A Ameaça de Calisto

FICHA TÉCNICA:

  • Título Original: The Callistan Menace (Stowaway / Magnetic Death)
  • Segundo conto escrito por Asimov, em 1938.
  • Apareceu na edição de abril de 1940 da revista Astonishing Stories.
  • Foi publicado no livro O Futuro Começou (1978 – Hemus),
  • A tradução abaixo foi retirada da edição acima citada, que no momento está fora de catálogo e sem previsão de reedição. Os tradutores daquela edição foram: Norberto de Paula Lima, Danusa Scarton Rabello Alves e Valéria Fernandes.

 

Captura de Tela 2015-10-16 às 16.35.37NOSSA OPINIÃO: ISAAC AMARELO

Apesar de ser um conto divertido, ainda não é um representante do conhecido estilo de Asimov, não conseguimos ouvir a “voz” dele. Mas até que para uma segunda tentativa do ainda futuro escritor profissional, vai bem. É possível perceber as fortes influências da ficção científica das revistas pulp, com seus monstros gigantes, e um certo tom de filme de terror. Recomendo a leitura, até porque o conto é relativamente curto, mas sem muitas expectativas.

 

Capa da revista na qual o conto apareceu pela primeira vez.
Capa da revista na qual o conto apareceu pela primeira vez.

– Maldito Júpiter! – rosnou Ambrose Whitefield farto de tudo, com o que concordei, com a cabeça. – Tenho estado de serviço no satélite de Júpiter – disse eu – por quinze anos, e ouvi estas duas palavras faladas talvez um milhão de vezes. É provavelmente a praga mais sincera do sistema solar.

Nosso turno nos controles da nave patrulha “Ceres” acabava de ser rendido e descíamos os dois níveis para nosso quarto com passos arrastados.

– Maldito Júpiter – e maldito seja de novo – insistiu Whitefield, morosamente. – É grande demais para este sistema. Fica lá atrás de nós e puxa, e puxa, e puxa! Precisamos manter os Átomos funcionando todo o tempo. Precisamos verificar o curso – completamente – a cada hora. Sem descanso, sem parar, sem cessar! Nada senão o mais podre dos trabalhos.

Havia gotículas de transpiração em sua testa e ele as limpava com as costas da mão. Era jovem, mal tinha trinta anos, e podia-se ver por seus olhos que estava nervoso, e mesmo um pouco assustado.

E não era Júpiter que o estava incomodando, a despeito de sua maledicência. Júpiter era a menor de suas atribulações. Era Calisto! Era aquele pequeno satélite que brilhava num azul pálido em nossas visichapas e fazia Whitefield suar e que já tinha estragado quatro de minhas noites de sono. Calisto! Nosso destino!

Mesmo o velho Mac Steenden, veterano com seu bigode grisalho que, em sua juventude, viajara com o grande Peewee Wilson em pessoa, cumpria suas funções com um olhar ausente. Quatro dias fora – e mais dez dias à nossa frente – e o pânico estava chegando com suas garras.

Éramos todos corajosos, no curso ordinário dos acontecimentos. Nós oito no “Ceres” havíamos nos defrontado com a púrpura Letrônica e o traiçoeiro Disintos, de piratas e rebeldes e os ambientes estranhos de meia dúzia de mundos. Mas é preciso mais do que uma bravura quixotesca para enfrentar o desconhecido; para enfrentar Calisto, o “mundo misterioso” do sistema solar.

Um fato era conhecido sobre Calisto – um sombrio e simples fato. Por um período de vinte e cinco anos, sete naves, progressivamente melhor equipadas, tinham descido lá – e nunca mais se ouviu falar delas. Os jornais dominicais povoavam o satélite com qualquer coisa, desde super-dinossauros até fantasmas invisíveis da quarta dimensão, mas isso não resolvia o mistério.

Éramos a oitava. Tínhamos uma nave melhor do que qualquer das precedentes. Éramos os primeiros a testar o novo casco de berílio-tungstênio, duas vezes mais forte do que as velhas cascas de aço. Possuíamos armamentos superpesados e a última propulsão atômica.

E mesmo assim – éramos apenas a oitava expedição – e cada um de nós sabia disso.

Whitefield entrou em seus aposentos silenciosamente e mergulhou em seu catre. Seus punhos estavam fechados sob seu queixo e estavam brancos nas juntas. Parecia-me que ele não estava longe de estourar. Era um caso para cuidadosa diplomacia.

– O que precisamos – disse eu – é uma boa e forte bebida.

– O que precisamos – respondeu asperamente – é de um monte de bebida boa e forte.

– Bem, o que nos impede? – Olhou para mim, suspeitoso. – Você sabe que não há uma gota de álcool a bordo. É contra os regulamentos da Frota!

