certa dose de habilidade é sempre difícil para qualquer iniciante.

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Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v01n02 (Summer 1977) 02

Mas simplesmente escrever ficção científica é fácil. Esqueça isso de ter que ser “boa” ficção científica. Simplesmente colocar o papel na máquina de escrever e sair batendo palavras até que você tenha uma péssima história de ficção científica na sua frente é como estalar os dedos.

Mas qual é o sentido de se escrever uma história péssima?

Bem, qual é o sentido de começar a aprender Ciências no ensino secundário? Qual é o sentido de ficar praticando as escalas no violão ou no piano? Qual é o sentido de treinar passe de bola?

Escrever é uma habilidade que tem que ser adquirida, e é com muita prática que se aprende.

Você pode ler livros sobre as técnicas de escrita e assistir a palestras sobre como escrever, comparecer a conferências de escritores, assinar revistas para escritores, mas nada disso irá fazer de você um escritor.

Somente inventaram uma única coisa capaz de transformar alguém em um escritor. Escrever!

É o próprio ato de escrever que ensina. São as péssimas histórias que tornam possível que você um dia escreva as boas histórias. Você acha que a história que eu escrevi quando tinha onze anos era boa? É claro que não. Eu tive que continuar escrevendo, uma história aqui, outra ali, por dez anos antes que tivesse a capacidade de escrever “O Cair da Noite”.

Mas não é um tempo longo demais para insistir? Diabos, leva mais tempo do que isso para se tornar um bom cirurgião, e ser um bom cirurgião não é nem de longe tão empolgante quanto ser um bom escritor.

Claro, uma vez que você comece a escrever suas histórias, a tendência é mostrar para sua esposa ou marido, ou seus pais ou seus filhos, ou seus professores ou seus vizinhos. Não faça isso. É perda de tempo. Todos irão dizer que a história é ótima e isso não irá lhe trazer absolutamente nenhum avanço.

Talvez você tenha um ímpeto de mandar o texto para o seu escritor favorito e pedir a ele que dê uma olhadinha e lhe dê aquelas poucas dicas necessárias para fazer com que a história fique ótima. Não faça isso. Escritores geralmente são pessoas muito ocupadas que não sabem o que fazer com as histórias de ninguém a não ser as deles.

O que sobra fazer? Fácil. Mande suas histórias para editores. Se você escreveu uma história de ficção científica, mande-a para os editores de revistas de ficção científica. Mande-a para George Scithers, o Nobre Editor desta revista. Ele vai até lhe mandar umas ideias de que tipo de histórias de ficção científica estamos procurando, se você escrever para ele na Caixa Postal 13116, Philadelphia PA 19101 e pedir — desde que mande também um envelope já com os selos e com o seu endereço para resposta.

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Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v01n02 (Summer 1977) 03

Você tem medo das rejeições? Não tenha. É a coisa mais comum para todos os escritores iniciantes e os editores enviam as mensagens de rejeição sem qualquer hostilidade ou ódio, eu garanto a você.

Alguns escritores, claro, conseguem vender uma história logo na primeira tentativa. Robert A. Heinlein fez isso. Se você é um novo Robert A. Heinlein, talvez você também o faça. No entanto, se você não passa de um novo Isaac Asimov, relaxe. Eu recebi 12 rejeições antes de conseguir vender minha primeira história, e mesmo hoje em dia eu recebo algumas de vez em quando.

Ninguém gosta de receber uma carta de rejeição. Eu com certeza nunca gostei e, quando recebo uma hoje em dia, ou odeio, mas aí eu simplesmente começo a escrever outra coisa, e você deveria fazer o mesmo.

Mais ainda, imagine que você receba cartas de rejeição suficientes para cobrir as paredes do seu apartamento. Isso só vai aumentar ainda mais o sabor da vitória quando você fizer a primeira venda de uma história. A intensidade desse triunfo será algo que esses coitados desses novos Heinleins nunca sentirão.

Então estou pedindo a todos vocês que tem vontade de escrever ficção científica para que o façam, e mandem o resultado para esta revista. —E por que eu estou fazendo isso? Será que nós não gostaríamos de ter histórias dos profissionais já mais gabaritados e experientes?

