O Anel em Torno do Sol

FICHA TÉCNICA:

  • Título Original: Ring Around the Sun
  • Quinto conto escrito por Asimov, em 1938.
  • Apareceu na edição de março de 1940 da revista Future Fiction.
  • Foi publicado no livro O Futuro Começou (1978 – Hemus),
  • A tradução abaixo foi retirada da edição acima citada, que no momento está fora de catálogo e sem previsão de reedição. Os tradutores daquela edição foram: Norberto de Paula Lima, Danusa Scarton Rabello Alves e Valéria Fernandes.

 

NCaptura de Tela 2015-10-16 às 16.35.37OSSA OPINIÃO: ISAAC AMARELO

Asimov fez algumas tentativas no início de sua carreira usando a seguinte fórmula: 1) apresentação rápida de um cenário, 2) os personagens passam por peripécias, 3) final humorístico surpreendente. Eu gosto mais quando ele salpica seu senso de humor de forma mais discreta na ficção, ou então quando deixa rolar toda a sua irônica auto-adulação nos textos de não-ficção. Tendo dito isso, achei o conto divertidinho — mais pela caracterização dos personagens do que pela história em si.

 

future_fiction_194003 Ring Sun
Capa da revista onde o conto apareceu pela primeira vez.

Jimmy Turner estava cantarolando alegremente, se bem que um tanto rouco, quando entrou na sala de recepção.

– O velho ranzinza está? – perguntou, acompanhando a pergunta com uma piscada, com a qual a bela secretária enrubesceu, agradecida.

– Está, e esperando por você. – Levou à porta em que estava escrito em letras grandes e pretas, “Frank McCutcheon, Gerente Geral, United Space Mail”.

Jim entrou. – Alô, chefe, o que há?

– Oh, é você? – McCutcheon olhou para cima, de sua escrivaninha, mascando um charuto fedorento. – Sente-se.

McCutcheon olhou para ele sob suas espessas sobrancelhas cinzentas. O “Velho Ranzinza”, como era conhecido por todos os membros da United Space Mail, era conhecido por nunca ter dado risada, tanto quanto estivesse na memória de seu conhecido mais antigo, muito embora corresse o rumor de que ele sorrira quando criança, ao ver seu pai caindo de uma macieira. Neste momento, sua expressão fazia este rumor parecer exagerado.

– Agora, escute, Turner – grunhiu – a United Space Mail está inaugurando um novo serviço, e você foi escolhido. – Não se importando com a reação de Jimmy, continuou: – De agora em diante o correio de Vênus está com o funcionamento estendido para o ano inteiro.

– O quê! Sempre pensei que era ruinoso, financeiramente, entregar o correio de Vênus, exceto quando o planeta está do mesmo lado do Sol que nós.

– Claro – admitiu McCutcheon – se seguimos as rotas ordinárias. Mas podemos cortar caminho através do sistema se apenas pudéssemos nos aproximar o bastante do Sol. É aí que você entra! Fizeram uma nova nave equipada para se aproximar a vinte milhões de milhas do Sol e que poderá ficar a essa distância indefinidamente.

Jimmy interrompeu, nervosamente. – Espere um pouco, Ran… sr. McCutcheon, não estou entendendo. Que tipo de nave é essa?

– Como quer que eu saiba? Não sou egresso de nenhum laboratório. Pelo que me dizem, emite alguma espécie de campo que desvia as radiações do Sol em tomo dela. Entendeu? Ela é toda defletida. Nenhum calor a atinge. Pode ficar lá para sempre e mais frio do que aqui em Nova Iorque.

– Oh, é assim? – Jimmy estava cético – Já foi testada, ou isso é um pormenor que foi deixado para mim?

– Foi testada, claro, mas não sob condições solares reais.

– Então, nada feito. Já fiz muito pela United mas isto não. Não estou louco, ainda.

McCutcheon empertigou-se – Devo lembrar lhe o juramento que fez ao entrar para o serviço, Turner? “Nosso voo pelo espaço…?”

– “…nunca deve ser interrompido por nada, exceto a morte” – terminou Jimmy – Sei disso tão bem quanto você, e também percebo que é muito fácil dizer isso sentado numa cadeira confortável. Se é tão idealista, pode fazê-lo sozinho Por mim, nada feito. E se quiser, pode me despedir. Posso arranjar outros empregos assim – e estalou os dedos.