– Água de Jabra, cintilante – disse eu, devagar, deixando as palavras gotejarem de minha boca. – Envelhecida sob os desertos de Marte. Suco de esmeralda derretida! Caixas cheias!

– Onde?

– Eu sei onde. Que me diz? Algumas doses – apenas algumas – nos alegrarão.

Por um momento seus olhos faiscaram, e então apagaram-se de novo. – E se o Capitão descobrir? Ele é fanático pela disciplina, e numa viagem como esta, pode nos custar um rebaixamento.

Pisquei e sorri. – Escondida pelo próprio capitão. Ele não pode nos disciplinar sem cortar sua própria garganta – o velho hipócrita. Ele é o melhor capitão que já houve, mas ele gosta de sua água de esmeralda.

Whitefield olhou para mim longa e duramente. – Está bem; leve-me até lá.

Deslizamos até a sala de provisões, que estava deserta, claro. O Capitão e Steeden estavam nos controles; Brock e Charney nos motores; e Harrigan e Tuley estavam com suas cabeças idiotas roncando em seus quartos.

Movendo-me tão imperceptivelmente quanto podia, por mero hábito, empurrei para o lado os diversos volumes de tabletes de comida, e desloquei para o lado um painel oculto perto do chão. Pus a mão dentro e tirei uma garrafa empoeirada, que, à luz fraca, refletia um verde-mar.

– Sente-se – falei – fique à vontade. – Tirei dois copos pequenos e os enchi.

Whitefield bebia devagar e com todas as evidências de satisfação. Virou o copo no segundo gole.

– Afinal, como você foi voluntário para esta viagem, Whitey ? – perguntei. – Você me parece um pouco jovem para uma coisa destas.

Abanou a mão. – Você sabe como é. As coisas ficam monótonas depois de algum tempo. Fui estudar zoologia depois de sair do colégio – grande campo, depois das viagens interplanetárias – e tinha uma posição confortável e boa, lá em Ganimedes. Era monótono, porém; estava totalmente entediado. De modo que juntei-me à Frota por impulso, assim como fui voluntário para esta viagem. – Suspirou, lastimoso. – Estou arrependido de tê-lo feito.

– Não é assim que se encara a coisa, menino. Tenho mais experiência e sei. Quando está para entrar em pânico, está tão bom como se estivesse morto. Ora, daqui a dois meses, estaremos em Ganimedes.

– Não estou apavorado, se é isso que está pensando – exclamou, nervoso. – É… é… – houve uma longa pausa, durante a qual tremeu, entornando seu terceiro copo. – Bem, estou me roendo tentando imaginar por que diabos devemos esperar. Minha imaginação está trabalhando em excesso e meus nervos estão no fim.

– Claro, claro – consolei-o – não o estou acusando. É assim com todos nós, acho. Mas você precisa ser cuidadoso. Ora, lembro-me certa vez, numa viagem Marte-Titã, em que tínhamos de…

Whitefield interrompeu o que era uma de suas histórias favoritas – e eu as tinha como qualquer outro da ativa – com um cutucão nas costelas que me tirou o fôlego.

Pousou seu Jabra cuidadosamente.

– Diga-me, Jenkins – gaguejou – não bebi o suficiente para me fazer imaginar coisas, não?

– Depende do que você imaginou.

– Poderia jurar que vi algo movendo-se em algum lugar na pilha de caixas vazias, do outro lado.

– É mau sinal – e tomei outro gole, ao dizê-lo. – Seus nervos estão subindo para seus olhos, e agora estão brincando com você. Fantasmas, eu suponho, ou ameaça de Calisto nos assombrando por antecipação.

– Eu vi, estou lhe dizendo. Há algo vivo ali. – Inclinou-se para mim – seus nervos estavam perto do colapso – e por um momento, na luz fraca e sombria, eu mesmo me engasguei.

– Você está maluco – disse, em voz alta, e os ecos me acalmaram um pouco. Depositei meu copo vazio e levantei-me apenas um pouquinho tonto. – Vamos lá dar uma olhada nas caixas.

Whitefield seguiu-me e juntos começamos a remover os leves cubos de alumíni daqui para ali. Nenhum de nós dois estava cem por cento sóbrio e fizemos bastante barulho. Pelo canto do olho, pude ver Whitefield tentando mover a caixa mais próxima da parede.

– Essa não está vazia – resmungou, ao erguê-la um pouco do chão.

Murmurando enquanto tomava fôlego, abriu a tampa e olhou para dentro. Por meio segundo ele apenas olhou e então recuou lentamente. Tropeçou em algo e caiu sentado, ainda olhando para a caixa.

Olhei suas ações com os sobrolhos erguidos, e então relanceei apressadamente para o caixote. O relance congelou-se, e emiti um grito rouco que ressoou em cada uma das quatro paredes.

Um garoto estava pondo a cabeça para fora da caixa – um garoto ruivo, de rosto sujo, por volta de treze anos.