Claro, gostaríamos, a maior quantidade possível. — Mas escritores experientes morrem, se aposentam, resolvem fazer outra coisa, e até ficam cansados e obsoletos. Nós precisamos de novos escritores para injetar vigor renovado em nosso campo, e para manter os escritores experientes no topo de suas habilidades (Não há nada melhor para fazer com que você corra mais do que algum adolescente cheio de carunchos na cara saltitando atrás de você)

E será que nós realmente queremos receber aquelas péssimas histórias, a maioria delas difíceis até de ler? Sim, queremos, porque George Scithers nunca sabe quando ele irá colocar as mãos em um texto de alguém de quem ele nunca ouviu falar e descobrir que ele tem nas mãos um novo Arthur C. Clarke, por exemplo — ou descobrir alguém que poderá ser um novo Clarke se tiver um empurrãozinho.

Então, por favor, ao trabalho,

—Isaac Asimov

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Isaac Asimov’s Magazine V01N01 (Primavera de 1977)

Primeiríssima edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

A partir deste post, começamos a disponibilizar aos poucos, edição por edição, as páginas da revista que contenham textos de Asimov (não nos daremos ao trabalho de disponibilizar contos que possam ser encontrados em outras fontes). As edições completas podem ser encontradas através de qualquer agregador de arquivos torrent.

Tradução para o português: disponível abaixo.

Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v01n01 (Spring 1977) 01

EDITORIAL

Acho que deveria começar me apresentando, mesmo que isso pareça desnecessário. A única razão pela qual colocamos meu nome na revista é o pressuposto de que todos o reconhecerão de imediato, experimentarão um tipo elevado de êxtase e correrão imediatamente para comprá-la.

Bem, se por acaso isso não acontecer… Eu sou Isaac Asimov. Eu tenho um pouco mais de 30 anos e vendo histórias de ficção científica desde 1938. (Se a aritmética não está batendo, é porque você não entende nada de Alta Matemática.) Eu publiquei por volta de 40 livros de ficção, a maioria ficção científica, e por volta de 14o livros de não-ficção, em sua maioria sobre ciência. Também tenho um doutorado em Química na Universidade de Columbia e sou Professor Adjunto de Bioquímica na Escola de Medicina da Universidade de Boston. — Mas vamos parar por aí pois a minha modéstia (que é bem conhecida) me impede de continuar, além do que sou a pessoa menos importante desta revista.

Joel Davis, o nosso publisher, é muito mais importante. A empresa dele, Davis Publications, Inc., publica mais de trinta revistas, incluindo a muito bem sucedida Ellery Queen’s Mystery Magazine. Também publica a revista Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine. Com duas revistas sob sua batuta, ambições de conquista se elevaram diante de seus olhos e ele resolveu que tinha que ter também uma revista de ficção científica irmã às outras duas. No entanto, para manter a simetria, ele precisava ter um nome próprio no título e imediatamente ele pensou em mim. Veja bem, eu era conhecido dele porque havia vendido recentemente um número de histórias curtas de mistério para a revista Ellery Queen’s Mystery Magazine e porque de vez em quando ele me encontrava em agradáveis conversas com Eleanor Sullivan e Constance DiRienzo, as encantadoras jovens que trabalhavam no escritório da EQMM.

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Não posso dizer que me derreti de alegria. A verdade é que fiquei preocupado. Eu disse a Joel que nunca nenhuma revista de ficção científica, até onde eu sabia, havia recebido o nome de alguém, e que os escritores e leitores não iam gostar desse exemplo de presunçosa arrogância. Ele disse, “Deixe disso, Isaac, quem no mundo seria capaz de acusá-lo de arrogante?” — Bem, isso é verdade. Mas aí eu disse que todos os editores das várias outras revistas de ficção científica eram meus amigos e que eu não queria competir com eles. Ele disse, “Você não estará competindo com eles, Isaac. Uma nova revista forte nesse campo irá atrair mais leitores e encorajar mais escritores. Nosso próprio sucesso irá ajudar às outras revistas também”. (Eu perguntei aos outros e todos concordaram com Joel.)