A voz de McCutcheon caiu para um sussurro sedoso. – Ora, vamos, Turner, não seja apressadinho. Ainda não escutou tudo o que eu tinha a dizer. Roy Snead será seu companheiro.

– Há! Snead! Aquele mascarado não teria coragem de aceitar um trabalho desses nem num milhão de anos. Conte-me alguma outra história.

– Bem, de fato, ele aceitou. Pensei que você poderia acompanhá-lo. Pensei que você poderia acompanhá-lo, mas creio que ele estava certo. Ele insistiu em que você desistiria. Pensei de início que seria diferente.

McCutcheon despediu-o com um gesto da mão, e continuou despreocupadamente a ler o relatório com que estava ocupado quando Jimmy entrou. Jimmy virou-se, hesitou, e então voltou.

– Espere um pouco, sr. McCutcheon; quer dizer que Roy vai mesmo? – McCutcheon assentiu, ainda aparentemente absorvido em outros assuntos, e Jimmy explodiu. – Ora, aquele traiçoeiro baixinho! Então ele pensa que não tenho peito para ir! Vou mostrar-lhe. Vou pegar o trabalho e apostar dez dólares contra um níquel de Vênus como ele vai se acovardar no último minuto.

– Ótimo! – McCutcheon ergueu-se e apertou-lhe a mão. – Imaginei que você reconsideraria. O major Wade tem todos os pormenores. Você parte em seis semanas, e eu vou para Vênus amanhã; você provavelmente me encontrará lá.

Jimmy saiu, ainda fervendo, e McCutcheon chamou a secretária. – Srta. Wilson, chame Roy Snead pelo ‘visor.

Uma pausa de alguns minutos e então o sinal vermelho acendeu-se. O ‘visor foi ligado e o rosto moreno e vivaz de Snead apareceu na visichapa.

– Alô, Snead – resmungou McCutcheon. – Perdeu aquela aposta, Turner aceitou o serviço. Pensei que ele morreria de rir quando lhe contasse que você disse que ele não iria. Mande-me os vinte dólares, por favor.

– Espere um pouco, sr. McCutcheon – o rosto de Snead estava negro de fúria – qual foi essa ideia de dizer àquele bêbado imbecil que eu não iria? Você teve a ideia, seu mentiroso. Estarei aí sim, mas pode preparar mais vinte e aposto que ele ainda vai mudar de ideia. Mas eu estarei ai. – Roy Snead ainda estava vociferando, quando McCutcheon desligou.

O Gerente Geral recostou-se, jogou fora seu charuto, já destroçado, e acendeu outro. Seu rosto continuava azedo, mas havia uma nítida nota de satisfação em sua voz, ao dizer: – Ha! Sabia que os pegaria.

Era um par suarento e cansado que pilotava a nave “Helios” através da órbita de Mercúrio. A despeito da amizade superficial que lhes era imposta pelas semanas solitárias pelo espaço, Jimmy Turner e Roy Snead mal se dirigiam um ao outro. Acrescente-se a esta hostilidade dissimulada, o calor do imenso Sol e a torturante incerteza sobre o resultado final da viagem, e temos um par miserável, de fato.

Jimmy olhou, exausto, para a multidão de mostradores à sua frente, e, afastando uma mecha de cabelo molhado de seus olhos, resmungou: – Qual a indicação do termômetro agora, Roy ?

– Cento e vinte e cinco graus Fahrenheit, e ainda subindo – foi a resposta, igualmente rosnada.

Jimmy blasfemava fluentemente: – O sistema de refrigeração está no máximo, o casco da nave reflete 95% da radiação, e ainda está nos cento e vinte. – Fez uma pausa. – O gravômetro indica que ainda estamos a uns trinta e cinco milhões de milhas do Sol. Quinze milhões de milhas até que o campo defletor se torne eficaz. A temperatura provavelmente ainda chegará aos 150. Bela perspectiva! Verifique os dessecadores. Se o ar não for mantido absolutamente seco, não duraremos muito.

– Dentro da órbita de Mercúrio, pense só! – A voz de Snead era brusca. – Ninguém já esteve tão perto do Sol como isto, e ainda vamos nos aproximar mais.

– Muitos já estiveram a esta distância, e ainda mais perto – lembrou Jimmy – mas eles estavam fora de controle e desceram no Sol. Friedlander, Debuc, Anton… Sua voz sumiu num entristecido silêncio.

Roy ajeitou-se incomodado – Qual a eficiência do campo de deflexão, Jimmy ? Seus alegres pensamentos não são muito animadores, sabe?