– Alô – disse o menino ao sair. Nenhum de nós encontrou forças para responder, de modo que continuou. – Estou contente por terem me encontrado. Estava torcendo meu ombro tentando me dobrar aqui dentro.

Whitefield engoliu em seco, audivelmente. – Meu Deus! Um garoto clandestino! E numa viagem para Calisto!

– E não podemos voltar – recordei-o, com voz exaltada – sem acabarmos conosco mesmos. A rota do satélite de Júpiter é veneno.

– Escute aqui – Whitefield voltou-se para o garoto com súbita beligerância. – Quem é você seu filhote de maluco, e o que está fazendo aqui?

O menino titubeou. – Sou Stanley Fields – respondeu, um pouco assustado. – Sou de Nova Chicago, em Ganimedes. Eu… eu fugi para o espaço, como fazem nos livros. – Interrompeu-se e então perguntou, animado: – Pensa que teremos um combate contra piratas nesta viagem, senhor?

Não havia dúvida de que o garoto estava cheio até as orelhas com lendas do espaço. Eu mesmo costumava lê-las quando era pequeno.

– E seus pais? – perguntou Whitefield, ameaçador.

– Oh, tudo o que tenho é um tio. Ele não se importaria muito, acho. – Já havia passado seu embaraço inicial e olhava para nós, sorridente.

– Bem, o que fazer? – disse Whitefield, olhando para mim completamente desamparado.

Dei de ombros. – Levá-lo ao Capitão. Deixe que ele se preocupe.

– E como ele vai reagir?

– Do modo que ele quiser. Não é culpa nossa. Além do que, não há absolutamente nada que se possa fazer.

E pegando cada um uma das mãos do garoto, fomos embora dali.

O capitão Bartlett é um oficial capaz e um tipo inexpressivo, que raramente exterioriza emoções. Consequentemente, nas poucas ocasiões em que o faz, é como um vulcão mercuriano em erupção – e você não viu nada enquanto não tiver visto uma delas.

Era um caso de última gota. Uma rota de satélites é sempre cansativa. A imagem de Calisto adiante era mais incômoda para ele do que para qualquer um da tripulação. E agora este garoto clandestino.

Não dava mais para suportar! Por meia hora, o Capitão disparou salva após salva da pior espécie de palavrões. Começou com o sol e passou por toda a lista de planetas, satélites, asteroides, cometas, e até os meteoros mesmos. Estava começando com a estrela fixa mais próxima, quando entrou em colapso nervoso, por pura exaustão. Estava tão excitado que nem pensou em perguntar-nos o que estávamos fazendo na dispensa, antes de tudo, pelo que Whitefield e eu estávamos gratos.

Mas o capitão Bartlett não era tolo. Tendo purgado a tensão nervosa de si, viu claramente que o que não pode ser curado, deve ser tolerado.

– Alguém, leve-o e providencie-lhe um banho – resmungou, cansado – e deixem-no fora de minhas vistas, por algum tempo. – Então, acalmando-se um pouco, dirigiu-se a mim. – Não o assuste contando para onde vamos indo. Está numa enrascada, o pobre menino.

Quando saímos, o velhaco de coração mole estava mandando uma mensagem de emergência para Ganimedes tentando entrar em contato com o tio do garoto.

Claro, não sabíamos naquela hora, mas aquele menino foi um presente de Deus – um genuíno golpe de sorte. Desviou-nos a atenção de Calisto. Deu-nos algo mais para nos preocuparmos. A tensão, que ao fim de quatro dias tinha quase atingido o ponto de ruptura, relaxou-se completamente.

Havia algo refrescante na alegria natural do garoto, em sua luminosa ingenuidade. Ele andava pela nave perguntando as questões mais tolas. Insistia em esperar piratas a qualquer momento. E, acima de tudo, persistia em olhar todos e cada um de nós como heróis de seus contos infantis.

Isto pelo menos confortava nossos egos, claro, e elevava nossa moral. Rivalizávamos uns com os outros em peito erguido a contar bravatas, e o velho Mac Steeden, que aos olhos de Stanley era um semideus, quebrou todos os recordes de pura e simples mentira.

Lembro-me, particularmente, da conversa que tivemos no sétimo dia de viagem. Acabávamos de passar o ponto médio da rota e começávamos uma cuidadosa desaceleração. Todos nós (exceto Harrigan e Tuley que estavam nos motores) estávamos sentados na sala de controle. Whitefield, com o rabo dos olhos no Mathematico, conduzia a conversação, e, como sempre, falava sobre zoologia.

– É uma coisinha como um verme – estava dizendo – encontrado apenas na Europa. É chamado Carolus Europis, mas sempre nos referimos a ele como o Verme Magnético. Tem cerca de doze centímetros de comprimento, e tem uma cor assim como ardósia – a coisa mais nojenta que se possa imaginar.

