Isaac Asimov’s Magazine V01N04 (Inverno de 1977)

Quarta edição da revista Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine.

Seguimos disponibilizando aos poucos, edição por edição, as traduções dos Editoriais de Asimov e quaisquer outros textos de interesse.

Tradução para o português disponível abaixo.

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EDITORIAL

Durante um período de seis semanas no início do ano de 1975, a cidade de Nova York foi o endereço não de uma, mas de três convenções de Star Trek. A cada uma delas compareceram milhares de fãs — sendo que um grande número deles compareceu a todas as três, em sua totalidade ou em parte.

Eu mesmo fui a todas as três, e não pude evitar de lembrar da primeira convenção de ficção científica que conseguiu ser mais do que um encontro de membros de fã-clubes locais.

Ela aconteceu em 1939 e nasceu do cérebro de um fã de renome, Sam Moskowitz. Fãs de todo o país já se correspondiam, mas Sam achou que aquilo definitivamente não era suficiente. Ele se perguntava: Por que não poderia existir um encontro mundial no qual todos os fãs poderiam se encontrar e, maravilhados, se verem ao vivo? Com muita vontade e determinação, Sam, que tinha acabado de fazer 20 anos, transformou aquele pensamento em realidade.

No dia 2 de julho de 1939, eu era uma dessas pessoas que realmente compareceram na Primeira Convenção Mundial de Ficção Científica num salão localizado na Rua 59 entre as Park e Madison Avenues. Mas eu não era um mero fã. Eu já havia publicado duas histórias na revista Amazing Stories; e a minha terceira história publicada, “Trends“, aparecera na edição de julho da revista Astounding Science Ficion, que por acaso estava nas prateleiras ao mesmo tempo em que acontecia a convenção. Eu compareci como um profissional. No entanto, ser um profissional não me proporcionou absolutamente nenhum sentimento maior de segurança, da mesma forma que alcançar o status de formado na faculdade três semanas antes também não. O fato é que eu ainda estava na minha adolescência e era incrivelmente aparvalhado.

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Meu diário, na página referente ao dia 2 de julho (um domingo), detalha todos os esforços que fiz para parecer uma pessoa civilizada. Eu estava “todo arrumado, usando um terno novo, gravata, camisa engomada, etc. — e era um dia quente”. Não apenas isso, mas eu havia chegado ao extremo:  “Eu me barbeei antes de sair, também”. Horn_&_Hardart_automat

No entanto, eu não fui direto para a convenção. Antes, fui me encontrar com alguns bons amigos em um Automat (ver imagem ao lado para saber o que é isso — nota do tradutor) do outro lado da rua. Acontece que, Sam Moskowitz, que estava organizando a convenção, estava (juntamente com os chegados dele) enrolado em uma confusão homérica com seis rebeldes  — três dois quais acabaram virando verdadeiros gigantes em nosso campo: Cyril Kornbluth (que faleceu em 1958), Donald A. Wollheim e Frederik Pohl.

Eu não sabia qual era a causa da confusão; mas eu já havia conhecido Pohl e os outros pouco tempo antes, e não conhecia Sam (que desde então se tornou um grande amigo), então naturalmente eu me juntei aos conhecidos contra os desconhecidos. Fred Pohl era o único daquele grupo que não estava presente, já que ele tinha uma consulta com o médico que o atrasara, então o grupo finalmente seguiu seu caminho sem ele. Subimos as escadas e lá em cima estava Sam e seus chegados bloqueando a nossa entrada. Eu estava certo que iria acontecer uma grande batalha, e que os mortos e feridos logo iriam entupir toda a Rua 59, então eu fui ficando um pouquinho para trás para poder assumir o papel estratégico na reserva.

No entanto, não houve batalha nenhuma. Os rebeldes simplesmente pararam e deram meia volta. Quanto a mim, Sam não me conhecia, não me reconheceu como inimigo e me ignorou. Um tanto quanto confuso, logo me encontrei dentro do salão.