– Bem, foi testado nas piores condições que os técnicos do laboratório puderam criar. Eu assisti aos testes. Foi imerso numa radiação próxima da do Sol a uma distância de vinte milhões de milhas. O campo funcionou como mágica. A luz
dobrou-se em torno dele, de modo que a nave ficou invisível. Os homens dentro dela disseram que tudo o que estava fora é que ficava invisível, e que nenhum calor os atingia. Coisa estranha, porém, o campo trabalha apenas sob certas intensidades de radiação.

– Bem, de qualquer modo, espero que acabe logo – disse Roy, esperançoso. – Se o Velho Ranzinza está pensando em fazer desta a minha rota regular….bem, vai perder seu melhor piloto.

– Perderá seus dois melhores pilotos – corrigiu Jimmy.

Os dois caíram em silêncio, e o “Helios” prosseguiu viagem.

A temperatura subia: 130; 135; 140. Então, três dias depois, como mercúrio oscilando em tomo de 148, Roy anunciou que estava se aproximando do cinturão crítico, onde a radiação solar atingia uma intensidade suficiente para energizar o campo.

Os dois esperavam, mentes em concentração febril, pulsos latejando.

– Acontecerá de repente?

– Não sei. Precisamos esperar.

Das escotilhas, apenas as estrelas eram visíveis. O Sol, três vezes maior do que visto da Terra, derramava seus raios cegantes sobre metal opaco, pois nesta nave especialmente projetada, as escotilhas fechavam-se automaticamente quando atingidas por radiação forte.

E então as estrelas começaram a desaparecer. Lentamente, de início, as mais fracas desapareceram – depois, as mais brilhantes: Polaris, Regulus, Arcturus, Sirius. O espaço estava uniformemente preto.

– Está funcionando – disse Jimmy, aliviado. As palavras mal saíram de sua boca, quando as escotilhas do lado do Sol abriram.se. O Sol desaparecera.

– Bem, já me sinto melhor – Jimmy Turner estava jubilante. – Ra- paz, funciona, como mágica. Sabe, se eles puderem ajustar este campo de deflexão a todas as intensidades de radiação, poderíamos ter a invisibilidade perfeita. Faria uma arma muito conveniente. – Acendeu um cigarro e recostou-se, deliciado.

– Mas, enquanto isso, fazemos voo cego – insistiu Roy.

Jimmy sorriu, paternal. – Não precisa se preocupar com isso, Bolacha. Cuidei de tudo. Estamos em órbita em torno do Sol. Em duas semanas, estaremos do lado oposto e então deixarei os foguetes nos mandarem para fora desta faixa, disparando em direção a Vênus. – Estava realmente muito satisfeito consigo mesmo..

– Deixe com Jimmy Turner, o “Crânio”. Estaremos lá em dois meses, ao invés dos seis meses regulares. Está viajando com o melhor piloto da United.

Roy logo riu. – Ao ouvi-lo, alguém pensaria que você fez todo o trabalho. Tudo o que está fazendo é guiar a nave no curso que eu calculei. Você é o mecânico; eu sou o cérebro.

– Ah, sim? Qualquer cadete de escola de pilotos pode calcular um curso; é preciso um homem para pilotar.

– Bem, na sua opinião. Mas, quem tem o maior salário, o piloto ou o navegador?

Jimmy não teve resposta para isto, e Roy saiu triunfante, da sala de pilotagem. Inconsciente de tudo isto, o “Helios” continuava disparando pelo espaço.

Por dois dias, tudo esteve em paz; então, no terceiro, Jimmy inspecionou o termômetro, coçou a cabeça e ficou preocupado. Roy entrou, olhou para ele, e ergueu as sobrancelhas, surpreendido.

– Algo errado? – Inclinou-se e viu a altura da fina coluna vermelha. – Apenas 100 graus. Não é nada perto do que já passamos. Pela sua expressão, pensei que havia algo errado com o campo de deflexão, e que estava subindo de novo – afastou-se com um bocejar ostensivo.

– Ora, cale-se, seu macaco idiota – o pé de Jimmy ergueu-se numa quase tentativa de pontapé. – Eu me sentiria melhor se a temperatura estivesse subindo. Este campo defletor está trabalhando bem demais para o meu gosto.

– Como? Que quer dizer?