– Gastamos seis meses estudando esse verme, e nunca vi o velho Mornikoff tão excitado com qualquer outra coisa antes. Veja só, matava por algum tipo de campo magnético. Colocando-se um Verme Magnético num extremo de uma sala e uma lagarta no outro, esperando cinco segundos, a lagarta se encolhe e morre.

– E o mais engraçado: não atingiria um sapo, por ser demasiado grande, mas se pegamos esse sapo e colocamos alguma espécie de envoltório de ferro à sua volta, o Verme Magnético mata-o do mesmo modo. É por isso que sabemos que o faz por meio de algum campo magnético – a presença de ferro aumenta sua força mais de quatro vezes.

Sua história nos impressionou bastante. A voz de baixo profundo de Joe Brock ressoou. – Estou bem contente que essas coisas são bem pequenas, se o que você diz é certo.

Mac Steeden espreguiçou-se e cofiou seu bigode cinzento com exagerada indiferença. – Você chama esse verme incomum. Não é nada comparado às coisas que já vi em outros tempos – Abanou a cabeça lentamente, recordando, e sabíamos que estávamos esperando para escutar uma história longa e fantástica. Alguém rosnou, surdamente, mas Stanley animou-se no minuto em que viu que o velho veterano estava para contar uma história.

Steeden notou os olhos acesos do garoto, e dirigiu-se ao pequeno companheiro. – Eu estava com Peewee Wilson quando aconteceu – já ouviu falar de Peewee Wilson, não?

– Oh, sim. – Os olhos de Stanley irradiavam seu culto ao herói. – Li vários livros sobre ele. Foi o maior espaçonauta que já existiu.

– Pode apostar todo o rádium de Titânio que foi, garoto. Não era mais alto que você, e não pesava mais de cinquenta quilos, mas equivalia cinco vezes seu peso em Demônios Venusianos, em qualquer luta. E eu e ele éramos assim. Nunca ia a nenhum lugar, sem que eu o acompanhasse. Quando a coisa estava preta, era sempre a mim que ele recorria.

Suspirou, lúgubre. – Fiquei com ele até o fim. Apenas uma perna quebrada que me impediu de ir com ele em sua última viagem…

Engasgou de repente, e um silêncio gelado varreu-nos todos. O rosto de Whitefield ficou cinzento, a boca do capitão torceu-se um pouco, e meu coração deprimiu-se até a planta de meu pé.

Ninguém falava, mas havia apenas um pensamento entre nós seis. A última viagem de Peewee Wilson tinha sido para Calisto. Tinha sido da segunda expedição – e nunca retornara. Éramos a oitava.

Stanley olhou para cada um de nós, assombrado, mas todos nós evitamos seus olhos.

Foi o capitão Bartlett que se recuperou primeiro.

– Diga, Steeden, você tem uma velha roupa espacial de Peewee Wilson, não? – Sua voz era calma e constante, mas eu podia ver que de tinha que dispender um grande esforço para se manter assim.

Steeden acordou, e olhou para cima. Esteve mastigando as pontas de seu bigode (o que sempre fazia, quando nervoso) e agora elas caíam, apontadas para baixo, descompostas.

– Claro, capitão. Ele deu-a para mim com suas próprias mãos, claro. Foi em ‘23, quando as novas roupas de aço estavam começando a sair. Peewee não tinha mais nenhum uso para sua velha, de vitri-borracha, de modo que deu-ma de presente – e a guardei, desde então. Dá-me boa sorte.

– Bem, eu estava pensando que podíamos arranjar aquela roupa para o garoto aqui. Nenhuma outra pode lhe servir, e ele precisa de uma.

Os olhos ensombrecidos do veterano endureceram e ele abanou a cabeça, vigorosamente. – Não senhor, Capitão; ninguém põe a mão naquela velha roupa. Peewee me deu de presente. Com suas próprias mãos! É… e sagrada! É o que é!

O resto de nós concordou imediatamente com o capitão, mas a obstinação de Steeden estabeleceu-se, e enrijeceu. De novo e de novo ele repetia: – Aquela velha roupa fica onde está. – E enfatizava a questão com golpes de seu punho.

Estávamos para desistir, quando Stanley, até então discretamente silencioso, interpelou-o.

– Por favor, sr. Steeden – havia a suspeita de um tremor em sua voz – deixe-me ficar com ela. Vou tomar bastante cuidado com ela. Aposto que se Peewee Wilson estivesse vivo hoje, ele diria que eu poderia ficar com ela. – Seus olhos azuis umedeceram, e seu lábio tremeu um pouco. O menino era um ator perfeito.

Steeden parecia hesitante e ficou mordendo seu bigode de novo. – Bem… ora, bem, estão todos contra mim, O garoto pode ficar com ela, mas não esperem que eu vá arranjá-la! Vocês podem perder o seu sono com isso – eu lavo minhas mãos.