Eu deveria ter colocado meus princípios acima de minha vontade. Eu deveria ter dito, “Se vocês impedirem a entrada dos meus amigos, vocês estarão impedindo a minha entrada,” e então deveria ter me retirado. Eu deveria — mas não fiz nada disso. Eu queria ir à convenção.

Uma vez lá dentro, assim como centenas de outros, eu estava com os olhos esbugalhados de tanta felicidade.

Conheci fãs, gigantes no campo da ficção-científica, cujas cartas haviam entupido as revistas da época — Forrest J. Ackerman, Jack Darrow, Milton A. Rothman. Eu conheci escritores que para mim eram verdadeiros Deuses, com os quais eu agora compartilhava uma bebida e conversava com alguma familiaridade superficial. Alguns eu já havia conhecido: John Campbell, Jack Williamson, L. Sprague de Camp. Alguns eu conheci naquele dia e mantive a amizade para sempre, como John D. Clark, por exemplo. Alguns encontrei pela primeira e única vez: Nelson Bond, Harl Vincent, Manly Wade Wellman.

No fim das contas, a realidade lá fora chamou e eu tive que deixar o Monte Olimpo temporariamente. Eu saí e fui almoçar com meus amigos rebeldes exilados. Eles não me culparam pela minha traição. Sabiam que eu não era parte dessa Grande Guerra de Fãs e que eu queria estar na Convenção. Meu diário revela que eu almocei “sanduíches de frango e café” e que “paguei 90 centavos” (Eu pagaria por volta de 900 centavos hoje em dia).

—> (continua após a figura)

 

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De tarde, assistimos ao filme “Metropolis”, um filme mudo que havia sido produzido na Alemanha 30 anos antes. Me pareceu que o filme fora produzido durante a Idade das Trevas, e eu vaiei do início ao fim. Eu não o havia revisto até a alguns meses atrás. Mas aí eu já tinha 50 anos, e o filme me pareceu ter amadurecido consideravelmente durante esse intervalo. (Bem, ele ou eu.)

Frank Paul, ilustrador e convidado de honra, falou para o público, e depois vários editores de revistas também se levantaram para dizer algumas palavras. Mort Weisinger da revista Thrilling Wonder Stories disse para o público de fãs que “não sabia que vocês eram assim tão sinceros,” e sua frase apareceu na edição do dia seguinte da revista Time.

Foi então que alguns notáveis que estavam na plateia foram apresentados, e eu aplaudi loucamente quando aqueles gigantes literários se levantavam um a um para ir ao palco aceitar as homenagens. Finalmente, John D. Clark, que estava sentado ao meu lado, gritou, “E quanto a Asimov?” e eu fui também chamado ao palco.

Foi a primeira vez em toda a minha vida que eu fui considerado um notável, e eu caminhei em direção ao palco tremendo muito. Eu passei por John Campbell (caramba, ele tinha acabado de fazer 29 anos) e ele, com boas intenções, claro, tentou me ajudar com um empurrão que quase me fez estatelar no chão. Cheguei ao microfone, me apresentei como “o pior escritor de ficção-científica ainda não linchado” e me sentei, a cara vermelha como um camarão. Foi a minha primeira vez diante de uma plateia e a última vez que eu tive vergonha diante dela.

Passei um total de 9 horas na convenção, das 10 da manhã até as 7 da noite; e essas foram provavelmente as 9 horas mais delirantes da minha vida até aquele momento.

Houve 32 Convenções Mundiais de Ficção-Científica desde então (com exceção dos anos em que aconteceu a Segunda Guerra Mundial) e inúmeras convenções regionais. Milhares de pessoas comparecem hoje em dia a essas convenções. O delírio continua, ou mais provavelmente, é ainda maior — mesmo para mim, e olha que eu já saí da minha adolescência já há alguns anos.

E é porque não queremos que você perca nenhuma convenção simplesmente porque não tomou conhecimento, que você encontrará, em cada edição desta revista, as informações sobre locais e datas das convenções que vem por aí.

—Isaac Asimov

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Abaixo, em inglês, a seção de cartas dessa edição. Clique na imagem para ampliá-la, se necessário.

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