– Explicarei, e se escutar cuidadosamente, você poderia até entender. Esta nave é construída como uma garrafa térmica. Ganha calor apenas com a maior dificuldade e perde-o do mesmo modo. – Interrompeu-se, para que as palavras calassem. A temperaturas ordinárias, esta nave não deve perder mais do que dois graus por dia, se nenhuma fonte exterior agir. Talvez na temperatura em que estamos, a perda possa chegar a cinco graus por dia. Está percebendo?

A boca de Roy estava aberta, e Jimmy continuou. – Agora, esta maldita nave perdeu cinquenta graus em menos de três dias.

– Mas, é impossível.

– Aí está. – Jimmy apontou, ironicamente. – Vou lhe dizer o que está errado. É o campo. Age como agente repulsor de radiações eletromagnéticas, e de certa forma está acelerando a perda de calor de nossa nave.

Roy mergulhou em seus pensamentos e fez alguns cálculos mentais rápidos. – Se o que diz está certo – acabou dizendo – chegaremos ao ponto de congelamento em cinco dias e então passaremos uma semana no que corresponderia ao clima de inverno.

– Isso mesmo. Mesmo considerando um declínio na perda de calor com baixa da temperatura, provavelmente acabaremos com o mercúrio em algum ponto entre trinta e quarenta abaixo de zero.

Roy engoliu em seco. – E a vinte milhões de milhas do Sol!

– Isso não é o pior – ressaltou Jimmy. – Esta nave, como todas as outras usadas para viajar dentro da órbita de Marte, não tem sistema de aquecimento. Com o Sol brilhando furiosamente, e sem meios de perder calor exceto por uma irradiação ineficiente. As naves de Marte e Vênus sempre se especializaram com sistemas de refrigeração. Nós, por exemplo, temos um equipamento de refrigeração muito eficiente.

– Estamos enrascados, então. O mesmo se aplica a nossos trajes espaciais.

A despeito da temperatura ainda muito quente, os dois estavam começando a experimentar alguns arrepios de antecipação.

– Sabe, não vou ficar aguentando isto – declarou Roy. – Voto por sairmos daqui já e voltarmos para a Terra. Não podem esperar mais de nós.

– Continue! Você é o piloto. Você pode calcular um curso a esta distância do Sol e garantir que não cairemos no Sol?

– Diabos! Não tinha pensado nisso.

Os dois esgotaram sua imaginação. A comunicação por rádio havia sido impossível, desde que passaram da órbita de Mercúrio. O Sol estava num máximo de manchas, e a estática havia abafado todas as tentativas.

Então, sentaram-se e esperaram.

Os próximos poucos dias foram ocupados inteiramente com a observação do termômetro, com alguns minutos tomados aqui e ali, sempre que um dos dois pensava numa maldição diferente para lançar sobre a cabeça do sr. Frank McCutcheon, Permitiram-se comer e dormir, mas não o apreciavam.

Entrementes, o “Helios”, inteiramente despreocupado com as atribulações de seus ocupantes, prosseguia em sua rota.

Como Roy predissera, a temperatura passava a linha vermelha marcada “congelamento”, já por volta de seu sétimo dia no cinturão de deflexão, Os dois estavam notavelmente infelizes quando aconteceu exatamente como esperavam.

Jimmy havia retirado cem galões de água do tanque.Com isto enchera quase todo recipiente a bordo.

– Poderá – assinalou – evitar que os canos estourem quando a água se congelar. E se o fizerem, como é provável, ainda assim, teremos nossas reservas de água. Precisaremos aguentar mais uma semana, como sabe.

E no dia seguinte, o oitavo, a água congelou. Lá estavam os baldes, transbordando com gelo, envoltos em seu frio branco. Os dois olhavam para eles, desesperados, Jimmy abriu um deles.

– Totalmente congelado – disse, inexpressivamente, e enrolou outro cobertor em volta de si mesmo.

Era difícil pensar em qualquer outra coisa que não o frio crescente, agora. Roy e Jimmy haviam recolhido todo cobertor e lençol a bordo da nave. depois de vestirem três ou quatro camisas e número igual de calças.

Ficavam na cama o máximo tempo possível, e quando forçados a saírem, procuravam ficar perto do pequeno queimador de óleo, para se aquecerem. Mesmo este prazer duvidoso logo lhes seria negado, pois como observou Jimmy, “a reserva de óleo é extremamente limitada e precisaremos do queimador para derreter a água e a comida”.