E assim o capitão Bartlett matou dois coelhos com uma só cajadada. Desviou nossas mentes de Calisto numa hora em que a moral estava periclitante, e deu-nos algo para pensar pelo resto da viagem – para remodelar aquela antiga relíquia, que era o trabalho de mais ou menos uma semana.

Trabalhamos com aquela antiguidade com uma concentração desproporcionada à dimensão do trabalho. Com isto, esquecemos o orbe sempre crescente de Calisto. Soldamos todas as rachaduras e fendas na velha roupa. Remendamos o interior com malha fina de alumínio. Reformamos a pequena unidade aquecedora e instalamos novos recipientes de oxigênio, de tungstênio.

Mesmo o capitão nos dava uma mão com a roupa, e Steeden, depois do primeiro dia, a despeito de sua tirada, do começo, lançou-se com vontade ao trabalho.

Acabamos no dia da descida, e Stanley, quando a experimentou, brilhava de orgulho, enquanto Steeden estava perto, sorrindo e torcendo seu bigode.

Com o passar dos dias, o circulo azul pálido que era Calisto cresceu na visichapa até ocupar a maior parte do céu. O último dia foi inquietante. Executávamos nossas tarefas abstraidamente, e cuidadosamente evitávamos a visão do frio satélite, à frente.

Mergulhamos numa espiral longa e que se contraía lentamente. Com esta manobra, o capitão esperava obter algum conhecimento preliminar da natureza do astro e seus habitantes, mas a informação conseguida era quase inteiramente negativa. A grande percentagem de dióxido de carbono presente na atmosfera escassa e fria era favorável à vida vegetal, de modo que a vegetação era numerosa e diversificada. Porém, o conteúdo de 3% de oxigênio parecia excluir toda possibilidade de vida animal, além das espécies mais simples e menores. Tampouco havia evidência de cidades ou estruturas artificiais de qualquer espécie.

Circundamos Calisto cinco vezes antes de localizarmos um grande lago, mais ou menos com a forma de uma cabeça de cavalo. Foi em direção a esse lago que lentamente baixamos, pois a última mensagem da segunda expedição – a expedição de Peewee Wilson – falava de aterrar perto desse lago.

Ainda estávamos a meia milha de altitude, quando localizamos o brilhante ovoide metálico que era o “Fobos”, e quando finalmente nos chocamos suavemente contra o tapete verde de vegetação, estávamos a menos de quinhentos metros da nave sinistrada.

– Estranho – murmurou o capitão, depois de termos nos reunido na sala de controle, esperando as próximas ordens. – Parece não haver nenhuma evidência de violência. Era verdade! O “Fobos” lá estava, quietamente, aparentemente intacto. Seu casco antiquado de aço brilhava intensamente sob a luz amarela do volumoso Júpiter, pois o pouco oxigênio da atmosfera não podia abrir caminhos de ferrugem por seu resistente exterior.

O capitão emergiu de uma severa contemplação e voltou-se para Charney, ao rádio. – Ganimedes respondeu?

– Sim, senhor. Desejam-nos sorte. – Disse-o simplesmente, mas um calafrio percorreu a minha espinha.

Nenhum músculo da face do capitão se abalou. – Tentou se comunicar com o “Fobos”?

– Sem resposta, senhor.

– Três de nós irão investigar o “Fobos”. Algumas das respostas ao menos, estarão lá.

– Palitos de fósforo! – falou Brock, impassível.

O capitão assentiu, grave.

Pegou oito fósforos, quebrou três pela metade, e estendeu o braço para nós, sem dizer palavra.

Charney adiantou-se, tirando primeiro. Estava quebrado e voltou quietamente para o armário das roupas espaciais. Tuley foi o próximo e depois dele Harrigan e Whitefield. Então, eu, e tirei o segundo fósforo quebrado. Sorri e segui Charney , e em trinta segundos, o velho Steeden juntava-se a nós.

– A nave lhes dará apoio, amigos – disse o Capitão quietamente, ao nos apertar as mãos: – Se algo perigoso acontecer, corram de volta. Nada de heroísmos agora, pois não podemos nos dar ao luxo de perder homens.

Inspecionamos nosso Lectrônic de bolso e saímos. Não sabíamos exatamente o que esperar e não tínhamos certeza de nada, exceto que nossos primeiros passos no solo de Calisto poderiam ser os últimos, mas nenhum de nós hesitou sequer um instante. Nas historietas infantis sobre o espaço, a coragem é uma comodidade barata, mas é muitíssimo mais cara na vida real. E é com considerável orgulho que recordo os primeiros passos firmes com que nós três deixamos a proteção do ‘Ceres”.

