Isaac Asimov’s Magazine V01N03

Terceira edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as páginas traduzidas da revista que contenham textos de Asimov (não nos daremos ao trabalho de disponibilizar contos que possam ser encontrados em outras fontes).

Tradução para o português: disponível abaixo.

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EDITORIAL

Todo entusiasta de ficção científica se depara com ocasiões onde deve defender sua arte quando é questionado ou atacado por pessoas de fora. Eu já passei por essas ocasiões mais vezes do que a maioria, já que eu estou nesse campo por um período de tempo longo demais para quem tem só um pouquinho mais de 30 anos, e porque eu sou um notável membro desse campo.

Eu tenho uma lista enorme de coisas positivas para falar sobre o nosso campo, basta escolher. Uma que raramente eu uso, porque é muito especializada e restritiva para o público em geral, é que ela dá uma oportunidade sem igual para o escritor de ficção científica.

Considere por um momento o fato de que a humanidade já possui por volta de 5.000 anos de literatura, e que ela inclui alguns escritores que eram muito bons mesmo em explorar a condição humana e a interação entre o homem/mulher/universo. De Homero a Bellow, passando por Vergil, Shakespeare e Tolstói, tivemos gênios trabalhando com isso.

Que difícil se tornou, então, para que escritores descubram algo de novo a dizer.

É aí que a ficção científica vem ao resgate, permitindo a nós que abandonemos o universo de Homero e de Shakespeare, e que tenhamos um vislumbre de algo novo — um Universo que não foi ainda experimentado por ninguém e que é capaz de existir na imaginação fértil daqueles que, através do seu talento e prática, conseguem construir do nada um mundo cheio de vida e luz.

Sim, Homero criou o Olimpo e suas divindades, e todos os escritores de ficção criam o que não existe — mas o escritor de ficção científica possui uma tarefa especial. Ele joga um jogo com regras, enquanto o escritor de fantasia, o mitologista e o mentiroso comum não o fazem. O escritor de ficção científica aceita as regras do Universo (as “leis da natureza”) e trabalha dentro desses limites. O resultado é que o escritor de ficção científica tem uma chance, que os outros não tem, de antecipar, de descobrir que o que ele criou a partir de sua imaginação pode se tornar realidade um dia.

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No meu conto “Nós, Os Marcianos”, escrito em junho de 1952, fiz com que meus personagens, num determinado momento, flutuassem no espaço, com suas roupas espaciais conectadas à espaçonave através de um cabo. Eu levei quatro páginas descrevendo a euforia envolvida no processo, e fiz meus personagens debaterem se alguém estava deliberadamente esticando a sua vez de ficar lá fora ou não. Até onde eu saiba, ninguém havia até então pensado em ficar pendurado no espaço por prazer; só se havia feito isso por necessidade.

No entanto, quando o homem começou a caminhar no espaço em 1965, 13 anos após eu ter escrito a história, aconteceu que os astronautas tinham que receber ordens com uma certa firmeza para retornar à espaçonave, porque eles gostavam de ficar lá fora.

É um sentimento gostoso saber que você acertou, e que criou tudo da sua cabeça.

Além disso, há um certo prazer sádico em cutucar noções estabelecidas na cabeça das pessoas. Eu estava tão acostumado a ouvir que o espaço era um ambiente hostil e mortal, que deliberadamente resolvi mudar meu ponto de vista. É a gravidade e o ar e o oceano e a luz do Sol muito forte que são hostis e mortais. O espaço profundo, sem nada dessas coisas, é tranquilo. Claro que você precisa de uma roupa espacial para suprir as suas necessidades no espaço — mas até aí, você também precisa de comida, roupas e abrigo para suprir suas necessidades na Terra.

E se vamos falar sobre inversão de noções estabelecidas, considere o seguinte:

Qual tem sido uma das maiores constantes universais na ficção senão o poder do amor? Homero não ousou contar sua história sobre a Guerra de Tróia enquanto um episódio movido por ganância e rivalidade — isso não seria plausível. Em vez disso, ele a contou como uma história sobre o amor conflitante de Paris e Menelau por Helena. Aí sim havia convicção.

Acreditamos que o poder do amor pode fazer de tudo. O amor tudo conquista. Ou, como disse Virgílio, em Latim, e em ordem inversa de palavras, “Omnia vincit amor.”

O engraçado é que nós acreditamos nisso mesmo tendo evidências diárias que não é assim que funciona. O amor é muito fraco e as pessoas desistem dele por causa dos mais leves pretextos. A ganância tem precedência, a ambição tem precedência; o desejo de dormir, por comida, por assistir a um jogo de futebol, por não fazer nada, tem precedência.

Os divórcios são mais frequentes a cada ano e os casais que estão se divorciando (que estiveram um dia, presumivelmente, apaixonados) brigam por causa dos motivos mais banais. Pior ainda são os casais que não se divorciam, que continuam casados — e que o fazem sem um pingo de amor.