Os ânimos estavam exaltados e as discussões eram frequentes, mas a miséria comum evitava que chegassem a vias de fato. Foi no décimo dia, porém, que os dois, unidos por seu ódio comum, de repente acabaram amigos

A temperatura estava se aproximando do zero, já se decidindo a cair para as regiões negativas. Jimmy estava encolhido a um canto, lembrando-se dos tempos em Nova Iorque, quando reclamara do calor de agosto e imaginava como pôde dizer aquilo. Roy, enquanto isso, havia manipulado dedos enrijecidos tempo suficiente para calcular que teriam de suportar o frio por exatamente mais 6.354 minutos.

Considerou o número com desgosto e leu-o para Jimmy. Este fez uma careta e reclamou: – Do jeito que me sinto, não vou durar nem 54 minutos, quanto mais 6.354. – E então, impaciente – gostaria que você pudesse pensar em algum modo de nos tirar disto.

– Se não estivéssemos tão perto do Sol – sugeriu Roy – poderíamos ligar os motores principais e sairmos.

– Sim, e se caíssemos no Sol, estaríamos confortavelmente aquecidos. Grande ajuda a sua!

– Bem, você é que se chama “O Crânio”, pense você em algo. Do jeito que fala, pode-se pensar que foi tudo minha culpa!

– Certamente que é, seu jumento vestido de gente! Meu melhor discernimento me dizia para nunca embarcar nesta viagem louca. Quando McCutcheon a propôs, recusei imediatamente; eu sabia. – Jimmy estava amargurado. – E então, o que acontece? O louco que você é, aceitou e precipitou-se, onde qualquer homem sensato recearia entrar. E então, claro, eu precisava ir junto.

– Ora, você deveria saber porque fiz isso – a voz de Jimmy se elevava – eu deveria tê-lo deixado ir sozinho e congelar, e então sentar-me ao lado de uma lareira e refestelar-me. Isto é, se soubesse o que viria a acontecer.

Um olhar de descontentamento surpreso apareceu na face de Roy .

– Ah, é assim? Então é isso! Tudo o que posso dizer é que você certamente é um gênio para distorcer os fatos, pelo menos. O fato é que você foi indescritivelmente estúpido para aceitar, e eu o pobre coitado arrastado por força das circunstâncias.

A expressão de Jimmy era do mais supremo desdém. – Evidentemente o frio o deixou meio insano, muito embora eu admita que não é preciso muito para abalar o pouco de juízo que você tem na cabeça.

– Escute aqui – respondeu Roy, esquentado – a 10 de outubro, McCutcheon chamou-me pelo ‘visor e disse-me que você havia aceito, e riu- se de mim por me acovardar e não aceitar. Você nega isso?

– Sim, nego completamente. A 10 de outubro, o Ranzinza disse-me que você decidira ir e tinha apostado com ele que…

A voz de Jimmy desapareceu, e um olhar chocado tomou sua face. – Ei,… está certo de que McCutcheon lhe disse que eu concordava em ir?

Um sentimento de frio agarrou o coração de Roy quando ele percebeu a mudança de Jimmy, um sentimento que vencia a insensibilidade causada pelo frio.

– Absolutamente – ele respondeu – juro; por isso é que vim.

– Mas ele me disse que você aceitara e por isso é que vim. – Jimmy já estava se sentindo um idiota.

Os dois caíram num silêncio retraído e fatal, que foi quebrado por Roy, que falou numa voz que tremia de emoção.

– Jimmy, fomos vítimas de uma desprezível, baixa, e hipócrita artimanha. – Seus olhos se dilataram, furiosos. – Fomos ludibriados, espoliados… – as palavras lhe faltavam, mas ele continuou praguejando com sons sem sentido, indicadores principalmente de uma ira devoradora. Jimmy estava mais calmo, mas não menos vingativo. – Está certo, Roy, McCutcheon jogou sujo conosco. Chegou às maiores profundezas da iniquidade humana. Mas vamos tirar a forra. Quando passarmos por todos os 6300 minutos, temos contas a ajustar com o sr. McCutcheon.

– O que vamos fazer? – Os olhos de Roy estavam cheios de uma euforia sanguinária.

– De momento, sugiro que simplesmente o ataquemos e o façamos em pequeníssimos pedacinhos.

– Não, não é cruel o suficiente. Que tal queimá-lo em óleo?

– É razoável, sim; mas leva muito tempo. Vamos dar-lhe uma boa surra à moda antiga – com soco inglês.

Roy esfregou as mãos. – Teremos muito tempo para pensar em medidas realmente adequadas. O sujo, amaldiçoado, covarde, leproso… – O resto derivou fluentemente no irreprodutível.