Olhei para trás apenas uma vez, e tive um relance da face de Stanley, apertada contra o espesso vidro da escotilha. Mesmo a uma certa distância, sua excitação era apenas aparente. Pobre menino! Nos últimos dois dias, estivera convencido de que estávamos a caminho de arrasarmos algum domínio pirata, e estava morrendo de impaciência pelo começo da luta. Claro, nenhum de nós pensou em desiludi-lo.

O exterior do casco do “Fobos” erguia-se ante nós e nos diminuía com seu poderoso vulto. A nave gigante permanecia no tapete verde escuro, silenciosa como a morte. Uma das sete que haviam tentado, e falharam. E nós éramos a oitava.

Charney quebrou o silêncio perturbador. – O que são estas manchas brancas no casco?

Esticou um dedo revestido de metal e esfregou-o ao longo da chapa de aço. Retirou-o e olhou para a polpa branca macia sobre ele. Com um estremecimento involuntário de repulsa, raspou-a sobre a grama áspera, do chão.

– Que pensa que é?

Toda a nave, tanto quanto podíamos ver – exceto por aquela porção imediatamente perto do chão – estava suja com uma fina camada da substância esponjosa. Parecia esponja seca, como…

Eu disse: – Parece lodo deixado pela passagem de uma lesma gigante, que tivesse saído do lago e deslizado sobre a nave.

Eu não falava sério, mas os outros dois lançaram olhares pressurosos para o espelhado lago onde a imagem de Júpiter estava, imperturbada. Charney tomou seu Lectrônic.

– Ei! – gritou Steeden, súbito, sua voz, metálica e fanhosa, pelo rádio – não devemos ficar aqui conversando. Precisamos achar algum meio de entrar na nave; deve haver alguma abertura no casco. Vá pela direita, Charney, e você, Jenkins, para a esquerda. Verei se posso subir por esta coisa de algum modo.

Considerando cuidadosamente o casco suavemente arredondado, foi para trás, e saltou. Em Calisto, claro, ele pesava apenas dez quilos, ou menos, mesmo com a roupa espacial, de modo que se ergueu nove ou dez metros. Bateu de leve contra o casco, e ao começar a deslizar para baixo, agarrou a cabeça de um rebite e começou a galgar o casco.

Acenando para Charney a esta altura, afastei-me.

– Tudo em ordem? – A voz do capitão soava fraca, em meu ouvido.

– Tudo OK – repliquei – até agora. – E ao dizer isto, o “Ceres” desapareceu atrás do vulto convexo do “Fobos”, morto, e eu estava só, sobre o misterioso satélite.

Prossegui minha ronda em silêncio. A “pele” da espaçonave era contínua exceto pelas escotilhas, negras, imóveis, a mais baixa das quais estava bem acima de minha cabeça. Uma ou duas vezes pensei que pude ver Steeden subindo como um macaco para o topo do casco suave, mas talvez estivesse enganado.

Atingi a proa, finalmente, banhada à plena luz de Júpiter. Ali, a fileira inferior de escotilhas estava baixa o bastante para poder espiar lá dentro, e ao passar de uma para outra, senti-me como olhando para uma nave de fantasmas, pois à luz fantasmagórica, todos os objetos apareciam apenas como sombras incertas.

Apenas a última janela da fileira que se mostrou de um súbito e importante interesse. No retângulo amarelo da luz de Júpiter, projetado sobre o chão, estava o que restava de um homem. Suas roupas estavam soltas à volta dele, soltas, e sua camisa estava enrugada como se as costelas sob ela a houvessem moldado naquela posição. No espaço entre o colarinho aberto da camisa e o quepe de engenheiro, aparecia uma caveira sorridente, sem olhos. O quepe, um pouco deslocado sobre a caveira, parecia adicionar o último refinamento de horror àquela visão.

Um grito em meus ouvidos fez saltar meu coração. Era Steeden, praguejando em algum lugar da neve. Quase de imediato, vi seu corpo revestido de aço deslizando e caindo pelo flanco da nave.

Corremos para ele em passos longos e flutuantes, e ele fez sinal para nós, indicando o lago. Nas suas bordas, parou e inclinou-se sobre um objeto meio enterrado. Dois saltos nos trouxeram perto dele, e vimos que o objeto era um humano em traje espacial, deitado de bruços. Sobre ele estava uma camada espessa da mesma substância macilenta que cobria o “Fobos”.

– Eu o vi do alto da nave – disse Steeden, meio sem fôlego, ao revirar o cadáver.

O que vimos fez-nos explodir simultaneamente em lágrimas. Pelo visor de vidro, aparecia um rosto leproso. Às feições estavam apodrecidas, desmanchadas, como se o apodrecimento tivesse cessado pela interrupção do suprimento de ar. Aqui e ali um pedaço de osso acinzentado aparecia. Foi a coisa mais repulsiva que já havia visto, muito embora já tivesse visto coisas bastante ruins.