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Pra ser honesto, há momentos em que o amor parece ser capaz de conquistar tudo. Se estiver absorvido em um momento de desejo (real ou ilusório) quase todo mundo poderá fazer algo idiota e se arrepender depois. E sempre há aqueles que, sim, amam por períodos longos de tempo e que continuarão desfrutando colocar o bem do seu parceiro acima do seu próprio (dentro dos limites da razão).

Eu imagino que seja justamente porque as pessoas não vivenciam esse amor que conquista tudo que elas insistem em tê-lo na ficção. Naqueles casos em que os personagens agem como se fossem pessoas reais e colocam outras coisas na frente do amor, elas são vaiadas e odiadas.

Quando Scrooge deixa sua namorada ir embora porque seu desejo por riqueza está ficando poderoso demais, nós o desprezamos sem ao menos deixar esse sentimento afetar o nosso próprio desejo por riqueza. Quando Scrooge se redime no final e embarca em um curso de ação que o levará a falência dentro de um mês, nós o aplaudimos mas sem nunca ficarmos tentados a segui-lo. E quando Cyrano age como um jumento por causa de uma garota sem nem ao menos uma característica que o redima a não ser um rosto vazio e bonito, nós o aplaudimos e até choramos por ele, apesar de nunca fazermos como ele, a não ser se fosse por uma boa soma em dinheiro.

Mas será que somos capazes de esquecer nossa tola visão ficcional do amor por tempo suficiente para admitir que existem coisas que vêm e deveriam vir antes dele?

Claro! O Amor por Deus deveria vir antes, tal como nossa heroína marcha bravamente em direção ao convento de freiras. Certo? A Honra deveria vir antes, tal como nosso herói marcha bravamente para a guerra. Certo?

E o que nos resta além desses exemplos gastos e fora de moda?

Para isso precisamos recorrer à ficção científica. Leia “Joelle”, de Poul Anderson, por exemplo.

—Isaac Asimov

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Segue abaixo a seção de cartas dessa mesma edição, em inglês.

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Isaac Asimov’s Magazine V01N01 (Primavera de 1977)

Primeiríssima edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

A partir deste post, começamos a disponibilizar aos poucos, edição por edição, as páginas da revista que contenham textos de Asimov (não nos daremos ao trabalho de disponibilizar contos que possam ser encontrados em outras fontes). As edições completas podem ser encontradas através de qualquer agregador de arquivos torrent.

Tradução para o português: disponível abaixo.

Isaac Asimov's Science Fiction Magazine v01n01 (Spring 1977) 01

EDITORIAL

Acho que deveria começar me apresentando, mesmo que isso pareça desnecessário. A única razão pela qual colocamos meu nome na revista é o pressuposto de que todos o reconhecerão de imediato, experimentarão um tipo elevado de êxtase e correrão imediatamente para comprá-la.

Bem, se por acaso isso não acontecer… Eu sou Isaac Asimov. Eu tenho um pouco mais de 30 anos e vendo histórias de ficção científica desde 1938. (Se a aritmética não está batendo, é porque você não entende nada de Alta Matemática.) Eu publiquei por volta de 40 livros de ficção, a maioria ficção científica, e por volta de 14o livros de não-ficção, em sua maioria sobre ciência. Também tenho um doutorado em Química na Universidade de Columbia e sou Professor Adjunto de Bioquímica na Escola de Medicina da Universidade de Boston. — Mas vamos parar por aí pois a minha modéstia (que é bem conhecida) me impede de continuar, além do que sou a pessoa menos importante desta revista.

Joel Davis, o nosso publisher, é muito mais importante. A empresa dele, Davis Publications, Inc., publica mais de trinta revistas, incluindo a muito bem sucedida Ellery Queen’s Mystery Magazine. Também publica a revista Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine. Com duas revistas sob sua batuta, ambições de conquista se elevaram diante de seus olhos e ele resolveu que tinha que ter também uma revista de ficção científica irmã às outras duas. No entanto, para manter a simetria, ele precisava ter um nome próprio no título e imediatamente ele pensou em mim. Veja bem, eu era conhecido dele porque havia vendido recentemente um número de histórias curtas de mistério para a revista Ellery Queen’s Mystery Magazine e porque de vez em quando ele me encontrava em agradáveis conversas com Eleanor Sullivan e Constance DiRienzo, as encantadoras jovens que trabalhavam no escritório da EQMM.

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Não posso dizer que me derreti de alegria. A verdade é que fiquei preocupado. Eu disse a Joel que nunca nenhuma revista de ficção científica, até onde eu sabia, havia recebido o nome de alguém, e que os escritores e leitores não iam gostar desse exemplo de presunçosa arrogância. Ele disse, “Deixe disso, Isaac, quem no mundo seria capaz de acusá-lo de arrogante?” — Bem, isso é verdade. Mas aí eu disse que todos os editores das várias outras revistas de ficção científica eram meus amigos e que eu não queria competir com eles. Ele disse, “Você não estará competindo com eles, Isaac. Uma nova revista forte nesse campo irá atrair mais leitores e encorajar mais escritores. Nosso próprio sucesso irá ajudar às outras revistas também”. (Eu perguntei aos outros e todos concordaram com Joel.)