E por mais quatro dias, a temperatura caiu. Foi no décimo quarto e último dia que o mercúrio congelou, a coluna vermelha apontava, congelada, para quarenta abaixo de zero.

Neste terrível último dia, tinham acendido o queimador de óleo, usando todo o seu escasso suprimento de óleo. Tremendo e mais que meio enregelados, estavam encolhidos juntos, tentando usar cada última gota de calor.

Jimmy havia encontrado um par de protetores de orelhas alguns dias antes, em algum canto obscuro, e agora trocava de mãos ao fim de cada hora. Ambos estavam sentados sob uma pequena montanha de cobertores esfregando mãos e pés gelados. A cada minuto que passava, sua conversação, concernente ao sr. McCutcheon quase exclusivamente, ficou mais vitriólica.

– Sempre citando aquele três vezes maldito slogan do correio espacial: “Nosso voo pelo esp…” – Jimmy engasgou, em sua fúria impotente.

– Sim, e sempre abrindo buracos em poltronas, ao invés de vir aqui e fazer algo parecido com o trabalho de homens, o coisa podre – concordou Roy .

– Deveremos passar pela zona de deflexão em duas horas. Então mais três semanas, e estaremos em Vênus – disse Jimmy , espirrando.

– Não vejo a hora – disse Snead, que estivera fungando nos últimos dois dias. – Nunca mais vou fazer outra viagem espacial, exceto aquela que me leve de volta à Terra. Depois vou ganhar a vida plantando bananas na América Central. Um indivíduo pode ficar decentemente aquecido ali, pelo menos.

– Poderemos nem sair de Vênus, depois do que estamos para fazer com McCutcheon.

– Você pode estar certo, mas não faz mal. Vênus é até mais quente que a América Central, e é tudo o que importa.

– Nem precisamos ter preocupações com a lei – Jimmy espirrou de novo. – Em Vênus, a prisão perpétua é o limite para homicídio em primeiro grau. Uma cela seca e quente para o resto da vida. O que poderia ser melhor?

O outro braço do cronômetro girava em seu passo regular; os minutos eram contados. As mãos de Roy flutuavam amorosamente sobre a alavanca que dispararia os jatos principais, que levariam o “Helios” para longe do Sol e daquela terrível zona de deflexão.

 

E por fim: – Agora! – gritou Jimmy , ansioso – Ligue os motores!

Com um profundo rugido de reverberação, os foguetes dispararam. O “Helios” tremeu de proa a popa. Os pilotos sentiram a aceleração comprimi-los contra seus assentos, e ficaram felizes: Em questão de minutos, o Sol brilharia de novo e eles estariam aquecidos, e de novo sentiriam o abençoado calor.

Aconteceu antes que se apercebessem do fato. Houve um lampejar momentâneo, então um rangido e um estalo, com a abertura das escotilhas do lado do Sol.

– Veja – exclamou Roy – as estrelas! Saímos! – Lançou um olhar extático de alegria para o termômetro. – Bem, meu velho, lá vamos nós de novo. – Puxou os cobertores à sua volta, pois o frio ainda permanecia.

Havia dois homens no escritório de Frank McCutcheon na filial venusiana do Correio Espacial. – O próprio McCutcheon e o velho Zebulon Smith, com seus cabelos brancos, inventor do campo de deflexão. Smith falava.

– Mas, sr. McCutcheon, é realmente de grande importância que eu saiba exatamente como funcionou meu campo defletor. Certamente eles devem ter transmitido toda informação possível para o senhor.

O rosto de McCutcheon era um tratado de azedume ao morder a ponta de um de seus charutos imensos, e acendeu-o.

– Isso, meu caro sr. Smith – disse ele – é exatamente o que eles não fizeram. Desde que se afastaram do Sol a distância que lhe permitia comunicação, tenho mandado pedidos de informações quanto à praticabilidade do campo. Eles simplesmente recusam-se a responder. Dizem que funcionou e que estão vivos, e darão mais informações quando chegarem a Vênus. E é tudo!

Zebulon Smith suspirou, desapontado. – Não é um tanto incomum, insubordinação, por assim dizer? Penso que eles teriam a obrigação de serem completos em seus informes e darem quaisquer pormenores que lhes são pedidos.

– É verdade. Mas estes são os “ases”, e um tanto temperamentais. Precisamos tolerar estes desvios. Além do que, eu os ludibriei para embarcarem nesta viagem, muito arriscada, como sabe, e estou inclinado a ser indulgente.