– Meu Deus! – a voz de Charney era quase um soluço. – Eles simplesmente morrem e apodrecem. – Falei a Steeden do esqueleto vestido que vi pela escotilha.

– Maldição, é um enigma – resmungou Steeden – e a resposta deve estar dentro do “Fobos”. – Houve um silêncio momentâneo. – Sugiro uma coisa. Um de nós pode voltar e falar para o capitão para desembarcar o desintegrador. Deve haver luz suficiente em Calisto, e, em baixa potência, podemos ter um feixe fino o bastante para abrir um buraco sem explodir com a nave em pedacinhos. Você vai, Jenkins. Charney e eu veremos se podemos encontrar mais alguns dos pobres coitados.

Fui para o ‘Ceres” sem delongas, cobrindo a distância com saltos bem eficientes. Três quartos da distância haviam sido cobertos quando um grito alto soado metalicamente em meus ouvidos, trouxe-me a uma parada brusca. Virei-me assustado, e fiquei petrificado com o que vi.

A superfície do lago fora quebrada numa espuma efervescente e dela saíam as partes dianteiras do que pareciam ser lagartas gigantescas. Esticavam-se para terra, corpos de um cinza sujo pingando lodo e água. Tinham um metro e meio de comprimento, meio metro de espessura, e seu método de locomoção era o mais lento rastejar, para conservar o oxigênio. Exceto por uma projeção pontuda em sua extremidade anterior, cuja ponta brilhava num vermelho fraco, eram absolutamente disformes.

Enquanto olhei, seu número aumentava, até que a borda se tornou uma só massa oscilante de carne cinza repugnante.

Charney e Steeden estavam correndo em direção ao “Ceres”, mas menos da metade da distância tinham percorrido, quando tropeçaram, sua corrida reduzindo-se a uma série de tropeços cegos, e mesmo isto cessou, e quase caíram de joelhos.

A voz de Charney soou fracamente em meus ouvidos: – Busque ajuda! Minha cabeça está se rompendo. Não posso mover-me! Eu… – Ambos estavam imóveis agora.

Comecei a dirigir-me para eles automaticamente, mas um golpe repentino em minhas têmporas me atingiu, e por um momento fiquei confuso.

Então ouvi um grito desesperado de Whitefield: – Volte para a nave, Jenkins! Volte! Volte!

Voltei-me para obedecer, pois a dor aumentava para algo contínuo e dilacerante. Bamboleava e quase caía ao me aproximar da porta da nave, e creio que estava a ponto de desfalecer quando afinal caí dentro dela. Depois, só me lembro de coisas confusas por um bom período.

Minha próxima impressão clara foi da sala de controle do “Ceres”. Alguém havia tirado a minha roupa espacial, e olhei em volta, desalentado, uma cena da mais completa confusão. Meu cérebro estava de alguma forma vazio, e o capitão Bartlett, ao se inclinar sobre mim, aparecia em dobro.

– Você sabe o que aquelas abomináveis criaturas são? – Apontou para fora, para as lagartas gigantes. Abanei a cabeça, mudo.

– São os trisavôs do Verme Magnético de que Whitefield nos falou. Lembra-se do Verme Magnético?

Assenti. – O que mata por um campo magnético que é reforçado pelo ferro nas proximidades.

– Raios, deve ser isso mesmo – gritou Whitefield, de repente. – Poderia jurar. Se não fosse pela sorte de nosso casco ser de berílio-tungstênio, e não de aço – como o “Fobos” e os outros – todos nós estaríamos inconscientes agora e mortos em instantes.

– Então é essa a ameaça de Calisto – minha voz se elevou, num súbito assustar-se. – Mas e Charney e Steeden?

– Acabados – murmurou o capitão, lúgubre. – Inconscientes – talvez mortos. Aquelas minhocas nojentas estão rastejando em direção a eles a não há nada que possamos fazer. – Estalou as articulações dos dedos. – Não podemos ir atrás deles com nossas roupas espaciais sem assinar nossa pena de morte – os trajes espaciais são de aço. Ninguém pode ficar lá e voltar sem uma roupa espacial. Não temos armas com feixe fino a ponto de atingir os Vermes sem calcinar Charney e Steeden também. Pensei em manobrar o “Ceres” para perto e dar uma corrida, mas não se pode manobrar uma espaçonave na superfície de um planeta desta forma, sem rompê-la.

– Em suma – interrompi, secamente – vamos ficar aqui e vê-los morrer. – Ele concordou e deu-me as costas, amargurado.

Senti um puxãozinho em minha manga, e ao voltar-me era Stanley, com seus grandes olhos azuis olhando para mim. Naquela excitação, esqueci-me dele, e agora olhava para ele de mau humor.

– Que é? – Fui logo dizendo.