Aí eu disse a Joel que eu tinha uma coluna de ciências sendo publicada em uma das outras revistas de ficção científica. Vinha saindo sem interrupção por 18 anos e sob nenhuma circunstância eu consideraria parar de escrevê-la. Ele disse, “Você não precisa parar. Continue exatamente do mesmo jeito.” (E eu tenho feito isso, com as bênçãos do editor da outra revista.) Mas aí eu vim com a cartada final. Eu disse a ele que o fato é que eu simplesmente não poderia editar uma revista. Eu não possuía a habilidade ou a experiência ou a vontade ou o tempo para tal. Ele disse, “Encontre alguém em quem você confia, com a habilidade, a experiência, a vontade e o tempo para tal, e essa pessoa pode ser o editor. Você pode ser o diretor editorial e a pessoa que você escolher irá trabalhar sob suas orientações, já que eu quero que essa seja a sua revista, um reflexo dos seus gostos e com o tipo de ficção científica que você faz. Você deveria ficar de olho no que seu editor compra, escrever você mesmo os editoriais e trabalhar junto com ele para criar as políticas da revista e resolver quaisquer problemas conforme eles surjam.”

Então esse foi o acordo; agora deixe-me apresentar o Editor. O nome dele é George H. Scithers, um engenheiro elétrico especializado em propagação de rádio e trânsito em trilhos de velocidade, que também é um Coronel Tenente (reformado) do Exército dos Estados Unidos e que escreve um pouco também. Ele faz parte do mundo da ficção científica há mais de 30 anos. Ele foi o presidente da DisCon 1, a Convenção Mundial de Ficção Científica que aconteceu em Washington em 1963 (onde recebi meu primeiro Hugo, então dá pra ter uma ideia de como aquela convenção foi bem realizada), e foi membro parlamentar em várias outras convenções. Ele possui uma pequena editora, Owlswick Press, que publica livros de interesse para a ficção científica, entre eles a nova edição revisada do Science Fiction Handbook de L. Sprague de Camp. Além disso, eu o conheço pessoalmente, sei que seu gosto no campo da ficção científica é parecido com o meu e que ele é diligente e confiável.

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Para atuar como Editor Associado, George contratou os serviços de Gardner Dozois, ele mesmo um escritor de ficção científica contemporâneo digno de nota.

Mas, e quanto a revista em si? A vida de uma revista é cheia de riscos nesses dias de televisão e livros de bolso, então nossa periodicidade inicial será trimestral. O apoio que receberemos dos leitores, isso agora está nas mãos dos deuses, mas se as coisas acontecerem como seriamente acreditamos que acontecerão, iremos ajustando até chegarmos à periodicidade mensal assim que pudermos.

Estamos nos concentrando em textos mais curtos, portanto não haverá histórias em capítulos. Romances possuem várias vias de acesso aos leitores hoje em dia, já os contos possuem relativamente menos. Já que meu nome está na capa, não deveria surpreendê-lo o fato de que estaremos mais inclinados à ficção científica hard, e a formatos razoavelmente mais objetivos no que se refere a estilo. É claro, não iremos nos levar assim tão a sério e nem toda história tem que ser uma cerimônia solene. Teremos histórias de humor e teremos aquelas histórias que são inclassificáveis como, por exemplo, a história de Jonathan Fast nesta edição. Teremos uma coluna de resenha de livros na qual daremos preferência a pequenas notas sobre vários livros em vez de profundas análises de uns poucos. Teremos textos de não-ficção, e faremos o possível para relacioná-los ao máximo à ficção científica. Teremos um que fala sobre a abertura de um museu, por exemplo, só que se trata de um museu espacial; e estamos trabalhando em um que compara os computadores da vida real com aqueles que encontramos nas histórias de ficção científica.

Mas você irá ver por si mesmo o que estamos tentando fazer se ler esta edição. Além disso, sem dúvida, iremos nos desenvolver de maneiras que não são facilmente previsíveis desde o começo.

Duas últimas coisas — Por amor aos céus*, não mande nenhum manuscrito para mim, mande-os para George Scithers. E, por amor aos céus, seja cuidadoso ao dar crédito a quem merece. Se esta revista lhe agradar, dê o devido crédito a George Scithers e escreva a ele para dizê-lo. É ele que está fazendo todo o trabalho. — Se, por outro lado, você achar que essa revista não passa de lixo fedorento, por favor mande sua carta para Joel Davis. Isso tudo foi ideia dele.

E lembre-se. As cartas que considerarmos dotadas de um interesse geral serão publicadas na seção de cartas com comentários meus; e juro que tentaremos escrever seu nome corretamente.

— Isaac Asimov

* NOTA do TRADUTOR: A expressão “pelo amor de Deus”, muito usada para traduzir “for Heaven’s sake”, não me pareceu soar bem quando dita por Asimov, por isso utilizei uma versão mais literal, que remete mais ao espaço e aos mistérios do universo e possui menor viés religioso.

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