– Bem, então suponho que preciso esperar.

– Mas não será por muito tempo. – McCutcheon assegurou-lhe. – Devem chegar hoje, e posso dizer-lhe que, assim que tiver contato com eles enviar-lhe-ei todos os pormenores. Afinal, sobreviveram, por duas semanas, a uma distância de vinte milhões de milhas do Sol, de modo que sua invenção é um sucesso. Isto já deve satisfazê-lo.

Smith mal acabara de sair, quando a secretária de McCutcheon entrou com uma expressão estranha no rosto.

– Algo está errado com os pilotos da “Helios”, sr. McCutcheon – ela informou-o. – Acabo de receber um boletim do Major Wade da cidade de Pallas, onde desceram. Recusaram-se a comparecer à celebração preparada para eles, mas alugaram imediatamente um foguete para chegar aqui, recusando-se a declarar a razão. Quando o Major Wade tentou detê-los, tornaram-se violentos, pelo que ele diz. – Pousou o comunicado sobre a mesa.

McCutcheon olhou-o distraidamente. – Hmm! Eles realmente parecem desconcertantemente temperamentais. Bem, mandem-nos para mim quando chegarem; vou falar com eles.

Foi três horas depois que o problema dos dois pilotos insubordinados de novo apresentou-se à sua mente, desta vez por uma súbita comoção na sala de recepção. Ouviu as vozes iradas de dois homens e então as enérgicas reprovações de sua secretária. De súbito, a porta abriu-se e Jim Turner e Roy Snead irromperam.

Roy friamente fechou a porta e encostou-se contra ela.

– Não deixe ninguém perturbar enquanto eu não acabar – Jimmy disse-lhe.

– Ninguém vai passar por esta porta por alguns instantes – Roy respondeu ameaçador. – Mas lembre-se, você prometeu deixá-lo um pouco para mim.

McCutcheon nada disse durante estes instantes, mas quando ele viu Turner despreocupadamente tirar um par de socos ingleses de seu bolso e pô-los nos dedos com um ar determinado, decidiu que era hora de parar com a comédia.

– Olá, rapazes – disse com uma cordialidade incomum para ele. – Bom vê-los de novo. Sentem-se.

Jimmy ignorou a oferta. – Tem algo a dizer, algum último pedido antes que eu comece as operações? – disse, rangendo os dentes.

– Bem, se vocês querem dessa forma – respondeu McCutcheon – eu poderia perguntar exatamente o que significa tudo isto – se não for muito irracional. Talvez o defletor tenha sido ineficiente, e vocês tenham tido uma viagem um tanto quente.

A única resposta a isto foi um bufo de Roy e um olhar frio de Jimmy

– Primeiramente – disse este – qual foi aquela ideia daquela trapaça imunda e nojenta que fez conosco?

Os sobrolhos de McCutcheon ergueram-se. – Ah, aquelas mentirinhas que lhes disse para que vocês fossem? Ora, aquilo não foi nada. Uma prática comum nos negócios, é tudo. Ora, faço coisas ainda piores do que essas todos os dias, e as pessoas consideram isso rotineiro. Além do mais, que mal lhes fez?

– Diga-lhe sobre nossa”viagem agradável”, Jimmy – instou Roy .

– É exatamente o que vou fazer – foi a resposta. Voltou-se para McCutcheon e assumiu o ar de um mártir. – Primeiro, nesta viagem danada, nós fritamos numa temperatura que chegou aos 150, mas isso era de se esperar, e não reclamamos; estávamos à metade da distância de Mercúrio ao Sol.

– Mas, depois disto, entramos naquela zona onde a luz se dobra à nossa volta; a radiação incidente caiu a zero e começamos a perder calor não só um grau por dia, como aprendemos na escola de pilotagem. – Fez uma pausa para respirar, com mais algumas novas pragas que acabava de imaginar, então continuou.

– Em três dias, descemos a cem, e em uma semana, até o congelamento. Então, por toda uma semana, sete longos dias, seguimos nossa rota abaixo de zero. Estava tão frio no último dia, que o mercúrio congelou. – A voz de Turner subiu até se esganiçar, e na porta, uma certa auto-piedade fez Roy tomar fôlego com um audível engolir em seco. McCutcheon permanecia impassível.

Jimmy continuou. – Lá estávamos nós, sem um sistema de aquecimento, de fato, sem calor de nenhuma espécie, nem mesmo roupas quentes. Congelamos, diabos; precisávamos derreter nossa comida e nossa água. Estávamos enrijecidos, não podíamos nos mover. Foi um inferno, estou lhe dizendo, às avessas. – Interrompeu-se, procurando palavras.