– Sr. Jenkins. – Seus olhos estavam vermelhos, e penso que ele preferiria piratas aos Vermes Magnéticos, facilmente. – Sr, Jenkins, talvez eu pudesse ir e pegar o sr. Charney e o sr. Steeden.

Simplesmente virei o rosto.

– Mas, sr. Jenkins, eu posso. Ouvi o que o sr. Whitefield disse, e a minha roupa espacial não é de aço; é de vitri-borracha.

– O garoto está certo – falou Whitefield devagar, quando Stanley repetiu sua oferta a todos os outros. – O campo não-reforçado não nos faz mal, é evidente. Ele estaria seguro numa roupa de vitri-borracha.

– Mas aquela roupa não está em boas condições! – Objetou o capitão. – Nunca pensei em fazer o garoto usá-la. – Terminou hesitante e seus modos eram evidentemente irresolutos.

– Não podemos deixar Neal e Mac lá fora sem tentarmos, capitão – disse Brock, impassível.

O capitão decidiu-se subitamente e tornou-se um torvelinho de ação. Mergulhou no compartimento dos trajes espaciais procurando a relíquia, e ajudou Stanley a vestir-se.

– Pegue Steeden primeiro – disse o capitão, ao fechar o último parafuso. – Ele é mais velho e tem menos resistência ao campo. Boa sorte, menino, e se não puder, volte imediatamente. Imediatamente, ouviu bem?

Stanley caiu no primeiro passo, mas a vida em Ganimedes tinha-o acostumado a gravidades abaixo do normal e recuperou-se rapidamente. Não mostrou sinais de hesitação, ao saltar para os dois vultos caídos, e respiramos mais levemente. Claro, o campo magnético não o estava afetando, então.

Ele tinha um dos dois vultos sobre os ombros agora, e estava voltando para a nave a um passo apenas um pouco mais lento. Ao jogar sua carga dentro do compartimento estanque, acenou para nós na janela, e respondemos, acenando para ele.

Ele mal se afastara, quando já tínhamos Steeden dentro. Arrancamos seu traje espacial e o deitamos no catre, fraco e pálido.

O capitão aplicou uma orelha a seu peito e logo riu, aliviado! – O malandro ainda está em ordem.

Reunimo-nos alegres à sua volta, ao ouvirmos isto, todos ansiosos para verificar o pulso dele, certificando-nos de que estava vivo. Seu rosto moveu-se um pouco, e quando uma voz baixa e pastosa se fez ouvir: – Então eu disse ao Peewee, eu disse…– nossas últimas dúvidas foram dissipadas.

Foi um súbito grito de Whitefield que nos levou de volta à janela: – Algo está errado com o garoto.

Stanley estava a meio caminho de volta à nave com sua segunda carga, mas estava cambaleando – progredindo erraticamente.

– Não pode ser – murmurou Whitefield, rouco. – Não pode ser. O campo não pode atingi-lo!

– Deus! – o capitão pôs a mão na cabeça, desesperado – aquela maldita antiguidade não tem rádio. Ele não pode nos dizer o que está errado. – Afastou-se de súbito. – Vou atrás dele. Campo ou não, vou pegá-lo.

– Espere, capitão – disse Tuley , agarrando-o pelo braço – ele vai conseguir.

Stanley estava correndo de novo, mas de uma forma curiosa, oscilando, que deixava bem claro que ele não sabia onde estava indo. Por duas ou três vezes escorregou e caiu, mas a cada vez ele conseguia erguer-se de novo. Caiu contra o casco da nave, finalmente, e rastejou para o compartimento estanque, aberto. Gritamos e rezamos e transpiramos, mas não podíamos ajudar.

E então ele simplesmente desapareceu. Jogara-se contra a porta, e caiu para dentro.

Trouxemos os dois para dentro em tempo recorde, e tiramos-lhes os trajes. Charney estava vivo, logo vimos, e depois o desertamos sem cerimônia, para ver Stanley. O azul de seu rosto, sua língua enrolada, a linha de sangue correndo do nariz para o queixo já contava toda a história.

– O traje estava vazando – disse Harrigan.

– Afastem-se dele – ordenou o capitão – dêem-lhe ar.

Esperamos. Finalmente, um gemido fraco do menino indicava a volta da consciência, e sorrimos juntos.

– Garoto valente – disse o capitão – caminhou aqueles últimos cem metros apenas por teimosia, e nada mais. – Então de novo: – Garoto corajoso; vai ganhar uma Medalha Naval por isto, nem que eu tenha de dar a minha.

Calisto era uma bola que se reduzia no televisor – um mundo comum, sem mistérios. Stanley Fields, capitão honorário da boa nave ‘Ceres”, fazia uma careta para ele, mostrando a língua. Um gesto deselegante, mas o símbolo do triunfo do homem sobre um sistema solar hostil.

 

— FIM —

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2 comentários sobre “A Ameaça de Calisto

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