Aí eu disse a Joel que eu tinha uma coluna de ciências sendo publicada em uma das outras revistas de ficção científica. Vinha saindo sem interrupção por 18 anos e sob nenhuma circunstância eu consideraria parar de escrevê-la. Ele disse, “Você não precisa parar. Continue exatamente do mesmo jeito.” (E eu tenho feito isso, com as bênçãos do editor da outra revista.) Mas aí eu vim com a cartada final. Eu disse a ele que o fato é que eu simplesmente não poderia editar uma revista. Eu não possuía a habilidade ou a experiência ou a vontade ou o tempo para tal. Ele disse, “Encontre alguém em quem você confia, com a habilidade, a experiência, a vontade e o tempo para tal, e essa pessoa pode ser o editor. Você pode ser o diretor editorial e a pessoa que você escolher irá trabalhar sob suas orientações, já que eu quero que essa seja a sua revista, um reflexo dos seus gostos e com o tipo de ficção científica que você faz. Você deveria ficar de olho no que seu editor compra, escrever você mesmo os editoriais e trabalhar junto com ele para criar as políticas da revista e resolver quaisquer problemas conforme eles surjam.”

Então esse foi o acordo; agora deixe-me apresentar o Editor. O nome dele é George H. Scithers, um engenheiro elétrico especializado em propagação de rádio e trânsito em trilhos de velocidade, que também é um Coronel Tenente (reformado) do Exército dos Estados Unidos e que escreve um pouco também. Ele faz parte do mundo da ficção científica há mais de 30 anos. Ele foi o presidente da DisCon 1, a Convenção Mundial de Ficção Científica que aconteceu em Washington em 1963 (onde recebi meu primeiro Hugo, então dá pra ter uma ideia de como aquela convenção foi bem realizada), e foi membro parlamentar em várias outras convenções. Ele possui uma pequena editora, Owlswick Press, que publica livros de interesse para a ficção científica, entre eles a nova edição revisada do Science Fiction Handbook de L. Sprague de Camp. Além disso, eu o conheço pessoalmente, sei que seu gosto no campo da ficção científica é parecido com o meu e que ele é diligente e confiável.

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Para atuar como Editor Associado, George contratou os serviços de Gardner Dozois, ele mesmo um escritor de ficção científica contemporâneo digno de nota.

Mas, e quanto a revista em si? A vida de uma revista é cheia de riscos nesses dias de televisão e livros de bolso, então nossa periodicidade inicial será trimestral. O apoio que receberemos dos leitores, isso agora está nas mãos dos deuses, mas se as coisas acontecerem como seriamente acreditamos que acontecerão, iremos ajustando até chegarmos à periodicidade mensal assim que pudermos.

Estamos nos concentrando em textos mais curtos, portanto não haverá histórias em capítulos. Romances possuem várias vias de acesso aos leitores hoje em dia, já os contos possuem relativamente menos. Já que meu nome está na capa, não deveria surpreendê-lo o fato de que estaremos mais inclinados à ficção científica hard, e a formatos razoavelmente mais objetivos no que se refere a estilo. É claro, não iremos nos levar assim tão a sério e nem toda história tem que ser uma cerimônia solene. Teremos histórias de humor e teremos aquelas histórias que são inclassificáveis como, por exemplo, a história de Jonathan Fast nesta edição. Teremos uma coluna de resenha de livros na qual daremos preferência a pequenas notas sobre vários livros em vez de profundas análises de uns poucos. Teremos textos de não-ficção, e faremos o possível para relacioná-los ao máximo à ficção científica. Teremos um que fala sobre a abertura de um museu, por exemplo, só que se trata de um museu espacial; e estamos trabalhando em um que compara os computadores da vida real com aqueles que encontramos nas histórias de ficção científica.

Mas você irá ver por si mesmo o que estamos tentando fazer se ler esta edição. Além disso, sem dúvida, iremos nos desenvolver de maneiras que não são facilmente previsíveis desde o começo.

Duas últimas coisas — Por amor aos céus*, não mande nenhum manuscrito para mim, mande-os para George Scithers. E, por amor aos céus, seja cuidadoso ao dar crédito a quem merece. Se esta revista lhe agradar, dê o devido crédito a George Scithers e escreva a ele para dizê-lo. É ele que está fazendo todo o trabalho. — Se, por outro lado, você achar que essa revista não passa de lixo fedorento, por favor mande sua carta para Joel Davis. Isso tudo foi ideia dele.

E lembre-se. As cartas que considerarmos dotadas de um interesse geral serão publicadas na seção de cartas com comentários meus; e juro que tentaremos escrever seu nome corretamente.

— Isaac Asimov

* NOTA do TRADUTOR: A expressão “pelo amor de Deus”, muito usada para traduzir “for Heaven’s sake”, não me pareceu soar bem quando dita por Asimov, por isso utilizei uma versão mais literal, que remete mais ao espaço e aos mistérios do universo e possui menor viés religioso.

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