Roy Snead incumbiu-se de continuar. – Estávamos a vinte milhões de milhas do Sol e eu estava com as orelhas enregeladas. Sim, isso mesmo. – E brandiu o punho no nariz de McCutcheon. – E foi sua culpa. Você nos atraiu para isto! Enquanto estávamos congelando, prometemo-nos que voltaríamos para pegá-lo e vamos manter a nossa promessa. – Voltou-se para Jimmy. – Vamos começar? Já perdemos muito tempo.

– Esperem, rapazes – falou, enfim, McCutcheon. – Deixem-me entender direito. Querem dizer que o campo de deflexão funcionou tão bem que manteve afastada toda a radiação e retirou todo o calor que estava na nave? – Jimmy concordou, bruscamente.

– E vocês gelaram por toda uma semana por isso? – McCutcheon continuou.

De novo, uma rosnada.

E então, uma coisa muito estranha e incomum aconteceu. McCutcheon, o “Velho Ranzinza”, o homem sem o músculo do “risus”, sorriu. De fato, mostrava seus dentes. E mais, o sorriso cresceu, e cresceu até que finalmente um riso enferrujado, há muito não utilizado, foi ouvido mais e mais alto, até se desdobrar numa sonora gargalhada, e a gargalhada em gritos. Numa só explosão estentórica, McCutcheon compensou uma vida inteira de azedume.

As paredes reverberavam, as persianas vibravam, e ainda a risada homérica continuava. Roy e Jimmy ficaram boquiabertos, inteiramente inertes. Um contador, surpreso, pôs a cabeça para dentro da porta e congelou onde estava. Outros acumulavam-se perto da porta, conversando em cochichos assombrados. McCutcheon tinha rido!

Gradualmente a hilaridade do velho Gerente Geral amorteceu-se. Acabou com alguns engasgos e finalmente voltou um rosto avermelhado para seus pilotos, cuja surpresa havia muito, dera lugar à indignação.

Disse-lhes: – Foi a melhor piada que já ouvi. Podem considerar-se pagos em dobro, vocês dois. – Ele ainda estava sorrindo, e não conseguia evitar os soluços.

Os dois pilotos esfriaram com esta proposta simpática. – O que é tão terrivelmente engraçado? – Jimmy queria saber. – Não vejo nada do que me rir.

A voz de McCutcheon pingava mel. – Amigos, antes da partida, dei a cada um de vocês diversas folhas mimeografadas contendo instruções especiais. O que aconteceu com elas?

Houve um repentino embaraço no ar.

– Não sei. Devo ter perdido a minha – embatucou Roy .

– Nunca olhei para a minha, esqueci-me dela. – Jimmy estava legitimamente consternado.

– Como veem – exclamou McCutcheon, triunfante – foi por culpa de sua própria imbecilidade.

– Como pode dizer isso? – Jimmy queria saber. – O Major Wade disse-nos tudo o que precisávamos saber sobre a nave, além do que, creio que não há nada que você possa nos dizer sobre como pilotar uma.

– Oh, não? Wade evidentemente esqueceu de informá-los de uma minúcia que vocês deveriam ter encontrado em minhas instruções. A força do campo de deflexão é ajustável. Acontece que estava ajustada para força máxima quando vocês começaram, eis tudo. – Estava começando a rir-se de novo, levemente. – Agora, se vocês tivessem se dado ao trabalho de ler aquelas folhas, saberiam que um simples movimento de uma alavanquinha – fez o gesto apropriado com o polegar – teria enfraquecido o campo de qualquer quantidade desejada, e permitiria que qualquer dose de radiação penetrasse, o quanto se desejasse.

E agora a risada tornava-se mais alta. – E vocês congelaram-se por uma semana porque não tiveram cabeça para puxar uma alavanca. E então vocês, os ases, vêm aqui e acusam a mim. Que piada! – E pôs-se a rir de novo enquanto um par de rapazes, humilhados, olhava um para o outro, embaraçados.

Quando McCutcheon voltou ao normal, Jimmy e Roy tinham-se ido.

Numa alameda adjacente ao prédio, um garoto de dez anos olhava, com a boca aberta e totalmente absorto, os dois rapazes, empenhados na estranha e assombrosa ocupação de chutarem um ao outro, alternada mente, com toda a força!

 

— FIM —

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